quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Iogurtes de morango




Um dia acordas e percebes que afinal gostas de iogurte de morango. Percebes que estás disposto a fazer cedências em coisas que antes não abrias mão. Percebes que gostas de pickles de gengibre quando não sabias bem porque razão comias uma coisa que sabe a amoníaco. Não te dás conta que te ris de coisas estúpidas, simplesmente, porque estás em estado de estupidificação total. Não te apercebes que acordas a sorrir e te tornas, estranhamente, simpático para toda a gente. Que nunca te enervas com nada e até fazes conversa de circunstâncias com outras pessoas na fila de supermercado. 
Começas a perceber, aos poucos, que tudo à tua volta corre bem e que isso só acontece porque é isso que dás aos que estão à tua volta também. E pouco depois percebes que é tão bom receber aquilo que  dás, que não entendes porque não o fizeste sempre. Depois cais em ti e percebes. Percebes que estás  lambuzado de gelados e iogurtes de morango na cara, como ainda não tinhas estado. Percebes que isto de gostar de iogurtes de morango é do melhor que há e que os vais querer comer até ao fim dos teus dias.
Um dia acordas, pensas melhor no teu futuro, e percebes que queres passar o resto da tua vida com aquele sorriso parvo na cara. Que mesmo que envelheças que nem uma cavaca seca, vais querer ter sempre aquele açúcar por cima. Que vais querer envelhecer. Que já não vais ter medo de envelhecer. Que a única coisa que vais mesmo querer é envelhecer, porque só assim podes ter tempo para usufruir de todos os iogurtes e gelados. Porque só assim podes ganhar tempo. Porque só assim tens razões para querer acordar. Todos os dias.

E nesse dia, em que acordas e percebes que afinal gostas de iogurtes de morango... está tudo estragado.

Descobres que os vais comer para o resto da vida e que, o resto da vida, é muito tempo. Descobres que esse imenso tempo pode não sê-lo para ti mas pode sê-lo para alguém. Descobres que não vais querer morrer nunca. Nem tu nem a pessoa com quem divides os iogurtes de morango. Descobres que a vida plena de iogurtes de tutti-frutti afinal não vai acontecer. Mudas de planos e de estratégia porque, de repente, as prioridades se inverteram todas. Vais descobrir que devíamos ser imortais para passarmos a eternidade dos fins de tarde a passear de mãos dadas e a comer gelados. Que não importa que aos 30 prefiras um cone de bolacha e aos 80 prefiras um copo com colher, desde que o sabor do gelado seja igual. Que o que importa é que te rias de ti e do outro de cada vez que se olharem de frente e não denunciarem que o gelado vos apalhaça a cara. Que o importante é que, todos os dias, ao meterem a cabeça na almofada, mesmo que não se beijem, ao fecharem os olhos, conheçam o sabor dos lábios um do outro de cor. 

E nesse dia, em que adormeces e percebes que já não vives sem iogurtes de morango... está tudo estragado.


Olá. Já sabes como me chamo. Já sabes que gosto de ti. 
E ainda não sabes mas quero dizer-to agora: gosto muito de iogurtes de morangos. 
De Cornetos é que nem por isso, mas alinho num de nata.





5 comentários:

  1. Apesar de me estar constantemente a repetir, devo dizer que o texto é fantástico.

    Só não percebi que conclusão tiras desta «epifania». É algo que te deixa feliz?

    Eu encontrei esta realidade e este perceber deixa-te forte, e faz-te, de facto ser feliz no dia a dia, felicidade essa que transportas para todos com quem te cruzas.

    No meu caso em concreto, eu gosto de stracciatella no cone e o Manuel, morango no copo, mas isso não altera absolutamente nada das tuas reflexões.

    Um beijinho,
    Ana

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  2. diabo de texto! diabo de questões! diabo de mulher...

    bj ;)

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  3. Gostei do texto.E ainda me fazes chorar.Há dias em que penso que tudo está estragado.Mas no final continuo a gostar de iogurte de morango. Bjs :) Márcia

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  4. Eu prefiro yogurte natural. E não consigo passar sem ele.

    R.

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