26.7.11

Discípula de ninguém




Vieram homens e mulheres de corações encortiçados e palavras de vidro. Vociferavam enormidades sem saber da sua razão. Empeitavam princípios preconceituosos do topo de toda a sua arrogância. Julgavam-se intocáveis e detentores da toda a moral da humanidade por nunca ninguém lhes ter dito o contrário. Eram podres nas vísceras que vomitavam pela boca que revestiam de uma verdade apenas sua. 
Aquela mulher nunca se vira rodeada de tantos asnos, apesar de saber que a sua punição viria de um povo ignorante e néscio que, às portas de a ver ser julgada, não hesitaria em fermentar os ácidos do seu hebetismo. Ela sabia o que a esperava de espanto no rosto mas sem novidade na alma. Sabia que o povo que a havia posto no mundo, e criado da maneira que soube, não lhe havia de reconhecer a sua grandeza e distinção. Por isso a crucificavam agora. Por querer romper regras, viver sem amarras, não seguir leis nem religiões. Por acreditar no valor das pessoas mas não ceder à ideia de que há pessoas que têm mais valor que outras. Não respeitava hierarquias por não aceitar que entre humanos existam os que são deuses e os que são dejectos. Acreditou sempre na igualdade. Acreditou sempre na liberdade.
Por não se subjugar às ideias dos outros, não se encarneirar nos pensamentos e ideais que se propagam como vírus, não aceitou receber ordens de ninguém, não por falta de disciplina mas por lealdade aos seus princípios. Não baixou a cabeça a mandatos. Não se intimidou com chantagens. Não se calou às injustiças. Não se moveu com ingratidões. Lamentou a inveja. Riu-se da ignorância. Ensinou os mal-amados. Encarou os mentirosos.
Acima de tudo, respeitou e esperou respeito. Acima de tudo amou e esperou ser amada. Mais que tudo quis dar olhos a quem não os tinha e dar coração a quem o nunca teve.

Ataram-lhe as mãos. Cozeram-lhe a boca. Trocaram-lhe os olhos. Mataram-lhe a língua. 
Mas nunca se deixou disciplinar quando lhe quiseram arrancar a razão.



24.7.11

Suprematismo


"Estilo e movimento surgidos na década de 10 do século XX e que se prolongou até 1919, tendo como ponto de partida a obra do pintor abstrato russo Kasimir Malevitch e cruzando influências do Cubismo e do Futurismo. A sua primeira obra suprematista, um quadrado negro sobre fundo branco, denuncia a importância do papel que a geometria desempenhava neste estilo.  Em 1915 Malevitch publicou um manifesto onde propunha uma arte radicalmente abstrata, insistindo na supremacia das formas geométricas como elementos-base da composição, acompanhando-o da exposição de um conjunto de pinturas abstratas e geométricas. A representação figurativa de objetos ou simplesmente de ideias era totalmente recusada, fundamentando a pesquisa estética nos "puros sentimentos artísticos". 

A sua obra Quadrado Branco sobre Fundo Branco, de 1918, constitui o culminar desta estética da redução e torna-se de imediato o emblema do próprio movimento. Aqui, a forma destaca-se do fundo exclusivamente por subtis alterações de pinceladas, recusando qualquer diferenciação tonal. A radicalidade desta obra no sentido da máxima abstração motivou Malevitch a declarar, no ano seguinte, a morte ou esgotamento do Suprematismo enquanto experiência estética. Embora tendo conhecido pouco impacto na país de origem, o Suprematismo e a obra de Malevitch tiveram grande influência na arte europeia, nomeadamente em Kandinsky e nos artistas do grupo De Stijl. Considera-se ainda um dos movimentos precursores do Minimalismo."




Não sei se haverá melhor forma de viver rendido à paixão por outrem que não seja por "puros sentimentos artísticos". 
A mim parece-me perfeito! A metáfora perfeita!



23.7.11

O mundo contra nós




Se acreditarmos que existe uma pessoa considerada o par perfeito para todos nós, então amargura-me pensar que existe apenas uma possibilidade num bilião de encontrar essa pessoa exacta para cada ser humano. A tal correspondência perfeita. A metade da laranja para a outra metade. O testo para cada uma das panelas.
Acho impossível que 50% da população existente tenha os outros 50% para escolher o seu par perfeito ou, caso contrário, não existiriam pessoas sozinhas, nem passaríamos a vida de candeias às avessas com os nossos parceiros, numa dança de junta/separa, casa/descasa, ama/odeia.
Essa impossibilidade é adensada pelas questões geográficas, uma vez que a probabilidade de vir a conhecer "A Pessoa" estará drasticamente reduzida se, por um acaso, essa pessoa se encontrar para lá das Ilhas Pitcairn em vez de me estar geograficamente mais próxima.
É por isso que acredito que o leque de opções de cada ser humano é muito mais vasto que aquele que nos é apresentado no presente. Acredito que a nossa cara-metade pertence ao maior número de seres humanos que já passou pela terra: sem condicionantes temporais, sem fronteiras, sem língua, sem raça, sem religião. Toda a população mundial é chamada para esta equação e isso torna mais difícil a existência da correspondência perfeita, bem como a probabilidade de um dia destes nos cruzarmos a uma esquina com o coração perfeito. Se toda a população, desde o início da humanidade, contar para as correspondências, então posso ter perdido a minha oportunidade há cem mil anos atrás ou, então, estar avançada no tempo e a minha metade ainda estiver para nascer lá para o ano 3050... o desfasamento temporal pode ser tão brutal que podemos nunca nos cruzar na vida com essa pessoa.
Assim, apesar de ser difícil de entender e aceitar, existe pelo menos uma razão para não sermos todos plenamente realizados nas nossas relações e não encontrarmos a pessoa que desejaríamos. Pelo menos gosto de me convencer disto. 
É verdade que depois também existe um trilião de pessoas que não têm qualquer correspondência mas estão juntas. Chamo-lhes "Erro!". Sendo que às custas desse erro alguém perdeu uma oportunidade se de envolver com o seu par perfeito, aquele que lhe estava destinado. De amar e ser amado. De se entregar e ser colhido nos braços. De construir uma vida a dois em vez de forçar a vida de duas pessoas numa. De amar tanto que não suporta a ideia de morrerem em tempos diferentes.
Por vezes acredito nesta ideia de globalidade do amor, como se de uma enorme base de dados de relacionamentos se tratasse, outras vezes penso só que errar é intrínseco à condição humana e não devemos ser exigentes connosco. Por outro lado admito que talvez seja preferível errar na dupla mas ter companhia para sempre. Preferir a pessoa errada na altura certa do que a pessoa certa na altura errada, porque essa, nunca saberemos quando irá aparecer.

O amor talvez nem esteja contra nós mas o mundo, esse, com certeza está.






11.7.11

Equação do homem imperfeito


Equações que me levam a não ter um relacionamento:

1.      Homens bonitos gostam de mulheres bonitas;
2.      Homens bonitos têm, quase sempre, namoradas/os;
3.      Homens bonitos vivem mais em função da imagem que de princípios;
4.      Homens bonitos têm dificuldade em ser fiéis;
5.      Homens bonitos não são necessariamente homens inteligentes;
6.      Homens feios são inseguros;
7.      Homens inteligentes priorizam outros interesses que não seja conhecer mulheres;
8.      Homens inteligentes suspeitam de mulheres inteligentes que estão sozinhas;
9.      Homens inteligentes não olham para mulheres vaidosas;
10.  Homens inteligentes questionam tudo antes de uma relação começar;
11.  Homens sem interesse não são homens, são gajos;
12.  Homens sem conversa são perda de tempo;
13.  Homens sem sentido de humor são seres deprimentes;
14.  Homens com excesso de sentido de humor são irritantes;
15.  Homens sem amigos são pessoas sem alma;
16.  Homens sem família são pessoas sem passado;
17.  Homens sem passado são homens que mentem;
18.  Homens que mentem são homens infiéis;
19.  Homens que não gostam de afectos são homens perigosos;
20.  Homens que não gostam de sexo tem problemas psicológicos;
21.  Homens sozinhos, inteligentes, com sentido de humor, boa conversa, com família, amigos e cão, que gostam de trabalhar, de viajar, de namorar e ainda por cima são fieis… não existem.






10.7.11

Três breves histórias de África

Moçambique


Na solidão da selva e do mato, um homem de bata branca ajudava a natureza dos homens a sobreviver. Um dia após o outro o único enfermeiro da região dava mais sentido à palavra “Deus” e aquietava mulheres em prantos e homens em desespero contido. Numa das suas missões, umas mais possíveis que outras, deparou-se com a enfermidade de um homem rico que se empalidecia a cada instante por falta de esperança numa cura. Esse homem era visitado vezes sem conta por outros enfermeiros, médicos e curandeiros mas ninguém lhe conhecia a doença. No dia em que se cruzou com o pai de Mina, o homem teve a cura nas suas mãos. Afinal tratava-se de Paludismo. Sarou-se, viveu muito e soube agradecer a quem o salvou. Como retribuição enviou um marceneiro a casa do enfermeiro e ordenou-lhe que realizasse duas arcas em Umbila. Um trabalho rico e exemplar saiu das mãos daquele homem, num replicado padrão de beleza invulgar. As duas arcas, daquelas mãos nascidas, tinham ainda a particularidade de terem escalas distintas: uma havia de servir de arrumação às roupas de cama, a outra de caixa de costura. Mais tarde, com a saída do país, a maior das arcas havia de ficar para trás mas a pequena caixa de costura veio atracada a Mina, como se dela dependessem todas as recordações de Moçambique. 


Cabo Verde

Em 1952 a família chegara a São Vicente. Nem as longas semanas entregues ao mar lhes tirou o espanto da cara ao ver aquele mar turquesa. À medida que os olhos se acomodavam ao reflexo do Sol, apercebiam-se da inexistência da linha que marca o fim do mar e o início do céu. Estava tudo pintado do mesmo azul.
Lembraram-se do Sol de Lisboa, e das paredes brancas que o faziam brilhar e perceberam, como nunca antes haviam equacionado, que aquele momento era irrepetível nas suas vidas, mesmo que antes não o tivessem desejado.
Com a chegada a terra firme, a brisa fresca misturava-se com os seus corpos quentes e melados pela humidade, preparando-os a todos para o exotismo do clima e das gentes que os aguardavam. E foi esse momento, quando os pés tocaram o cais, que havia de ficar marcado e registado para sempre, por um qualquer desconhecido que, oportunamente, tirou este retrato.
Quando os pais e os seus três filhos se ajeitaram, conforme podiam, entre a beira-mar e a rudeza do cais foram surpreendidos por retratista inusitado naquelas paragens. O homem gostava das novidades da ilha e foi o único, durante largos anos, a captar os momentos mais marcantes em São Vicente.
Aquela família ganhou, assim, um retrato que haveria de guardar o resto da vida, de geração em geração, como um episódio fulcral na sua chegada a Cabo Verde.


Angola

Perdera os anos a que estava em Angola. Sabia que chegara ainda criança, mas não havia registo de datas, que esses pormenores eram perda de tempo. Não conhecia outra vida que não fosse a de Luanda.
Entre brancos e pretos, sabia bem as diferença para além da cor da pele: sabia que era privilegiada. Sabia que uns mandavam e os outros serviam. Aprendeu depressa que as sua vontades eram satisfeitas porque alguém estava lá para a servir. Durante a sua vida em Luanda havia de ter quatro empregados devotos. Daqueles que com o tempo se deixa de distinguir as suas fronteiras. Daqueles com quem, além da casa, se partilha a vida e os segredos.
Talvez por reconhecimento a essa dedicação, os seus pais pediam a um artista amigo que, de tempos em tempos, retratasse esses fieis empregados. Esses quatros empregados de excepção.
Assim surgiram as máscaras, que guarda religiosamente, como se de retratos se tratassem. Com o passar dos anos, e com a sua abstracção aumentando, o seu valor também se enfatiza. O valor sentimental, inestimável, das recordações de infância da sua terra natal, que não voltou a pisar.



20.6.11

A casa que falava



Sentia a casa estranha. Uma espécie de respiração que não se via. Uma atmosfera cheia, no meio de um enorme vazio. Parecia estar lá alguém, sem estar. Por isso deslocava-se lentamente, como se receasse despertar alguém. Como se temesse estar a ser vista, sem saber por quem. Percebia que a casa não tinha olhos, nem alma, nem vontade própria mas, ainda assim, suspeitava não estar só. Sabia, ao mesmo tempo, que acaso lá estivesse alguém, esse alguém, lhe conseguia seguir os passos sem que ela tivesse controlo sobre a situação. Começou a sentir-se cada vez mais perseguida. Vigiada. Talvez vigiada.  Quem estava não impunha a sua presença. Não causava transtornos e não pretendia fazer mal. De quando em vez só queria ser notado. Umas luzes acesas ali, uma portas que batiam acolá... nada de importante. Depois chegaram as materializações, as sombras que passavam pelo canto do olho, o rádio que tocava sem ninguém mandar, os livros meticulosamente seleccionados que caiam da estante, os toques na pele enquanto dormia.
Eram, de facto, pequenas chamadas de atenção para ser notado. E ela notava. Continuava, no entanto, sem saber porquê, mas o passar dos anos havia de lhe explicar.
Enquanto se ia acostumando às portas abertas e aos jogos de luzes, tentava aprender a comunicar-se, mas muitas vezes sem sucesso. Um dia, frustrada por não conseguir ver mais, e de não entender quem está do outro lado, decidiu que não queria mais ninguém em casa. Passou a ignorar os sinais, na esperança de os vencer pelo cansaço. Passaram anos e nunca lutou muito. Percebeu rápido que não tinha interferência na matéria. Era apenas um receptáculo. Deixou de lutar contra e acabou vergando-se. Agora pertencia, irremediavelmente, a outro lugar. Agora pertencia a dois lugares. Estava entre lá e cá, a entender os que estão e os que foram. A decifrar as mensagens que ficaram por enviar para entregá-las a quem as aceitar. Acabara de conhecer o seu propósito nesta vida: fazer a ponte com outras vidas.

Nunca teve medo. Esse, fica com aqueles que têm as portas fechadas. 
E ela, que nunca convidou ninguém para entrar, é agora a maior das anfitriãs.





15.6.11

Encómio à ingratidão



Queria ser comedida mas ao mesmo tempo apetece-me explodir. Queria dizer qualquer coisa imperceptivelmente inteligente mas na verdade um "vai à merda" basta. Queria sacar umas frases feitas de uns livros de filosofia mas a urgência de te mandar bugiar é maior que a correria dos olhos pelas letras das páginas.  Queria gritar-te ao ouvido que andas enganado comigo, mas na verdade prefiro humilhar-te publicamente. Humilhar-te publicamente. Soam-me melodiosas estas palavras que na tua vaidade cairão como farpas. Porque, no fundo, para ti o mais importante é a validação que as pessoas fazem dos teus actos. Acima de tudo estará sempre, não o que os outros pensam, mas o medo que tens do que eles possam pensar. Medo da humilhação. A vergonha de te verem como ser humano comum, que és, tira-te o sono de vedeta que pensas ser. Acima de todas as almas estará sempre a manutenção das aparências. O viver num cenário que só existe na tua cabeça. Protagonizar momentos como se tivesses sobre ti focos de um palco onde não pudesses falhar as deixas.
Deixa-te de merdas. Vive. Larga essa presunção de achares que és tão especial ao ponto de pensares que não é esperado menos de ti que a perfeição. Liberta essa máscara. Deixa cair todas as outras.
A pressão a que te impões, de seres perfeito, bloqueia-te todos os outros caminhos para a felicidade que tanto apregoas querer, mas que tudo fazes para afastar.
Os padrões altos que estabeleceste não se compadecem com a tua pessoa. Tu não te localizas nessa gama.
És apenas mais um miserável ser humano. Lamento dizer-to. Não vales mais que eu. Não vales mais que ninguém com quem te cruzaste até hoje. 
A beleza das coisas que crês atribuírem estatuto às pessoas, ou revesti-las de personalidade e princípios, são aquelas pelas quais agora te sentes esmagado. Acreditares e dares credibilidade a quem segue os teus padrões é o mesmo que te condenares a viver para sempre, apenas e só, com seres iguais a ti. E quão horrendo isso poderá ser? Quão intolerante serias a toda essa imaculada perfeição que acreditas ter?
Esse mundo de espelhos acabará contigo. 
Não lamento que padeças em frente a um, mas enfurece-me ter-te estendido a mão e que tenhas cuspido nela. Porque, o que tu não sabes, é que essa mão eras das poucas, que não sabendo o que ocorre por detrás do espelho, estaria disposta a quebrá-lo.

Pediste-me que um dia escrevesse para ti. Pois aqui tens. Um encómio à ingratidão.





6.6.11

A Gruta



Desistira de saber quantos dias haviam passado, por nem saber quantas noites se tinham posto. Vagueava de pedra em pedra, com gestos amedrontados e pernas trémulas, procurando um caminho que nem sabia qual era. Talvez caminhasse em círculos há muitos anos. Ou talvez tivesse percorrido uma longa recta quando a saída estava em cada esquina que não via. Nunca saberá o quão perto esteve de alcançar a claridade do dia.
De quando em vez, tombava-se. Caia em charcos. Resvalava pelas rochas. Sentia o visco de coisas desconhecidas. Mas continuava a andar. Depois sentia-se humilhado e chorava. Chorava de impotência, de dor e de medo. Questionava-se horas a fio se alguém teria vindo em seu auxílio. Se alguém teria dado pela sua falta, ou se, por outro lado, desistiram dele e se entregaram ao pensamento óbvio da perda eterna. Nessas alturas, também ele pensava desistir mas não sabia como. Percebeu cedo que nem podia terminar com a sua vida por nada ver e por nada ter. Queria morrer de fome e de sede mas talvez ainda não tivessem passado dias suficientes para sucumbir à sua ausência. Não tinha armas. Não existiam animais ferozes. Queria morrer e não sabia como. E também por isso chorava.
De uma das vezes que chorou parecia-lhe ter ouvido o seu eco. E havia de o ouvir mais vezes. De quando em vez, lá ia, compassadamente, ouvindo o seu choro copiado. No início chegara a sentir-se acompanhado mas mais tarde apercebera-se que estava, simplesmente, louco. 
Agora já nem sabia se aquela gruta existia apenas na sua cabeça ou se realmente o seu corpo estava perdido nela. Não se lembrava de como ali chegou e por isso não sabia dar resposta à sua dúvida. Estava perdido. Sabia que de nada valia esgotar-se em gritos. Não estaria lá ninguém para o ouvir.
Quando, finalmente, o corpo começara a ceder e a acompanhar os pensamentos derrotistas da mente, lembrou-se da sua vida lá fora. Lembrou-se que lá fora também vivia no escuro apesar de haver tanta luz. Lembrou-se que lá fora a gruta onde vivia tinha outros perigos. Teve a certeza, por momentos, que pelo menos sempre era melhor viver neste escuro e não saber o que nele se passa. Aceitou. Resignou-se.

Fechou os olhos e sucumbiu. Ou talvez tenha sucumbido, firmemente, sem os olhos fechar. 
Mas isso, nunca ninguém saberá e a sua vida será recordada como a de um cobarde.




1.6.11

Os cegos. Os que sofrem de cegueira.



Caso I
Mulher. 30 anos. Pedinte no metro de Lisboa. Algures entre a Baixa e Sete Rios.
Os seus olhos existem por detrás de uma película expeça. Os seus globos assinalam, com movimentos inquietos, o quão desesperados estão por conhecer o mundo, apesar de saberem há muito que essa benção não lhes será concedida. Por isso lutam, atrás da pele contínua, sem rasgões, para se acomodarem a um lugar ermo, escuro e sem concretizações ou perspectivas. O seu horizonte acaba ali mesmo. Nas sua cavidades oculares. Esta mulher, que não trás a felicidade no rosto, apenas espelha um mundo de misérias com a indolência nas mãos. Aquelas que carregam o dinheiro do seu pão, contado a tostões. Recolhido a custo das suas pernas e da sua dignidade, lamenta que a sua única esperança esteja entregue aos outros. Àqueles que vêem. Àqueles ingratos que, por verem tanto por fora, são cegos no seu interior. Àqueles que, de tão absolutos e soberbos, usam todas as suas forças para serem vistos em vez de fazerem por ver. Por isso hoje, não lhe cairá um única chapa na caixa. Porque para os outros ela nem existe. Nem caixas de esmola como a dela. 
Mas esta mulher, de perfil fraco e cabisbaixo, segue o seu caminho a tacto... de gritos sufocados... apenas de mão estendida. Em silêncio. Sem lutar. Sem pregões ou frases de coitadinha. Resigna-se à sua condição. Em silêncio. Contenta-se por apenas ser cega da vista quando os outros o são no coração. Orgulhar-se-á mais tarde por não ter culpa de ser assim, enquanto os outros lutam tanto para deixar de ver. Ainda assim é cega. E chora por isso todos os dias.


Caso II
Homem. 30 anos. Pedinte no metro de Lisboa. Estação de Sete Rios.
Há qualquer coisa de miserável na sua figura. O cabelo sujo, as roupas baças, o andar ondulante, a figura esguia. Torna-se mais perturbante à medida que se aproxima. Os seus olhos atormentam o seu rosto e desfazem-lhe as feições. Mas ele não sabe disso e por isso lá vai... passeando a obscuridade da sua imagem. Deslizando no corredor da carruagem do metro, ao ritmo da bengala e das músicas que vai inventando. Os seus olhos, vidrados como gelo, e envoltos numa película branca, já nem se movem por inutilidade. Seguem firmes como as suas mãos percussionistas e as suas palavras revoltadas. Por vezes imperceptíveis e indecifráveis, o tom ácido deixa transparecer que a cegueira dos outros à sua passagem o incomoda. Cospe na cara das dezenas de pessoas (que se encolhem nas cadeiras para não serem "sentidas") que sabe que elas estão lá, de respiração suspensa para não lhes detectar a falta de humanidade. Este homem não deseja ver para não conhecer as caras daqueles que o ignoram, apesar da orquestra que arrasta consigo todos os dias ter proporções grandiosas e impossíveis de ignorar.
A revolta espelhada nos seus olhos brancos não se compadece com melodias enternecedoras. Por isso, apenas tem para oferecer um grito de alerta em forma de batida metalizada, que se agudiza a cada dia a que assiste ao nascimento de mais cegos naquela carruagem. Na sua vida. Neste mundo.
Naquela carruagem o único que vê, é o cego.


Caso III
Mulher. 40 anos.  Passageira da Carris. Entre o Cais do Sodré e a Estação de Santa Apolónia.
Entrou no autocarro de cabeça erguida. Linda de espantar. Cabelos ruivos bem tratados, caindo lisos sobre os ombros. Umas chamas incandescentes sobre a sua cabeça altiva, endeusando-lhe a pose. Os seus olhos, de um azul cristalino, invulgarmente profundo, invadiram as dúvidas de todos. Aquela mulher perfeita, de tez irrepreensível, não deveria envergar uma bengala. Não aquela mulher. Os medos assolaram os corpos de todos os que se rendiam à sua passagem. Como pôde tal infortúnio abater-se sobre uma mulher de aparência igual à nossa? Um cego deveria ter olhos de cego. Um cego deveria pedir comida a cada carruagem de metro, a cada escadaria, a cada esquina da cidade. A beleza daquela mulher deixa todos no chão. Afinal a cegueira não é resultado da doença "pobreza". Afinal a cegueira assalta todos, assim Deus ou o Diabo o designe. 
O sorriso nos lábios, desenhados a esquadro, enfatizam o cenário desconcertante. Que razões teria aquela mulher para sorrir quando a cegueira é a mais miserável insuficiência de sentidos? Talvez se ri-se de nós. 
E não tardariam dez minutos até que tivesse todas as razões para isso. Na chegada ao seu destino, após escassos minutos de viagem, quando necessitou de auxilio, não encontrou nenhum par de olhos válido que a ajudasse. Que a conduzissem. Apesar da destreza dos sentidos, e do apurado sentido de orientação que adquiriu, ela não contou deparar-se com a ignobilidade dos seres que veêm. Esses seres que apenas conhecem o mundo pelos olhos esqueceram-se de quem o conhece o mundo com todos os outros sentidos, à excepção da visão. Uns dias antes alteraram-lhe o caminho que tão bem conhecia. Aquele percurso que metodicamente percorria à saída do autocarro sofreu uma revolução silenciosa. Sem avisos. Naquele dia saiu segura e desorientou-se logo depois, por ninguém se ter lembrado que aquele espaço também era seu. Desamparada, e de sorriso perdido, não conseguia dar ordens à bengala para sair dali. No meio dos seus passos intermitentes alguém (que vê além dos olhos) lá lhe segurou no braço e lhe dirigiu palavras de pacificação. O seu sorriso voltou nervoso. Recebeu novas instruções do recente percurso que ali se havia instalado. Percebeu o quão perigoso agora estava. No meio das palavras de circunstância, trocadas com o seu guia ocasional, lá chegou ao seu destino, pelas mãos desse desconhecido com o qual não se voltaria a cruzar.
Naquele dia, para ela, ficou clara a razão pela qual se pode rir dos outros. Ao contrários "deles"o facto de ser cega nunca será um obstáculo à sua felicidade. E também ao contrário "deles", o único mal de que padece é a cegueira... ao passo que os outros, sem saberem, também sofrem de uma certa forma de autismo.

Nesse dia percebeu que a cega não era ela.





24.5.11

Gays, Bichas e Homossexuais


Gay
(palavra inglesa)
O mesmo que homossexual.
Plural: gays.



Bicha 
(feminino de bicho) s. f.
1. Qualquer animal de corpo comprido e sem pernas, como a cobra, a lombriga, a sanguessuga, etc.
2. Objecto! ou figura de formato estreito e alongado.
3. Infrm. 
Fileira de pessoas, umas atrás das outras. = fila
4. Fêmea de um animal, em especial de animal doméstico, como a fêmea do cão ou do gato.
5. Pequena peça pirotécnica que arde agitando-se no chão. = bicha-de-rabear
6. Arrecada em forma de serpente.
7. Tubo metálico flexível com aplicações variadas, podendo cobrir e proteger um tubo de borracha para conduzir líquidos (ex.: bicha do esquentador).
8. Tubo de borracha com que se tira vinho pela batoqueira das vasilhas.
9. O mesmo que bicha do conta-quilómetros.
10. Infrm. 
Homossexual masculino. = larilas, maricas
11. Pessoa irada ou de trato difícil.
12. Galão ou divisa (na manga de uniforme).
13. Mar. 
Escaler da fiscalização aduaneira.

14. Mar. Tira de gacheta terminada em sapatilho.
15. Cal. Órgão sexual masculino.
16. Trás-os-M. Cal. Órgão sexual feminino.
17. Infrm. Aguardente.
18. Bras. Serpentina do alambique nos engenhos de açúcar.
adj. 2 g.
19. Infrm. Relativo à homossexualidade masculina.
20. Infrm. Que tem determinadas características que se atribuem à homossexualidade masculina. = abichanado, larilas, maricas



Homossexual
(homo- + sexual) 
1. Diz-se da relação sexual ou afectiva! mantida entre pessoas do mesmo sexo.
2. Que ou quem sente atracção! sexual por pessoas do mesmo sexo ou tem relações sexuais ou afectivas! com pessoas do mesmo sexo.



Antes de se levantarem as vozes para me chamarem de preconceituosa, homofóbica e outras coisas mais, sinto a necessidade de me defender como ser humano tolerante, que sou - o que acaba por ter a sua graça, de tão contraditório que é - e dizer já que as distinções de géneros surgem da minha necessidade, básica e elementar, de conhecer o significado das coisas antes de falar delas. Agora que já recolhi informação posso preparar-me para estudar o assunto.
E achei que seria útil partilhar... já que anda tanta gente por aí baralhada e a chamar os nomes que não sabe a quem não deve.
Talvez um dia destes também fale de gente ignorante. Ou burra. Ou acéfala. Ou.... ou.... ou.....