5.10.11

O álbum




O álbum de fotografias. O cão. O relógio de pulso. As roupas. A aliança. A máquina fotográfica. A garrafa de Porto com mais de 30 anos. "O Muro" de Sartre. "A Metamorfose" de Kafka.
Por mais que quisesse salvar-se juntamente com todos os bens que o preenchiam e identificavam como homem, teria de abandonar todos sem hesitações ou lamúrias.
O tempo esgotava-se e mal conseguia oxigenar as ideias que o podiam salvar daquele lugar. Ofegante, de fumo e de gases, as vistas também não encontravam o caminho. O desnorte aumentava perenemente. Urgia arrastar-se dali.

As chamas que começaram por lhe consumir o sofá, onde adormeceu de cigarro intermitente, alastraram-se como crude pela alcatifa e pelos livros. Nem as viu nascer e antes que as visse medrar já lhe engoliam a casa e as recordações.
Pelo meio das trampas que acumulava sem sentimento, existiam os objectos a que guardava culto e adoração. Aqueles que nunca imaginou morrerem antes de si. Aqueles objectos que para ele seriam uma espécie de sombra da sua passagem pela vida. Aqueles que fariam um retrato de si para os que viessem depois. Não eram objectos de conforto para satisfação fugaz. Eram objectos que contavam a sua história.
No meio da escuridão incandescente sentiu passar pelos seus pés o seu cão Rimbaud. Um fidelíssimo Jack Russel Terrier que que lhe aconchegava a solidão quando entrava em casa e deixava o mundo para trás da porta. Olhava o dono com doçura em ângulo íngreme, punha a cabeça a jeito de uma festa e depois seguia para o seu tapete. O Rimbaud era o companheiro mais discreto que poderia ter desejado. Nunca o deixaria ficar mal.
Ter procurado o seu socorro naquele momento indiciava a aflição do animal. Se Rimbaud não sabia a direcção da porta da rua, quem mais saberia? A garganta estreitou-se de realidade. Não conseguiria sair dali. Continuou rasteiro pelo chão, amagado por objectos projectados pelo calor e pelas chamas. Alguns reconhecia-lhes as formas, muitos outros não passavam de coisas vagas. O desmoronar de centenas de livros naquele momento derem-lhe um conforto estranho por perceber que estava no sítio certo. Em contraponto, nauseou-se ao realizar que milhões de palavras se perdiam naquele momento. Por causa de um estúpido cigarro! Lembrou-se de passagens de Kafka, de Sartre... do próprio Rimbaud... "Manhã coberta, em Julho. Um gosto  a cinza voa no ar...". Perdia-os agora. Os seus livros. Serão sempre diferentes dos outros milhares que correm pelo mundo.
Os olhos arregalaram-se! O álbum! caíra-lhe o álbum em cima. Não podia perder outras memórias. As lembranças dos quarenta anos que lhe antecederam. Coisas que a mente tinha apagado ou esquecido mas que aquele álbum sempre estava lá para ressuscitar. O álbum. Antes morrer a ficar sem uma vaguidão do que foi a sua sumida, mas relativamente feliz, vida. Não podia continuar. Agarrou-o mais que a própria vida e batalhou para o salvar. Para o salvar mais que a ele próprio. As coisas que um homem faz sem sentido algum para a sua própria existência... desnorteado... estava desnorteado.
Um folgo de ar fresco quase o tombou. As luzes epilépticas assinalavam a sua urgência. Salvou-se um homem. E a sua vida. E a sua vida dentro de um álbum. Rimbaud ficara para trás. Tanto o das palavras. Como o amigo.

No conforto da pensão, em que havia de ficar nos próximos tempos, abriu solenemente o álbum a quem quis salvar a alma. De emoção nos olhos, exasperava-se por ver a sua vida, como se de postais se tratassem. Como se o episódio do incêndio se extinguisse desde que as memórias, falsamente coleccionadas em papel, se mantivessem intactas. Finalmente, ao abrir o álbum, estranhamente desfigurou-se-lhe o rosto: não havia mais passado. Não existiam imagens. O calor das chamas consumiu a sua história de quarenta anos. Nesse momento olhou para dentro de si e percebeu que todas elas estavam lá. Nunca de lá saíram. Nenhum fogo poderia eliminá-las. Para quê agarrar-se a um monte de folhas, cronologicamente organizadas, como se elas soubessem melhor que ele, como teria sido o seu passado?

A estranheza das prioridades, que estabeleceu naquele dia, havia de dar-lhe que pensar até ao fim dos seus dias. O fiel Rimbaud não teria morrido.


Ao Tiago, por ter sugerido este tema... "Que objecto eu salvaria se houvesse (por exemplo) um incêndio?"





3.10.11

Amor por correspondência



Todos os dias, à mesma hora, escrevia-lhe cartas de amor, indulgentes e sofridas de saudade. Umas contemplavam-lhe a beleza imaginária, outras enalteciam-lhe os traços do carácter nobre que, tão docemente, a confortavam. Sentia uma mescla de coisas na pele e nas mãos, à medida que desenrolava letra atrás de letra. Que fazia nascer linhas de amor atrás de linhas de paixão. Que paria uma carta depois de outra, como se de um parto demorado, mas prazeroso, se tratasse, depois de lhe conhecer o desfecho. As horas à escrivaninha, entregues aos amores de um desconhecido, elevam-lhe os pensamentos ao mais puro dos planos que compõem um ser humano. Escrever palavras dirigidas ao seu amado ascendiam-na a mulher de sorte e de bons princípios. De moral e de respeito, como esperava ser reconhecida e como, no fundo, acreditava ser o homem a quem escrevia de mão fervente. 
Um dia a rapariguinha, cândida como as folhas que ameigava, ambicionou mais. Muito mais do que o decoro permitia a uma jovem platonicamente apaixonada por um estranho. As palavras, que compunham as frases, que escreviam o texto, haviam de abandonar o ninho onde todos os dias eram alimentadas.
Dobradas a preceito, como papel pardo envolvendo uma pena de ganso,  as cartas aninharam-se em envelopes perfumados, um após o outro, decorados com sisal, como se esse sisal prendesse as palavras até chegarem ao destinatário. Gostava de sonhar que o desatar da linha libertava todas as palavras, como um halo esplendoroso em direcção ao seu amor, onde este se quedava de admiração por tão belas palavras desenhadas.
O jovem rapaz não havia, contudo, de entender logo as inquietações da sua admiradora secreta. Nunca conheceu a existência de uma escrivaninha de carvalho arranhada de tantas palavras nela serem escritas, nem percebia o jasmim que perfumava o papel das cartas. Jamais entenderia que aquele amor era guardado por sisal por este ser o mais resistente dos guardiões.
Mas o mistério tomou conta dos seus dias. Invadiu-lhe as ideias e as noites. Mudou-lhe as rotinas que teimava em não largar. Agora, todos os dias, à mesma hora, aguardava impaciente a chegada do carteiro, que marotamente sorria por saber que cartas bem aprumadas vinham de mãos de jovens raparigas.
O bom rapaz, como ela suspeitava ser, era-o de facto e dedicou-se a namorar um amor desconhecido por rendição às lindas palavras que nunca lhe tinham ofertado. 
Desamarradas algumas folhas do calendário, a cabeça pairava ainda mais no ar, denunciando a todos os sintomas da sua enfermidade: estava apaixonado. 

Quando os seus lábios se conheceram, os seus corações há muito que se amavam. Trocaram o primeiro beijo, muitas luas depois, ao entardecer do Outono. 





2.10.11

As sósias


E agora uma coisa que não tem nada a ver... porque chega de coisas sérias.

É incrível como, desde que me conheço por gente, sempre fui comparada com alguém conhecido. Mesmo quando não sou comparada com pessoas conhecidas do público em geral, há sempre uma alma que diz: "faz-me lembrar alguém...". O que não terá nada a ver, certamente, com o facto de ter uma figura comum para mulher latina, morena e rodas-baixas. Nada mesmo!
Apesar de não ter tido um começo auspicioso, dado o desenvolvimento fisionómico que se vê, já considero que, afinal de contas, ser parecida aos cinco anos com a apresentadora Ana Paula Reis não era mau de todo. Comecei por me parecer com uma pessoa da idade da minha mãe o que não é, percebo hoje, necessariamente mau, ainda que me remeta para um mundo paralelo como o de Benjamin Button. 
Com o andar dos anos, e a invasão das novelas brasileiras, a adolescência trouxe-me qualquer coisa ao rosto que, aos olhos das outras pessoas, me posicionava ao nível da Nívea Stellman que, era gira sim senhora mas, convenhamos, seria um exemplo um pouco exagerado para comparações. 
Mas o grande pesadelo havia de chegar, algures em 2007, quando Vânia Fernandes ganhou a "Operação Triunfo" e ainda se esticou para o "Festival da Canção". Chamavam por mim (ela) na rua, diziam entre dentes "olha a senhora do mar", e... atenção... cheguei a dar um autógrafo porque a pessoa não acreditava que eu não era a Vânia Fernandes. Mas ainda piorou. Pessoas que me conheciam de vista, há anos, chegavam a perguntar à minha mãe: "então a Vânia está boa?". 
É caso para dizer: Não há cu para isto!
Mas o mais curioso é que, no mesmo ano, com o filme "Death Proof", à saída do cinema me dizem: "és parecida com a miúda da lap dance". Ui! Isso é que foi ficar feliz! Que a Vanessa Ferlito é grande canhão e com comparações dessas eu não me importo. 
Se seria uma boa oportunidade para comparar a Vânia com a Vanessa? Seria. Mas é tão descabido que nem vale a pena. O que interessa é que, ainda hoje, gosto de pensar em mim como uma Vanessa Ferlito (ainda que siamesa da Vânia Fernandes).
Com a idade, sabe-se, perdem-se encantos mas ganham-se tantas outras coisas. A Sara Ramirez (Dr. Callie Torres em "Anatomia de Grey") passou a ser a minha sósia mais provável para muito boa gente. Pelo cabelo, pela tez, pela corpulência (não tenho ilusões) mas sobretudo pelo rosto! E quem me conhece dizia que até a postura, a voz e a atitude eram parecidas. A isto nunca saberei responder, porque me falta o distanciamento, mas está-se mesmo a ver que não me importava nada com esta comparação, não fossem as semelhanças entre nós ficarem-se só mesmo por aqui.

E chego, finalmente, à razão que me levou a escrever sobre as minhas sósias ao longo desta vida:
Renego qualquer parecença com a Fanny do "Secret Story". Fim de história.

(bem me podia ter ficado pela Ana Paula Reis)





1.10.11

Para maiores de 30...





Nem tenho particular interesse por estas conversas da treta que se encontram na net, a cada pesquisa no Google mas, tendo em conta o contexto emocional actual, creio que pode fazer sentido aparecer pelo meio dos meus pensamentos.

Afinal de contas aqui escreve-se sobre dias cães...

(Escrito por Andy Rooney, apresentador do programa da CBS "60 Minutes")



"Para todas as mulheres com mais de 30 anos... e para aquelas que têm medo de entrar nos 30... e para os homens que têm medo das mulheres com mais de 30!
À medida que vou envelhecendo, valorizo cada vez mais as mulheres com mais de 30 anos, porque:

- Uma mulher com mais de 30 nunca te acordará a meio da noite para perguntar "Em que é que estás a pensar?". Ela não se importa com o que tu pensas.

- Se uma mulher com mais de 30 não quer ver o jogo de futebol, não se senta a teu lado a lamentar-se. Ela faz alguma coisa que queira fazer e, por vezes, é algo mais interessante.

- Uma mulher com mais de 30 conhece-se suficientemente bem a si própria para estar certa de quem é, o que quer e de quem o quer.

- Poucas mulheres com mais de 30 anos ligam alguma ao que tu possas estar a pensar sobre ela ou sobre o que ela está a fazer.

- As mulheres acima dos 30 têm dignidade. Raramente terão uma discussão aos gritos contigo na ópera ou no meio de um restaurante chique. No entanto, se tu mereceres, não hesitarão em dar-te um tiro.

- As mulheres mais velhas são generosas nos elogios, muitas vezes não merecidos. Elsa sabem o que é não ser apreciado.

- Uma mulher acima dos 30 tem segurança suficiente para te apresentar às amigas. Uma mulher mais nova acompanhada de um homem ignora frequentemente até a melhor amiga porque não confia no homem perto de outra mulher. Uma mulher com mais de 30 não se podia estar mais nas tintas se tu te vais sentir atraído pelas amigas dela, não porque confie em ti, mas porque sabe que elas não a trairão.

- As mulheres tornam-se psíquicas à medida que envelhecem. Nunca terás de confessar os teus pecados a uma mulher com mais de 30. Elas sabem sempre.

- Uma mulher com mais de 30 fica bem a usar um batom vermelho brilhante. O mesmo não se aplica às mulheres mais novas.

- Depois de ultrapassares uma ou outra ruga, vais ver que uma mulher com mais de 30 anos é de longe mais sexy do que qualquer outra colega mais nova.

- As mulheres mais velhas são correctas e honestas. Dizem-te imediatamente que és um idiota se te estiveres a comportar como tal. 

- Sim, nós elogiamos a mulher com mais de 30 por várias razões. Infelizmente, não é recíproco. Por cada bela, inteligente, segura e sexy, mulher com mais de 30 anos, existe um careca, barrigudo, em calças amarelas a fazer figura de parvo com uma empregada de mesa de 22 anos!"







30.9.11

15 coisas que não farei por ti




Coisas que não voltarei a fazer antes de um encontro:

- Arranjar o cabelo, a maquilhagem, as mãos, os pés, e fazer a depilação;
- Comprar roupa e sapatos novos;
- Comprar lingerie nova;
- Encher o frigorifico de Gin, frutas e chocolate;
- Limpar a casa;
- Mudar os lençóis;
- Comprar velas e óleo de massagens;
- Contar às amigas sobre o dia e a hora;
- Pensar no restaurante ideal;
- Desmarcar outros programas;
- Criar expectativas;
- Sonhar;
- Dizer-te "sim";
- Ser exigente comigo antes de ser contigo;
- Dizer-te que és importante na minha vida.



.

28.9.11

Mim, non Misantropa



"Misantropia é a aversão ao ser humano e à natureza humana no geral. Também engloba uma posição de desconfiança e tendência para antipatizar com outras pessoas. Um misantropo é alguém que odeia a humanidade de uma forma generalizada. O termo também é aplicável a todos aqueles que se tornam solitários por causa dos sentimentos acima mencionados (de destacar o elevado grau de desconfiança que detêm pelas outras pessoas em geral).
Misantropo é uma pessoa que tem aversão ao convívio social, prefere viver em isolamento. Aquele que não mostra preocupação em se dar com as outras pessoas, de ter uma vida social preenchida - tendência a ter uma pouca ou praticamente inexistente vida social. Estado de reclusão que alguns indivíduos escolhem para viver."

in Wikipédia



Tendencialmente as pessoas consideram que se relacionam com as outras com facilidade; que não têm problemas de sociabilização; que encaram com grande naturalidade uma conversa circunstancial com desconhecidos. Talvez não reflictam muito sobre o assunto porque, verdadeiramente, ele nem será assim tão importante para elas. Só mesmo pessoas desorientados como eu, e com a mania de querer conhecer tudo, é que se ralam em querer saber o que se passa nestes 10 mil hectares de miolos que temos na cabeça. Nunca irei conseguir - pois está visto - mas gosto de me meter com os meus pensamentos e passar em revista os comportamentos humanos, sobretudo os momentos de interacção de uns com os outros. E por ter noção das atitudes dos outros é que me excluo totalmente do grupo de indivíduos misantropos. Dos tantos que por aí há. Não serei filantropa, que não sou, mas a verdade é que sou uma apaixonada pelo Ser Humano, no mais literal dos sentidos. Apaixonada por nós enquanto Seres, e enquanto animais complexos, sobretudo nas ligações sociais que estabelecemos, até naquelas a que alguns se condenam a ignorar não por inércia mas por patologia.
Nestas minhas incursões pelo mundo dos comportamentos, não raras vezes constato que há por aí muito boa gente com desvios comportamentais, para não lhes chamar outra coisa (que iria parecer muito mal e até um pouco misantrópico). Podia enunciar o autista social (ignoram a existência dos outros), o político social (eternos conquistadores de multidões mais pelas bazófias que pelas acções) e o show-off social (muito barulho, muita presença, muita alegria, pouco conteúdo), entre muitos outros géneros, que certamente existem (enviem-me sugestões). Ainda assim, no campo vastíssimo das acções/reacções, consigo eleger aquele pelo qual tenho particular predilecção: o estilo "vou-te-comer-social".
Quantos de nós não vestiram já a pele desta poderosa figura que baixa em nós como se de uma possessão se tratasse. Não sendo o traço estruturante de carácter, é um perfil que se encaixa, ou sobrepõem, a todos os outros, o que lhe confere um carisma e enchantement irresistíveis. Em noitadas loucas ou jogos de engate é a melhor personagem a adoptar. Este é o momento alto de qualquer encontro social que mais gozo dá observar.
Se repararem bem, estes tipos jamais poderão ser misantropos mas davam, isso sim, belíssimos ilusionistas de palavras e de aparições: "ora digo uma laracha que te faz corar... ora desapareço três dias porque tenho medo que avances demais".
É por estas e por outras que, apesar de não me identificar com eles, cada vez mais começo a gostar de misantropos. Estão na deles. Não chateiam ninguém. Não se impõem em lugar nenhum. São uma companhia do melhor que há para quem tem a estrutura fraca para trastes, porque, simplesmente, nem os vêem.


Agora, para legitimar tudo aquilo que disse, teria mesmo de apontar um dedo ao meu umbigo e autoavaliar-me dos pés à cabeça, relativamente ao meu comportamento com os outros não é?
Pois garanto que isso era história que nem dava para começar.
Porque mim, non misantropa com os outros. Mim, misantropa comigo.
Assim me ensinaram.

(Sim, isto é um recado a todos os idiotas que fogem das relações depois de insistirem na fase do engate, fazendo a pessoa enganada odiar os outros e o mundo.)





27.9.11

O "descoraçado"



Afinal o teu coração era de vidro. Partiu-se mal lhe toquei. No primeiro sopro que lhe lancei estilhaçou-se e projectou milhões de partes de si, em lascas aguçadas. Caíram sobre o meu rosto e mataram-me de vergonha. Caíram sobre o meu amor por ti. Caíram sobre o meu amor por mim. 
Ficaste descoraçado. Ou apenas vestiste o traje da pessoa que já eras por dentro mas não se via por fora. 
E para mim é já tarde demais para recuar, quando todas as peças cristalinas da tua armadilha me estão já  cravadas nas costas e, irremediavelmente, em todo o meu corpo, que se tinha entregue já a ti. 
Não me avisaste que eras feito de uma loiça intocável. Que a matéria prima de que és feito é intocável mas não por ser sensível. É intocável por nunca me a teres dado a apreciar. Idiota esta minha pessoa que pensou poder bebericar de um fino vaso de cristal, quando a mais do que ânforas de barro não estou destinada.
Apesar de reconhecer-te agora como carrasco, hoje choro-te a falta. Choro a perda de uma coisa que não eras tu. Choro por algo que penso que perdi mas na realidade nunca esteve noutro lado que não fosse na minha cabeça. Ou mais lá dentro. Dentro do peito. Dos pulmões. Porque por esta altura já só te respirava. 

Nem cheguei a dizer que te amava e que o meu coração já era teu... de um traste descoraçado que não merece um segundo bater no peito.



12.9.11

A freira e a prostituta



A disciplina pautava todas as horas do seu dia, todos os dias, há mais de 20 anos. As regras a que se impunha estavam apenas na sua cabeça e não tinha ninguém que a obrigasse ao seu cumprimento. Era prisioneira de normas que não constavam de qualquer manual. Ninguém lhe pediu para ser rígida. Nunca lhe foram impostas restrições. Viveu a mandar em si própria. Muitas vezes pensava que era assim pela educação que tinha recebido mas, no final,  acabava caindo na voracidade do passado e percebia que nunca esteve lá ninguém para a educar, na mesma medida que nunca teve ninguém para a repreender. Teve de se educar a si própria e por isso era seca e inerte. Por isso errou muito, e continuava a errar, mesmo sabendo que tinha de inverter o sentido dessa inevitabilidade. Mas não sabia viver a vida noutro prumo que não fosse o desalinhado. E nas profundezas da sua mente sabia-o tão bem que passava os dias a rezar para pedir perdão. E era esse o único prazer a que se permitia: rezar. Rezava de Sol a Sol, antes de iniciar os trabalhos da casa e mais tarde, quando ia trabalhar. Quando regressava a casa, exausta, da indignidade que trazia no corpo, ainda arranjava forças para rezar mais e mais. Era nessa altura que percebia o quão desviado o seu caminho havia se tornado. O quão tresmalhada se tornou aos olhos do Deus que adorava. 
Recordava-se, então, da sua irmã Beneditina e do caminho imaculado que tinha optado trilhar. O caminho que ela tinha tido oportunidade de fazer, de mão dada com sua irmã, mas que acreditou puder fazer sozinha, fora das quatro paredes de uma cela. A liberdade que julgava não alcançar no convento, alcançou nas ruas fétidas e nojentas de cor cinzenta, amarrada a dinheiro podre vindo de mãos incognitamente nojentas que lhe marcavam as carnes do corpo. O seu corpo, que podia ter entregue à candura de Deus, rebolava-se agora por homens que desconhecia, em quartos e becos pocilguentos, cobertos de doenças e histórias inenarráveis. Por vezes também rezava enquanto pecava. Alivia-lhe a alma. Deixava a mente fugir dali e passear-se pelos jardins do convento de sua irmã. Por momentos, enquanto era possuída, acreditava que a sua fé em Deus a havia de salvar dali e que, na hora em que fosse chamada lá acima, Ele seria justo para com a mulher pecadora que nunca dormia sem antes rezar.

A irmã Beneditina, benta de nascença, não conheceu outro trilho que não fosse o do bem. Pura e casta, não deu apenas as mãos à religião, casou-se com ela logo no primeiro dia de noviça. Se outros caminhos haviam para percorrer na vida, ela nunca os conheceu nem queria. Nunca olhou para o lado. Nunca soube que o seu corpo e mente lhe podiam servir também a ela e não apenas a Deus. Entregou-se apenas a Ele. E não foi enganada. Mulher feita, de peitos firmes e coluna vertebral hirta, sabia bem que a entrega de corpo e alma que se falava no convento, não o era de forma tão literal quanto o praticava. 
Com isto, ganhou barriga às contas das orações fora de horas e dos encontros nada bentos na sacristia. Tinha o menino nos braços não tardava nada e já não tinha santo a que orar, por saber que as suas preces não iam mais ser atendidas. Estava aterrada de medo, não pelo sucedido mas pelo medo de ser descoberta e devolvida às ruas porcas que acolhiam a irmã. Pensava para si que o seu corpo, fecundado como o de um animal, não havia de ser de mais ninguém.  A salvação de uma valeta, e de uma vida de prostituição quase certa, não chegaria se não agisse sem coração. Não bastando a prevaricação original ainda coroou a maldade de morte. À hora do nascimento deu-se também a morte do filho do seu pecado. Abafado no hábito da mãe, nem nunca soube o que era o impulso de uns pulmões para respirar. 
Estava salva de um destino que conhecia grotesco. Congratulou-se por conseguir subtrair o problema da sua vida. Nunca se lembrou de Deus, nem do que Ele lhe ensinou, nem naquele dia, nem nos mil dias que se haviam de seguir.

Na corrida ao céu só havia lugar para uma das irmãs. 
Deus ficou confuso. Não sabia quem havia de mandar subir.





9.9.11

O presente...


... do Lampâda Mervelha (sim, é mesmo assim que se escreve!)

7.9.11

Giz



Durante anos gravava em mim o nome das pessoas de quem gostava, como quem esculpe na pedra. Talhava de forma quase irreversível as pessoas em mim com a certeza de quem se tatua sem medo de arrependimentos. Com a certeza de quem acha que as pessoas quando chegam ao terminal das nossas vidas só trazem bilhete de vinda e não quererão comprar de volta.
O tempo passou e percebi que há pessoas que vêm mas que voltam para o lugar de onde vieram, fora das nossas vidas, noutro Mundo longe do nosso. E que depois custava horrores lixar os nomes das pessoas do nosso coração para as apagar. Doíam-me os braços e, no fim, o coração ficava gasto. Limpo mas gasto.
Desde então decidi que não há nomes definitivos gravados em mim. Pinto-os a cal e todos os Verões sento-me à soleira da minha vida, contemplando cada pessoa com a preocupação de quem quer renovar as pinturas que valem a pena.
No terminal onde me encontro chegam e partem viajantes. Alguns chegam, contam-me histórias dos sítios de onde vêm. Outros partem e levam histórias de mim. Outros ficam e fazem a história cá dentro, comigo. E vão permanecendo em mim, sem ser preciso cravar o escopro na pedra.  
Comprei, enfim, paus de giz.