sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Os vazios entre as coisas ímpares

Anne Teresa de Keersmaeke


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Entrei e saí uma dúzia de vezes em apenas um par de dias. Sei que o quero ver, e acabarei por vê-lo, mas a solidão desorienta-me o pragmatismo da decisão.
Hesito não por hesitar, hesito pelo que antecede essa hesitação. Pelas questões por trás da não-decisão. 
Nisto de andar passo à frente e passo atrás, no decorrer das horas que se esgotam enquanto não firmo uma decisão, balanceio o pensamento pelas razões que não me fazem correr em vez de andar titubeante, para cá e para lá.
Passo. Movimento. Silêncio. Transtorno. Move. Para. Arranca. Passo. 
Não decido por não querer encarar a razão da resposta.


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Entrei e saí uma dúzia de vezes em apenas um par de dias do local onde deveria comprar o bilhete. Não comprei, e sei que acabarei por fazê-lo, mas o acto solitário diz-me que não avanço por preferir a companhia de outro bilhete comprado, a ter de ficar sozinha.
Hesito na compra daquele único bilhete, precisamente, por ser único. Hesito por saber que há uma razão para que apenas compre um.
Entro. Saio. Entro. Estanco. Penso. Decido. Hesito. Recolho. Entro. Saio.
Não consegui comprar o bilhete por não querer encarar a minha evidente solidão.


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Entrei e saí uma dúzia de vezes em apenas um par de dias, dos vídeos, das imagens e da alma da coreógrafa por trás do espectáculo que quero ir ver. E sei que o vou ver mas incomoda-me escolher um lugar vazio entre tantos outros preenchidos. Preenchidos de conversas, e de segredos, e de cumplicidade, e de afectos. E eu ali. Sozinha. Entre pessoas que compraram dois bilhetes para o espectáculo porque a sua não-solidão nem os fez hesitar.
Vacilo na compra do bilhete quando constato que nem existem lugares únicos entre os que já estão preenchidos. Apenas números pares.
2. 4. 6. 8. 10...
Não vão três pessoas. Nem cinco. Nunca se viu alguém entrar só, sentar-se sozinho e assistir ao espectáculo num total abandono. Os vazios entre as coisas ímpares parecem-me mais dolorosos que os vazios entre as coisas pares. Os vazios entre as coisas ímpares parecem meios-vazios. Nem a dignidade de serem vazios têm. 
1. 3. 5. 7. 9...
Não avanço porque espero um lugar ímpar vago entre os lugares pares preenchidos.


Secretamente desejo que os bilhetes se esgotem para não ter de me culpar por nunca ter chegado a ver a arte de Anne Teresa de Keersmaeke.




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