terça-feira, 12 de novembro de 2013

Carta do abandono



"Meu amor,

Não consigo descrever a dor. Mas sinto-a.
Não há alegria em mim. Na vida.
Os dias não têm fim. As semanas não terminam. 
Os sorrisos nunca mais se esboçaram no meu rosto. A felicidade nunca mais visitou o teu.
Sinto impotência.
Impotência por não te conseguir resgatar desse lugar fundo.
Desta tristeza cheia de dor que sinto dentro de mim quando olho para dentro da tua alma e não me vejo dentro de ti.
Que mais posso eu ser para te fazer uma pessoa feliz?
Que mais tenho de ser?
Quem terei eu de ser?
Apenas tu sabes a resposta. Talvez eu também a saiba e prefira esconder isso de mim.
Por medo. Ou por medo da perda. Ou pelo medo de poder nunca te ter tido.
De ter sido uma fraca substituição de quem te fez, realmente, feliz. 
De nunca ter estado à altura. De eu nunca ter sabido contra quem lutava. De ter travado uma luta injusta, às cegas. De ter lutado sozinha. De desconhecer que a batalha esteve sempre perdida.
Não é frustração, é dor por não estar à altura do que já conheceste como sendo amor.
Relembra-te do lugar onde já foste feliz e leva-te novamente a esse sítio, onde já soubeste o que era o amor.
Não temas essa viagem ao teu interior.
Preciso que a faças. Preciso que saibas, antes de eu saber, aquilo e quem, realmente, te elevou o espírito.
Quem te fez ter o teu pensamento entregue, apenas a si, durante todas as horas do dia.
Preciso que conheças, que reconheças, que há forças que não se derrubam.
Que há amores que se adormecem, que se fazem por esquecer, que se iludem com truques e distracções mas que nunca, nunca, se conseguem fazer desaparecer.
São aqueles que em tempos nos fizeram não querer dormir.
Que nos faziam acelerar os dias para chegarmos rápido ao próximo encontro.
Aqueles que nos faziam sofrer com os minutos. Com a distância.
Há amores que nos fazem isto.
Que não nos fazem esquecer que fomos felizes.
Que nos relembram a toda a hora que, depois desse grande amor, apenas nos passámos a satisfazer com pouco.
Que nos condenámos a, simplesmente, gostar.
Que nos abandonámos ao amor que outra pessoa nos quis dar mesmo sem estarmos dispostos a devolver o que seja.
Depois de se viver um grande amor, um beijo não irá chegar e um abraço na despedida não terá significado.
Para ti.
E para mim?
Sabes bem o que significas para mim?
Sabes o que significa o beijo vindo da boca de quem se ama?
Conheces a dor de o ver desvanecer?
Agora, depois de não encontrar alegria em nada, de me lembrar como sofro por estares longe, de não estar em paz comigo por ser quem sou, de pensar que não sou suficientemente importante na tua felicidade para te fazer estar junto a mim, sei que morri um pouco por dentro.
O passado insiste em vir ao teu encontro no presente. Mas no presente também aqui estou eu. A implorar para ser vista. A implorar para amar. E é tão difícil viver com isso. Revelo fraqueza, bem sei, mas a sombra do passado impõe-se majestosamente sobre mim. 
Esse passado, o mesmo que te entristeceu tantas noites ao deitar, vibra com fulgor.
Aparece sempre feliz ao teu lado, a lembrar-te como foi bom o que entre vocês germinou.
A sussurrar-te nos pensamentos que está ali. Que estará sempre ali.
Tu sabes, infelizmente eu também, que, se em vez de um sussurro esse passado te gritasse bem alto que te ama, que te queria fazer feliz novamente e que nunca mais te abandonaria, tu não hesitarias.

A sombra que ela é neste momento passaria a ser real e a minha existência teria o seu fim."






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