sexta-feira, 19 de setembro de 2014

O foragido

Hoje vou andar entre o Dias Cães e o Black Velvet.
À meia-noite, apareçam pelo Facebook do BV para a apresentação do EBOOK e para meter conversa, se assim vos apetecer.
Para já, deixo-vos um texto e uma fotografia inéditos, com a assinatura Black Velvet.






*


02:45.

Eram 02:45 da madrugada de Sábado quando foi, finalmente encontrado pela polícia. 
Mal tratado, mal nutrido, mal encarado. Um caco de homem. Amedrontado, cheio de tremores no corpo frágil pelas noites a fugir sem comida no estômago e sem roupa no corpo. Não se deixava apanhar, ou tocar, como um animal selvagem que recusa a presença de humanos.
Os olhos gritavam medo, mas nem precisavam. Quando foi encontrado todo o seu corpo gritava pânico. Horror. Quem o olhou pela primeira vez naquela madrugada, mato adentro, sabia bem a razão dos medos daquele homem: tinha medo de ele próprio. Daquilo em que se tornou. Daquilo em que se deixou tornar.

*

O corpo dorido. Mais uma vez. Ela não sabia como era humanamente possível aguentar tanta dor. Mas ali, diante dos seus olhos, confirmava todos os dias os limites irrazoáveis da dor. O modo como o nosso corpo primeiro reage e depois se retrai, grita e depois cede, volta a reerguer-se e, finalmente, se rende ao chão. Impressionava-a a resistência. Olhava milimetricamente cada marca no corpo, cada mancha negra, cada rasgão, cada desenho feito de sangue pisado. Cada momento de agressão impresso na pele, como um livro que conta uma história. Já não sabia se as feridas eram de ontem ou de hoje, ou se seriam aquelas que há dois meses tanto sofrimento tinham causado.
Só sabia, sem consternações, o imenso prazer que lhes tinham dado fazer.

*

"O meu marido desapareceu de casa. Há dois dias que não o vejo, que não sei dele, que lhe perdi o contacto. Por favor ajudem-me!"

Dizia a mulher preocupada aos polícias que a receberam na esquadra. Quando questionada sobre os eventuais motivos ou inimigos do seu marido que justificassem o desaparecimento, disse não existirem quaisquer motivos para tal.
A polícia colocou a hipótese de rapto ou de acidente. A mulher chorava e o seu desespero alimentou mais as certezas de que não se trataria de um desaparecimento por vontade própria. Para além disso, pensavam os polícias, que marido seria louco o suficiente para querer fugir de uma mulher tão sensual? 
A polícia accionou todos os meios de procura do homem e durante uma semana pensou-se o pior. A mulher não parava de carpir as virtudes do marido e a dedicação que lhe tinha. Mas não tardaria muito a perceber-se as razões da fuga. As verdadeiras razões para um homem querer fugir da sua mulher dedicada, de corpo escultural, e sensualidade gritante.


*

De manta por cima do corpo, resguardado no banco de trás do carro com o corpo curvado sobre os joelhos, o homem seguia calado num silêncio ruidoso. Os polícias olhavam-no com suspeita e não paravam de se questionar e imaginar histórias em volta daquele homem. Todos tinham mulheres em casa, esposas, filhas, mães, e não compreendiam como poderia aquele infeliz ter-se envolvido daquela maneira com a sua própria mulher. Como teriam eles chegado àquilo? Em que momento se passa do amor e do respeito para uma situação de possessão, controlo, e violência?


*

- Porque razão fugiu? Sabe quantos homens e a quantidade meios envolvidos na sua procura? Não se brinca assim com as forças da autoridade, meu amigo!
- Mas eu... eu não podia não fugir. Estava sem saída. 
- Como assim? Explique-se homem? Que razões o levaram a fugir? A viver como um animal, escondido no mato, praticamente nu e cheio de fome?
- Eu... eu... não sei bem como explicar...
- Não temos tempo a perder, explique-se!
- No dia em que fugi, acordei com o corpo dorido. Mais uma vez. Eu não sabia como era humanamente possível aguentar tanta dor. Mas ali, diante dos meus olhos, confirmava todos os dias os limites irrazoáveis da minha dor. O modo como o meu corpo reagia e depois se retraia, como gritava e depois cedia, como voltava a reerguer-se e, finalmente, a render-se ao chão. Impressionava-me a minha resistência. Olhava milimetricamente cada marca no meu corpo, cada mancha negra, cada rasgão, cada desenho feito de sangue pisado. Cada momento de agressão impresso na pele, como um livro que conta uma história. A minha história. Já não sabia se as feridas eram de ontem ou de hoje, ou se seriam aquelas que há dois meses tanto sofrimento me tinham causado.
Só sabia, porque lhe via nos olhos, o imenso prazer que lhes tinham dado fazer.
- O que é que nos está a dizer? Que essas marcas no seu corpo lhe foram infligidas antes de fugir? Que alguém lhe fez isso? Quem? Conte-nos quem?!!

- A minha adorada mulher. Aquela que vêem ali fora chorosa. Essa mesma que olharam com desejo quando a viram entrar na esquadra pela primeira vez. Esta mulher, mantém-me preso há anos no nosso quarto. Alimenta-me, dá-me banho, e ama-me, mas nunca me deixou sair do quarto. 
Todos os dias, ao sair do trabalho, chegava a casa enlouquecida de desejo. Só aí me tirava as algemas e me deixava alimentar e fazer as necessidades sob sua vigilância. Logo depois voltava a algemar-me à cama e a consumir-me até ela se esgotar. Quando eu desfalecia de dor e de cansaço, batia-me. Chicoteava-me. Gritava-me. 
Há anos que sou o seu prisioneiro. O seu escravo sexual. Nunca me sentiu, verdadeiramente, amor. Para ela sou apenas um objecto. E foi apenas por esse objeto que a terão visto chorar.


*

Os outros homens olhavam-no com dúvidas. 
Mas, perante aquele cenário de sofrimento, tomaram uma decisão: prenderam-no nesse mesmo dia, sem pena para cumprir.
Apenas para o proteger.




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