segunda-feira, 14 de março de 2011

Só. Sozinho.

 
adj. 2 gén.

1. Sozinho.
2. Que não tem família.
3. Único.
4. Ermo, solitário.
5. Somente, unicamente, apenas.
6. Aquele que vive sem companhia.



sozinho 
(só + -zinho) adj.

1. Absolutamente só.
2. Sem par ou outro do mesmo género. = único
3. Sem apoio ou companhia. = abandonado
4. Que passa muito tempo sem companhia (ex.: é uma pessoa muito sozinha).
5. Sem intervenção de ninguém (ex.: o quadro caiu sozinho).
6. Apenas com a companhia de outra pessoa (ex.: deixaram-nos sozinhos; sozinha com ele).



Estar só, ou estar sozinha. Não sei se muda alguma coisa o modo como se interpretam as palavras. Nem sei se estas palavras significam coisas diferentes. As filosofias amarguradas que defendem que estar só é mais desolador que estar sozinha já me fizeram pensar mais no assunto. Agora só tenho certezas, e não dúvidas, que estar só e estar sozinha são a mesma coisa. O peito irá doer da mesma maneira, e para isso não é preciso escolher o lado das palavras. Só. Sozinha. O peito dói. Tu dóis-me. Tu desapareces-me e deixas-me só: Única! Como se isso parecesse romântico e me trouxesse felicidade. Como se isso fosse um cor-de-rosa leve no meu coração em vez do negro que se apoderou dos meus pulmões. Foram-se as forças do meu respirar. Vácuo. Ermo. A palavra Apenas. Sem ar. Estou sem ar. Sem chão. Sem céu. Sem ti. Sem horizonte. Sabes como estou? Abandonada. Nem só, nem sozinha. Abandonada. Largada na valeta e na dureza desse asfalto que me queima o peito, que me queima o rosto, e me deixa desfalecer de sofrimento e de cansaço.
O céu fechou-se num negro sem profundidade e o horizonte deixou de existir. Nada há de mais solitário que uma paisagem que não tem o seu horizonte. E eu, morta de solidão, nem te posso culpar por não ter horizonte. Mais rápida se quedaria a razão se apontasse todos os dedos a mim, porque sou o único carrasco da minha felicidade. Mais fácil seria cuspir-te a culpa! Quem dera poder fazê-lo e continuar soberba aos olhos dos outros. Quem dera fazer-te na nuvem mais negra da tempestade que se assolou sobre mim e dizer ao mundo: não fui eu! 
Culpar-te desta solidão era um sonho nesta terra onde os sonhos são apenas manchas de visco onde eu escorrego e não me aguento. Mas a culpa, que sempre tem de estar de um lado para consolo dos bichos que andam sobre o planeta, é apenas minha, porque não vejo que estar só, afinal, pode não ser a mesma coisa que estar sozinha. Por não entender que, afinal, estar sozinha pode ser melhor que estar só. Porque num há um princípio e um fim e, no outro, apenas há um princípio. O fim, esse... não acontece... é um sofrimento sem piedade. Lento. Agudo. Fatal.
A culpa que bate neste momento no peito, em vez de um coração pulsante e vivo, só existe por não ter percebido antes que, para além do horizonte escuro desta condição solitária, existe um céu radioso. Por não ter percebido que além de “só” e “sozinha” existem um milhão de palavras que não queimam, não ferem, não amarguram, não odeiam e não me matam. As palavras, em vez de serem veneno entre nós, um dia hão-de ser macias como nuvens brancas e os meus pulmões voltar-se-ão a encher de ar para que eu respire e flutue. Mas até lá vou continuar só. Morta de solidão. Morta de dor. Afogada em pessimismo e pensamentos duros. Porque não mereço a felicidade até assim o decidir. Porque alimentar a dor torna-me mais real. Porque impor-me este sofrimento me trás água aos olhos... esses que perderam a profundidade no dia em que caiu a tempestade sobre mim e que agora apenas brilham com as lágrimas que vou bebendo. Porque ter água nos olhos me aproxima dos humanos. Faz-me mais digna de viver.
Só. Sozinha.
Por agora morro assim.



3 comentários:

  1. Devo dizer que esta minha intromissão não tem nada a ver com um comentário a este testo simplesmente divinal. É duma intensidade dramática de tal ordem que qualquer comentário poderia ser considerado pretensioso e ofensivo. E quando alguém sente o mundo desta forma certamente que não espera dos outros palavras de conforto porque não precisa delas!
    Assim sendo, apeteceu-me a esse respeito dizer o seguinte:
    Foge e salva-te porque vamos precisar de ti vivo. Ele quis simplesmente morrer para “salvar” toda a humanidade, e quis morrer sozinho mas não estava só , não percebeu! Mas porque raio se deixou crucificar quando poderia encabeçar uma revolta contra aqueles que oprimiam o seu povo? E quem lhe disse que queriam ser salvos!? Não aguentou a pressão de estar vivo, e abandonou aqueles que o amavam. Morrer foi uma cobardia, mas ele queria ser mártir... Quis assumir sozinho todas as culpas quando deveria ter pensado na dor que a sua morte provocaria. Quis estar só.
    Todos julgamos estar sós ou sozinhos pelo menos nalgum momento da nossa vida!

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  2. Resumindo: temos de ir beber uns canecos!! :-)

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  3. Pensamentos derrotistas e cruéis, masoquistas e amargurados, fazem parte da existência e dessa complexidade de que somos feitos. Mas também cabem na mesma matéria paisagens com horizonte, dias de sol e pulmões cheios de ar e nada para atrapalhar. Será que é preciso sofrer para depois desfrutar da felicidade? Talvez...mas se faz favor não abuses!!! ;)

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