quarta-feira, 11 de maio de 2011

O corpo ingrato



Há dias assim. Aqueles em que temos a confirmação de que algo não está bem e passamos a saber porquê. Pode-se ficar apático, triste, ansioso, desorientado, aterrorizado, confuso, revoltado, conformado, esperançado. Eu só consigo ficar agressivamente deprimida.
Acho uma filha da putice que o meu próprio corpo me trate assim. Que me dê uma chapada seca, sem que eu sequer soubesse que lutávamos. Que me passe uma rasteira desconhecendo eu que ele me odiava. Que se ria de mim por maldade pura. Que me humilhe. Que me indique o caminho da minha pequenez. Que me reduza à insignificância da minha existência sem ele. Que me lembre que eu nada sou.
Este mesmo corpo que hoje me atraiçoa é o mesmo que tem a capacidade de chorar, o mesmo que se consegue agoniar de revolta, o mesmo que reage fisiologicamente quando sujeito a um choque emocional. O mesmo que sabe o que são as emoções. Estas que agora mesmo estou a sentir.
É nestes momentos, se é que ela existe, que podemos assistir à beleza desta máquina que somos. Que podemos ver os mecanismos e os seus componentes. O seu funcionamento e as suas avarias. Que embevecemos com as inovações e nos intrigamos com as falhas. Dentro de um mesmo corpo existe esta diversidade de "sins" e de "nãos". De milagres e de homicídios. De vírus e de anticorpos. De crescimento e de morte. 
Este corpo, que agora me vira as costas, já me trouxe alegrias no passado, mas agora já não passa de um traidor. Depois de o cuidar, de zelar por ele, de o alimentar, de lhe dar colo, de o exercitar, de o reconfortar, de o educar e de o dar a amar, ele responde-me com arrogância e incita à revolta de todas as suas partes. Mas não tenho tropas para o enfrentar. E ele sabe tão bem disso.
Neste momento... custa-me viver.

Estou farta deste corpo. Este corpo não é para mim. Por isso este corpo não se vende. Este corpo dá-se.





4 comentários:

  1. Estando já em Setembro, como vai essa carcaça?

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  2. Mais conformada. Menos rabugenta. Mas continuando a desejar ser "carcaça" em vez do "pão de forma" em que me tornei :) coisas de mulher, está visto!

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