29.12.14

Os cães do ano 2014





À semelhança do ano passado, estive a rever todos os cães e, organizei aqui os posts mais vistos de 2014.
Mas, desta vez, fiz um mix, e escolhi os meus 20 preferidos por entre os 40 mais lidos. Pode ser?
Gostei de escrever outras coisas que ficaram na lista das menos lidas e, se assim foi, não vale a pena maçar-vos com repetições.

Não posso deixar de mostrar a minha perplexidade pela preferência que tiveram pelos Áudio Textos (gostam de ouvir a minha voz e a do anónimo benfeitor, é isso?). 

Por este ano está fechado o canil. Encontramo-nos em 2015!


Os 20 posts mais lidos de 2014 :



23.12.14

E é isto...



Chove. É dia de Natal. 
Lá para o Norte é melhor: 
Há a neve que faz mal, 
E o frio que ainda é pior. 

E toda a gente é contente
Porque é dia de o ficar.
Chove no Natal presente.
Antes isso que nevar.

Pois apesar de ser esse
O Natal da convenção,
Quando o corpo me arrefece
Tenho o frio e Natal não.

Deixo sentir a quem quadra
E o Natal a quem o fez,
Pois se escrevo ainda outra quadra
Fico gelado dos pés. 




“Chove. É Dia de Natal”
Fernando Pessoa, in "Cancioneiro" 



13.12.14

Fim





Preciso de um.



9.12.14

Mandrágora




"Segundo uma lenda medieval a raiz da mandrágora era como um pequeno homem dormindo dentro da terra e, ao ser retirado de seu descanso, dava um grito tão agudo que era capaz de deixar surdo, enlouquecer e até mesmo levar alguns homens à morte. 
Com base nessa crença, foram sendo criadas várias técnicas para se retirar a mandrágora do solo sem sofrer com o grito da planta. Alguns tapavam os ouvidos, afofavam a terra ao redor da mandrágora, amarravam a planta ao pescoço de um cachorro e faziam com que o mesmo corresse, arrancando a raiz do solo. 
Escritos medievais afirmam que é mais seguro colher mandrágora durante uma sexta-feira à noite, pouco antes do nascer do sol. Depois de ser colhida alguns lavavam a raiz com vinho e a guardavam embrulhada em seda vermelha ou branca. Aos olhos dos caçadores de mandrágora, tanto trabalho para conseguir a raiz valia a pena, pois a planta possuia variados usos, tanto mágicos como medicinais.
A raiz é a parte mais curiosa dessa planta, pois cresce como uma batata, muitas vezes bifurcada, ganhando traços semelhantes ao de um pequeno homem. Por conta do curioso formato humano é que a fama "mágica" das mandrágoras se difundiu rapidamente. Pitágoras se referiu a mandrágora como "antropomorfa". O agrônomo romano Lúcio Columela a definiu como "semi-homem"."




Uma mulher, nascida de um buraco na terra, veio ao mundo nua.
Matou o primeiro homem que viu. E depois o segundo.
Tinha sangue nas mãos, no rosto.
Não na alma.
Mas não encontrou o que procurava.
Chamavam-lhe filha do diabo mas o diabo repudiou-a.
Disseram ser parida por um cão mas o cão mordeu-a.
A mulher, nascida de um buraco na terra, veio ao mundo para retribuir o mal.
Matou a primeira criança que viu sorrir. E depois matou a que viu chorar.
Comeu-lhes as vísceras que fez soltar com as unhas cravadas na carne.
Não conseguiu o que queria.
Calcorreou ruas, sem roupas ou pudor, envergando apenas o sangue de quem foi matando e comendo. 
Com medo, as mulheres da aldeia recolhiam-se a elas e às crianças. Mas não tinham mão nos maridos.
Com curiosidade, os homens arriscavam-se olhar por entre frestas e postigos.
A mulher, nascida de um buraco na terra, não falava, não respirava, não pensava, não chorava, não sorria, não torcia a cabeça para olhar.
Esperava apenas a noite cair-lhe sobre a vontade de matar.
Um dia, numa noite, um homem, tolo de inocência e bom de coração, atravessou-se no seu caminho sem se aperceber.
Viu de perto a morte quando as mãos da mulher lhe abriram o peito e lhe roubaram o que tinha de bom.
Finou-se quando a boca dela se colou à sua e lhe sugou a alma.
O grito, curto, agudo, durou cem anos a desaparecer.
Ainda há quem na aldeia o ouça gritar ao nascer dos dias.
A mulher, essa, sumiu-se poucos passos depois.

Tinha, finalmente, o que lhe faltava:
Uma alma. Um coração.


[Quantas mulheres não se tornam assassinas, inimigas delas próprias, apenas porque lhes falta quem lhes entregue o mais importante de si?]



26.11.14

Chama-lhe solidão



Perguntaram-me se estou inquieta.




25.11.14

A queda de Sócrates... outra vez






Não é dia da etiqueta Repetições mas pareceu-me apropriado voltar a ler "A queda de Sócrates".
No dia 23 de Março de 2011, tinha caído pela primeira vez.

http://diascaes.blogspot.pt/2011/03/queda-de-socrates.html


"O filho do escultor Sofronisco e de sua mulher, Fenareta, foi um pomo de discórdia em todo o estado ateniense. O incómodo da sua presença avolumou-se, não se sabe desde quando, até aos últimos dias de vida - quando já atingira setenta e um anos. A cidade tolerou-o enquanto lhe foi possível. A figura mental de Sócrates, o espectro de perplexidade que ele fazia tombar sobre uma sociedade em crise moral e política, tornavam-no configurado à imagem de algo de sagrado, de que as sociedades carecem, para si mesmas se purificarem - o "bode expiatório", o cordeiro inocente. Os dias de catárse demoravam, envolvida Atenas nos pesadelos da guerra peloponésica, nos sobressaltos dos jogos da tirania e da democracia. Chegando o tempo da colheita, a cidade pediria um exorcismo mortal. E Sócrates foi o signo vital do exorcismo."

in "Platão - Apologia de Sócrates"


Como chegámos nós a isto, povo de Atenas? Como pudemos nós assistir rezingando, em vez de erguer os braços e lutar? Que caminho trilharemos nós até aos calabouços do inferno? Que luz encontraremos para nos guiarmos à razão?
Hoje choro de vergonha. Hoje envergonho-me de mim por não ter lutado quando devia. Como Ateniense sou a lástima reflectida de todo o povo. Como Ateniense, hoje baixo a cabeça de rendida, mas sobretudo de embaraço, por não me ter colocado ao lado de quem se ergueu. Não condeno os carismáticos por o serem. Não violentarei os reis surdos que governaram um reino de incapacitados. Não atirarei pedras a quem perdeu o sono para fazer o que ninguém queria. Baixo-me antes a seus pés, agradecendo as suas vidas entregues ao diabo, em troca de lutas vãs com Deus. Não me posso considerar alguém no meio de uma ceara seca que não reclamou por água e não posso cobrar ao Sol o dourado que não lhe dei, mas como Ateniense me questiono: "como é que nos entregámos a isto?".


21.11.14

Caminhos apertados





Não sei se é o passado que está a vir atrás de mim ou se sou eu que não consigo esquecer o passado.




20.11.14

O Preto. O Branco.




Por vezes fico assim:
Encravada entre um plano branco e um momento negro.
Fico muitas vezes assim, parada, a tentar entender se o plano branco valia a pena ou se o momento negro apenas existe para que eu valorize mais o branco.
Quem não sentiu vontade de ir pelo lado negro mesmo sabendo que o acidente poderá estar ali, prestes a acontecer?
Quem não seguiu pelo plano branco e não se arrependeu, logo depois, por nunca ter arriscado?
Complexo este dilema entre escolher o certo ou errado.
Neste meio caminho de vida em que me encontro, não encontrei ainda a resposta nem o sítio certo para estar: na obscuridade ou na claridade. Não percebi ainda todas as vantagens de ter um plano branco, segui-lo, e recolher satisfação disso mas reconheço a falta de cor e a perpetuação da melancolia numa vida em tons de preto. 
O dilema resolvia-se com a existência de matizes. De gradações. De saturações. Mas, a nossa insatisfação humana, não fará com que olhemos um preto esbatido e vago, antes, como um branco sujo em vez de um cinza firme?
Não serão as gamas de cinzento, um branco ou um preto que correram mal?
Não serão os cinzentos uma antevisão do que estará para vir? Ou então uma reminiscência daquilo que já partiu?
Não quereremos nós borrar o branco de preto quando caímos na monotonia? E não gostávamos de pintar tudo de branco quando o cenário se põe negro?

Como é que gostamos de viver, afinal?
Na quietude dos cinzas, no desinteresse do branco ou na crueldade do preto?

Hoje passei o dia a pensar nisto, em como a vida se tem desenhado a cinzento, muitas vezes sobre um fundo branco.
Hoje pensei nisto porque tive uma imensa vontade de pintar um fundo preto.
De magoar alguém, de me magoar a mim, só para me sentir viva. Só para saber se ainda existe alguma coisa que eu possa controlar.




17.11.14

Viajo porque preciso. Volto porque te amo.



Título do filme de Marcelo Gomes e Karim Aïnouz - Brasil 2009 ... O filme com o melhor nome de sempre...



Andamos há demasiado tempo na estrada.
A contar traços brancos no asfalto negro.
A descontar dias aos longos anos.
A fazer uma viagem juntos em sentidos diferentes.
Quando chegas a partida já está marcada.
Quando parto tenho o regresso no horizonte.
É esse desencontro que nos une.
Aquele intervalo entre a ida e o regresso.
Aquele momento entre a tua partida e a minha chegada.
Entre o nosso encontro e a nossa despedida.
São aquelas escassas horas que se consomem em minutos.
E que nos desconcertam os abraços.

Quando conheceremos nós a estrada que encurta as distâncias?
Aquela a que as pessoas chamam de atalho.
Quantas mais estradas ainda teremos de conhecer?
Quando iremos nós percorrer o mesmo caminho no mesmo sentido?
Aquele que nos leva a casa.

Nada sabemos sobre o futuro.
Sobre as viagens e os quilómetros por fazer.
Não adivinharemos qual a noite em que entraremos juntos em casa.
Mas chegaremos um dia ao nosso destino sabendo o mesmo que sabemos desde a partida:
Viajamos porque nos precisamos.
Voltamos sempre porque nos temos amor.