31.5.13
Seremos velhos
Quando fores velho,
Eu também o serei.
Não me irei rir de ti.
Não estranharei esse velho corpo.
Não sentirei outro cheiro que não o teu.
Não vou ver-te como um velho.
Serei igual a ti quando o fores.
Estarei cansada e caduca.
De pele seca como barro.
De olhar vago e sem horizonte.
Também terei largado este corpo.
O cheiro da minha pele não será o mesmo.
Olharás para mim e verás um cúmulo de histórias passadas.
Mas não te lembrarás da moça nova que fui para não te amargurares.
Pensarás nela como uma perda.
Por vezes chorarás.
Sentirás falta da alegria que tive.
Também tu não quererás rir.
Quando formos velhos seremos outros.
Não existiremos como somos agora.
Tal como agora já não somos o que já fomos.
Seremos outras pessoas novas em corpos velhos.
Mas olharei para ti e continuarei a ver-te.
A ver o amor que nos uniu.
A ver a jóia que guardas dentro de ti.
Olharei para as tuas velhas mãos e saberei que és tu por baixo dessa pele.
Sei que olharás para mim e não reconhecerás a moça que fui.
Mas olharás para mim e vais amar-me nessa lembrança, como se ainda o fosse.
Continuarás a procurar-me os pés debaixo dos lençóis e a reconheres-lhes o calor.
Continuaremos os dois a esperar que as nossas vidas procurem o mesmo dia para o seu fim.
23.5.13
Conheces o teu caminho?
O nosso medo não pode superar-nos a vontade de viver.
Não pode ganhar-nos as forças e vergar-nos.
Diminuir-nos e humilhar-nos.
Impedir-nos as pernas de andar.
Tem antes de nos fazer arriscar viver.
Não nos pode prender a um destino que não conhecemos.
A um futuro que não sabemos quando chegará.
Tem de nos deixar descobrir os dias que sucedem dias.
Endireitar-nos, fazer-nos olhar em frente, e andar.
Quando se começa uma viagem não se vê todo o caminho mas confia-se num final.
Sabemos que andamos em direcção a um destino.
Mas tem de se andar.
Tem de se dar passos, acelerar o ritmo, por vezes correr.
E por vezes andar para trás.
Entrar, por momentos, dentro de nós, viajarmos pela nossa cabeça, e daquilo que pensávamos que seria um dia a nossa vida.
Perceber que não tem de acontecer o que imaginámos.
Aceitar que entre o momento que nascemos e aquele em que estamos agora, aconteceram coisas que nos alteraram o depois.
Temos de parar e olharmo-nos como indivíduos capazes.
Primeiro vermo-nos como crianças, sem meios para tomar decisões.
E depois encararmo-nos como adultos e perceber o poder que temos, finalmente, nas mãos.
Temos de olhar para dentro de nós e esquecer os planos que sabíamos não vingar.
Riscar a história que conhecíamos.
Começar uma nova.
Escrever tudo outra vez.
Não recear que também essa história tenha pontos e vírgulas.
Não temer que também essa história tenha um dia de ser corrigida ou apagada.
Aceitar que o caminho tem atalhos, tem curvas, tem penhascos e que, por vezes, é preciso voltar atrás para encontrar o trilho certo.
Não faz mal errar.
Mas é imperdoável nem tentar.
De que temos medo afinal?
Que a nossa vontade não seja maior que o nosso medo?
Que os resultados não compensem o risco e as consequências de se errar?
Que, afinal, o caminho não tenha rectas e termine, sim, num profundo penhasco?
Os mais afoitos viram tudo.
Os que temeram nem saíram do lugar.
Como podemos dizer, então, que nos conhecemos sem nem sabemos como viemos aqui parar?
17.5.13
P'ró caralho, meu amigo!
P'ró caralho, meu amigo!
Isto é mesmo assim. Sem polimentos nem delicadezas.
Não vales ponta de corno como colega de trabalho [sim, vou falar do trabalho, identifiquem-me o ID e venham-me cá prender] e desconfio que como homem ainda és pior mas, na tua vidinha particular fazes o que bem entenderes e faltas ao respeito a quem deixar mas, aqui no trabalho, não voltas a fazer farinha comigo porque, até ver, tenho sido a gaja porreira que nem mereces que eu seja.
É verdade, sim senhor, sou uma gaja desbocada e tenho tanto a mania de não ter segredos profissionais que acabo por fazer uso da transparência das palavras, mas ainda meto travão na falta de educação e também vou tendo alguma noção de hierarquia e respeito pelos mais velhos [sim, se me estás a ler, és um velho! Porra, pá!]. Mas isto hoje acabou-se! Não papo faltas de respeito nem constantes tentativas de humilhação [vai tentando] e muito menos manifestações machistas contra a minha pessoa.
Sou uma gaja cumpridora do meu horário de trabalho, nunca falto, nunca meti uma puta de uma baixa médica [nem verdadeira nem falsa - sim, eu sei quem vocês são], sou uma colega porreira, sou profissional, sou competente, sou responsável, sou tudo!
Esse tudo, devia bastar-te para manteres a linha da dignidade que existe entre ti e mim. Não me tens de amar, nem de adorar o meu riso estridente ou de ser fã das minhas roupas-demasiado-modernas-para-a-tua-tacanhez, mas mantém essa tal dignidade e esse respeito se esperas o mesmo de mim.
Não aceito que um caralho qualquer [isto já nem é contigo, é com toda a minha gente] me venha passar atestados de incompetência, de burrice e de estupidez. Atestados passados por um perna-aberta [isto já é contigo] que diz que sim às maiores barbaridades só para ficar bem com Deus e com o Diabo. Que diz que sim, por cima de quem diz não, para favorecer amigos e facilitar compadrios.
Não aceito bocas que dissimulam comentários humilhantes à minha competência profissional, de um machista frustrado que, por não ter onde exercer a sua autoridade, pensa que a pode vir exercer em mim. Sou mulher mas não sou estupida e já devias saber que subestimar uma mulher inteligente dá merda e, não raras vezes, uma rotura sangrenta e perpétua. És velho de cabeça mas pouco sábio e ainda não aprendeste ou percebeste que uma mulher ferida é pior que uma puta de uma vaca que muge toda a noite junto aos ouvidos até se implorar a Deus para morrer.
Pois "deslembra-te" de mim meu amigo. Não sou tua mulher, nem tua amante, nem tua filha, nem tua empregada, nem tua subalterna, nem tua admiradora, nem tua-porra-nenhuma.
Sou uma gaja que trabalha no mesmo sítio que tu, para o mesmo patrão que tu, que tem as mesmas obrigações que tu e que tem os mesmos direitos que tu [em teoria, pelo menos, que eu sei que tens levado umas palmadinhas nas costas], por isso não me venhas dar cházadas, nem gracejes com o que não tem gracinha nenhuma [o Diabo que te carregue mais ao teu sentido de humor geriátrico-rebarbado] porque do meu lado só vais ter como retorno repostas lixadas e reprovadoras, sem mudar a perspectiva de que não és mais do que eu.
Vou-me ficar por aqui, apesar de haver muitos anos de coisas por dizer, mas lembra-te que isto que estou a fazer contigo chama-se só falta de educação [vendo bem, em legítima defesa e para me poupar a ir para um psicólogo tratar das neuroses que, amiúde, me proporcionas. É, digamos, um desabafo terapêutico. Assim como uma espécie de saco de boxe, 'tás a ver?] mas o que tu me tens feito tem um nome: Assédio.
E tem outro: Perseguição.
E pasma-te mas tem ainda mais um: Cobardia.
Já agora, a propósito daquela cena do ID, se te der para me vires foder o juízo pelo menos que seja como diz o outro: mexe-me nas mamas porque eu gosto que me mexam nas mamas quando me estão a foder.
(Foda-se! Isso querias tu... que não vês umas vai para cima de um centenário).
13.5.13
Protege o teu homem
Pega no teu homem e carrega-o.
Colhe-o com os teus braços e ergue o seu corpo.
Dá-lhe força e protege a sua vida.
A sua sobrevivência em ti depende do que lhe deres.
Aquece-o se ele tiver frio.
Alimenta-o se tiver fome.
Ama-o mesmo que ele não queira.
Se te cair aos pés de cansaço dá-lhe as mãos.
Pega no teu homem e carrega-o.
Olha nos seus olhos e diz que o amas.
Ele irá sentir o teu verbo.
Nunca desistas de um homem.
Do teu.
Pega no teu homem e carrega-o.
Ao contrário do que pensas, é ele quem te protege.
Se pegares no teu homem e o carregares, terás as costas protegidas.
Pesar-te-ão os ombros mas estarás a salvo dos golpes.
Protege o teu homem como um lobo.
Protege-o sempre porque ele é a tua primeira pele.
6.5.13
O padre da minha aldeia
O padre da minha aldeia, certo dia na missa, tentou convencer a sua audiência a tomar uma determinada posição, sobre um assunto que nem ele entendia, com um sermão fraco de argumentos e recheado de metáforas difíceis de descortinar.
Começou por ler uma parábola qualquer, que ninguém escutou com a devida atenção porque, assim-como-assim, já se ouvem as mesmas histórias vai para cima de uma eternidade e as pessoas não se importam de cumprir com o credo mas não lhes peçam sacrifícios, como manter os níveis de atenção elevados, perante tão desinteressante cantilena e tão medíocre sermão. Depois lá se perdeu num discurso sem coerência nem objetivo, para além de querer impor a sua opinião aos outros e de querer que os outros vejam nessa opinião a indiscutível verdade. Não sei se mais alguém ouviu o que eu ouvi mas a mim não me engana: aquilo há muito que deixara de ser uma missa e há muito que ele tinha despido a pele de padre.
O público não era o mais motivado, concordo, mas o orador também não era (nunca foi) o mais convincente. Olhar rasteiro sobre as letras das escrituras, voz hesitante e apagada, mãos trémulas e frias, pouca presença, pouco carisma, pouco fé. Assim, nem Deus acredita! Mas a verdade é que, a dormir ou não, a imagem do conjunto de fiéis lá permanecia. Aquele velho público… ensonado, iletrado, desinteressado e cansado. Era o que tínhamos. Sempre dão menos trabalho e são mais fáceis de convencer.
Mas, talvez dado o absurdo da coisa, eu prestava atenção ao que o senhor padre lá ia dizendo. Queria ver onde é que aquilo ia dar. A dúzia e meia de velhinhas que dormitavam nos bancos corridos de madeira (ajudadas pela visão inovadora do pavimento radiante sob os pés que o padre meses antes mandou instalar) lá iam embaladas pelas histórias mas nada comparsas de tão empreendedor discurso. O senhor padre não sabia mas restava-lhe apenas eu como interessada, ainda que descrente. Ele nunca chegou a saber mas no final aquela conversa toda cheirou-me a filme de baixo orçamento: a pessoa quer acreditar até ao fim que o filme vai acabar em bom, mas esse fim nunca acontece. O filme é, simplesmente, mau.
No fim da missa, as beatas saíram tal e qual como entraram. Não foram lá fazer mais do que lhes é habitual, e esse hábito tirou-lhes a emoção e o sentido crítico. Foram à sua vida. Hão-de voltar outro dia para ouvir o mesmo sermão sem levantar questões e estar ao lado do padre para o que der e vier.
As outras, aquelas que dormiam, gostaram muito da missa, sim senhor, que o senhor padre fala muito bem. Sabem lá elas! Já só apanharam o “ ide em paz e que o Senhor vos acompanhe” e isso é inquestionável. Estas também voltarão para ouvir mais patacoadas sem pensar muito, que isso dá trabalho e pode-se vir a perceber o embuste do discurso e não queremos cá revoluções de ideias.
As que se lembraram naquele dia de ir à missa, para limpar a cabeça e as ideias, vieram piores. Não resolveram nada, o padre não lhes resolveu nada, e ainda trazem um assunto para pensar em casa. Essas pessoas que nunca vão à missa (e percebe-se sempre quem são) ficaram surpreendidas. Amedrontadas. Aterrorizadas. Incrédulas até, com tamanho sacrilégio camuflado num sermão casto. Com a dissimulação de um pedido de sacrifícios sob palavras salvadoras, coisa que não se via desde os tempos que Cristo veio à terra. Mas essas pessoas são aquelas que não vão voltar e por isso nunca conseguirão fazer a diferença e acordar aquele público moribundo.
A diferença é que passados dois mil anos já ninguém acredita em milagres de multiplicação dos pães quando está a passar fome, dura e real. Ninguém está para dar a outra face quando leva uma bofetada bem assente. E ninguém se vai inibir de atirar a primeira pedra à primeira filha de putice que se fizer.
Por isso cuidado senhor padre, muito cuidado, porque se não sabe fazer milagres não nos venha pedir para não cometer pecados, sobretudo se o que estiver em causa for a nossa defesa.
28.4.13
Deixa-me explicar-te uma coisa...
Pablo,
Deixa-me explicar-te uma coisa, meu rapaz:
Não, nós não somos loucos por vocês e chamar-vos "nuestros hermanos" é uma maneira de distanciar o sentimento que se tem, efectivamente, por um irmão. Porque assim em espanhol a coisa não soa tão intima, entiendies?
Deixa-me explicar-te também que, por não sermos loucos por vocês, também não somos apaixonados pela vossa música. Muito pelo contrário. Desde a Lola Flores e do Júlio Iglesias que não pomos os ouvidos em música nenhuma que venha do vosso lado. Estou-me a lembrar de meia-dúzia de coisas hispânicas que vieram poluir o sossego musical cá da nossa Lusitânia, mas nada que chegue a merecer referência. Decididamente, não somos os maiores amantes nem da vossa, nem da nossa música. Não, nem para nós somos bons. Por outro lado vocês não ouvem nada que não seja produzido e cantado na vossa casita, e fazem muito bem, mas nós por cá até respeitamos a música e não nos aventuramos a assassinar nada que seja feito pelos outros. É que não fica bem, estás a vieri? Dizer "Piedras Rolantes" para nós é uma bimbalhice e rezamos a Deus para os Rolling Stones vos processarem um dia, só assim... por mau gosto.
Por isso meu jovem, deixa-me dizer-te que é verdade, sim senhor, conseguiste um feito histórico.
Impingiste-nos a vossa música. Conseguiste até que deixássemos amantizar o nosso fado com a tua cena. Achámos cool aquela mistura de "deixa-me cá ter um caso com um espanhol" com "canta-me o que quiseres ao ouvido que eu sou surda desde pequenina".
Parabéns!
Mas querido Pablo, deixa-me dizer-te outra coisa:
Apesar de teres feito história neste país, fizeste ainda mais por mim, mio amiori. Tive uma espécie de catarse quando hoje ouvi esta tua nova música no rádio do carro.
Foi assim um espécie de abri olhios. De riflexion. Perciebiés?
Por momentos perguntei-me porque raio andamos nós a ouvir-te?
Porque diabos começa a tocar música de casamentos parolos, saída directamente dos anos 90, e nós não desligamos o rádio?
Porque será que não mudamos de estação apesar de sentirmos que estamos em plena Feira Nacional da Agricultura quando entramos no pavilhão das ovelhas, dos cavalos e das vacas com origem espanhola?
Deixa-me explicar-te Pablito que nós não andamos a papar a tua música pirosa porque a adoramos e porque nos cria sensações e emoções que o nosso sistema nervoso central desconhecia.
Nós aturamos-te, querido Pablo, porque tens a cara que tens. Porque és giro que dói. Porque, por cá, o melhor que se arranja é um "bacalhau quer alho" com bigode e nódoas na camisa do molho de fêveras acabadas de entalar numa carcaça.
Porque, por cá, quem tem os dentes todos é rei. E tu, apareceres com essa dentição perfeita e essa pele de quem foi parido por fadas, cheira-nos a promessa de que um dia os nossos homens também vão ser assim.
Um dia... talvez... lá muito longe... Mas fizeste renascer esperanças que julgávamos enterradas.
27.4.13
O livro branco da poesia - Versão final
Está disponível, em formato digital, a versão final do livro com a compilação de poesia do "Dias Cães"... aqui!
22.4.13
O livro branco da poesia - online
Numa versão inacabada, ou direi antes numa versão apenas começada, mas aqui fica uma versão.
18.4.13
Dar. Doar. Amar.
Durante toda a minha vida assisti a campanhas para salvar vidas.
Campanhas para encontrar pessoas desaparecidas, para resgatar prisioneiros, para dar alimentos, cobertores e roupa, campanhas para dar sangue, e campanhas para doar órgãos ou medula.
No fundo, todas são campanhas para salvar vidas, apesar de percebermos que umas salvarão de um modo mais imediato e literal e outras salvarão num sentido mais metafórico.
Nenhum de nós terá problemas em dar roupa que já não usa, em comprar um pacote de arroz para o Banco Alimentar ou em dar uns trocos a um mendigo, mas quando nos pedem para saltar para outro nível de salvamento de vidas, ficamos hesitantes.
Pedirem-nos sangue, medula ou órgãos exige outra responsabilidade. Compreende-se que sim. E nem todos estamos ao nível do desafio, sejam lá porque motivo for.
Eu nunca dei/doei nada do meu corpo porque não posso. Não há nada suficientemente "saudável" para dar/doar. Já tentei por diversas vezes, tão simplesmente, dar sangue e o facto de ser asmática tem-me impossibilitado disso.
Mas talvez pudesse doar qualquer coisa. Um órgão?
No entanto, a doação de órgãos em vida, a meu ver, envolve uma relação emocional muito mais profunda que dar sangue. Sentimos, de algum modo, que estamos a dar algo nosso e que é "irreproduzível" (ao contrário do sangue) mas também há o sentimento de que podemos estar a colocar em risco a nossa própria vida por outra pessoa.
E valerá a pena?
Toda a minha vida assisti a campanhas para salvar vidas mas nunca me envolvi profundamente em nenhuma, para além daquelas mais abstractas como ser sócia da AMI ou fazer voluntariado. Nunca me envolvi em nenhuma daquelas que nos exigem tempo para pensar na vida, no sentido da vida, e no significado do amor entre as pessoas. Na verdade, nunca precisei de o fazer. Na verdade, nunca pensei que um dia isso viesse a ser um dos assuntos de "vida ou de morte" para a minha felicidade.
Mas agora sei.
Com trinta anos de vida, não sabendo o que me reserva o futuro, penso se valerá a pena arriscar dar algo que ainda me poderá vir a fazer falta?
Se doar em vida a um desconhecido, contribuiria assim tanto para a minha felicidade?
E se a pessoa que precisar de um órgão me for próxima?
Nesse caso, a pessoa que precisa de um órgão, não me fará uma falta maior do que um órgão que eu possa doar?
E de que serve morrer-se com todos os órgãos, sem se ter salvo alguém, quando podíamos ter vivido de modo saudável ao lado da pessoa que amamos?
Perguntas sem respostas.
E nunca mais a cabeça sossega com tantos "ses" e tantas decisões demasiado definitivas.
E uma pessoa não para de pensar: "Mas vou dar um rim? Um rim ainda me pode fazer falta. E se um dia alguém que eu conheça e ame precisar de um rim e eu já não tiver nenhum para dar? E se...
É legitimo ter estes pensamentos, por mais que saibamos que não os podemos ou devemos verbalizar, porque pareceria cruel e insensível da nossa parte, mas a verdade, verdadinha mesmo, é que pensamos.
Não vou dizer que seja uma atitude egoísta porque cada um sabe de si e, felizmente, ainda somos livres de darmos as partes de nós que bem entendermos, mas dá mesmo que pensar. Põe-nos a pensar naquilo que somos como pessoas, naquilo que esperam de nós, naquilo que pensamos que somos e o que afinal somos na realidade. Faz-nos pôr em causa o nosso carácter. Faz-nos pôr em perspectiva o sentido da vida.
É um teste limite.
Talvez por se ter tornado um assunto importante na minha vida, ando atenta ao que se passa no mundo sobre esta matéria e, talvez por isso, ache que esta semana foi particularmente rica em notícias de grandes feitos e de grandes descobertas e avanços científicos, como estas, por exemplo:
Depois desta sequência de notícias em pouco mais de três dias, fiquei a pensar que o mundo se anda a movimentar e não está tão adormecido quanto julguei.
Há pessoas a fazer a diferença. A tentar mudar vidas. A salvar vidas.
Finalmente, ficam aqui apenas meia-dúzia das dezenas (ou centenas) de páginas sobre o assunto. Com certeza existirão milhares por todo o mundo e em todos os países. Procurem.
Não custa ficar informado e ficar a pensar no assunto para o futuro:
15.4.13
Carta ao meu professor de ténis
Querido professor,
Antes de mais, deixe-me dizer-lhe
que aprecio bastante o exercício que tem dado ao seu rabo. Está assim para o
carnudo e tonificado e a mim apraz-me muito fazer exercício com um bom
incentivo. É um bom cartão-de-visita e faz-me sonhar que um dia também eu
poderei ficar com um rabo assim.
Quero também transmitir-lhe a seguinte
ideia: se me está a ministrar aulas, é porque eu preciso. E sei que preciso. Não
parta do pressuposto errado de que eu já era uma diva do ténis e que só
me estou a fazer de esquecida. Se pararmos para pensar um pouco, caso o fosse, também
não o teria procurado a si para me ensinar mas antes a um qualquer suprassumo
dos ensinamentos tenísticos.
Mas adiante.
Quero deixá-lo ciente de algo
mais: eu sou uma pessoa que aprende com facilidade. Ensinem-me que eu aprendo.
Mas, uma vez mais, não exija em meia-dúzia de semanas, conhecimentos que outras
pessoas terão demorado anos a adquirir e a colocar em prática. Vá com calma,
sorria enquanto me repreende, não fique de trombas enquanto pensa “esta gaja é
burra que dói” porque, de certo modo, isso vê-se na sua cara e no seu
comportamento. E já se sabe, desde os tempos antigos, que comportamento gera
comportamento. Não me peça para eu continuar a dar cartas quando só me lança jokers.
Estamos entendidos?
Tenho ainda a informá-lo que não
conseguirei comprometer-me com o uso de vestuário adequado à prática do ténis.
Aqueles vestidos e sainhas de lycra, são bastante agradáveis à vista (são sim
senhor, que eu também acho) mas são assim um bocado para o justo, demasiado
talvez para a minha, eminentemente catastrófica, condição física. Havemos de
trabalhar nesse campo, onde agradecia até algum empenho físico da sua parte em
colaboração comigo mas, até lá, vou continuar a presenteá-lo com o meu look total black , em versão burca de ténis dos tempos modernos.
Contudo, deixe-me incentivá-lo a continuar
a usar os seus calções pretos aconchegadinhos a esse digníssimo rabo, porque o
que é para mim não tem de ser para si.
Finalmente, agradeço-lhe a
disponibilidade para me ensinar uma matéria na qual era totalmente leiga. Do
género, aprender a tirar medidas, a apanhar bolas, e a ter força nos pulsos. Ocasionalmente,
já me ensinou a controlar a saliva e a inibir a sede. Agradeço-lhe ainda que,
quando começar a sentir o calor a apertar, retire a t-shirt para se poder
refrescar à vontade.
Acredite, só estou a pensar no
seu bem.
Porque um professor satisfeito é
sinónimo de uma aluna motivada.
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