quinta-feira, 24 de novembro de 2011

A Nespereira e o Marmeleiro




Sobre a tarde tinham descido tons quentes de açafrão. Os cheiros eram acolhedores e doces como a marmelada quando se cola ao fundo do tacho. Nós sofríamos pouco com o calor porque a tarde era de brincadeira e não demorava termos de separar-nos. Gostávamos de brincar juntas. De esgotar o tempo, que ainda desconhecíamos correr tão depressa, em conversinhas uma com a outra. Era tão bom. Ainda hoje o é. Recordo-me bem dessa tarde e de tantas outras. Das cores, do calor, dos cheiros e dos risos. Éramos miúdas e a palermice da falta de compromissos fazia-nos rir de tudo e de nada e trazia-nos alegria àquele dia de calor sobre o telheiro. Descalças, com calçõezinhos de algodão e camisolinhas de alças, lambuzávamos-nos em fruta, que a tua mãe nos trazia das árvores do teu quintal. Eram nêsperas e marmelos. Ali sentadas, pelávamos a fruta, trincávamos as suas carnes, cospiamos as cascas, salivávamos os sucos, contávamos os caroços... Lembras-te? Era um momento delicioso. Achávamos que o nosso futuro se desenrolava na leitura das frutas. Que o número de caroços das nêsperas indicavam o número de namorados que teríamos na vida. Nunca percebemos se seria a soma de todos os caroços, de todas as nêsperas que comemos naquela tarde, ou apenas daquela que escolhíamos. Ríamos sempre que os caroços se multiplicavam. Hoje podemos rir, por sabermos bem, que tu te ficaste apenas por um caroço e eu por pouco mais. Eu ainda acho que o meu caroço de nêspera está por chegar porque até hoje não passei de marmelos verdes e ásperos. Felicito a vida por te ter oferecido uma doce nêspera.
Na verdade nunca gostei de nêsperas nem de marmelos e continuo sem gostar, por mais que tenha insistido todos estes anos em trazer a mim o sabor de tão boas recordações. Mas a sua acidez desconsidera-me o mau-feitio. E o meu mau-feitio será sempre inestimável. Mas tu, doce como dióspiros maduros, não te deixavas atrapalhar pelos golpes daquele agre na boca. Nem te tocavam. Continuavas a comer com risinhos como se dissesses: "Vês! Não fazem nada!". 

À minha amiga Helena Maria, por ter partilhado comigo nêsperas e marmelos debaixo de um telheiro, naquela tarde de Verão mas, sobretudo, por partilharmos a vida com risinhos e brincadeiras.







2 comentários:

  1. Lindo, lindo :)
    Mas as nêsperas nunca te foram tão ácidas, ou não as terias tu comido. Foram doces, e só te deram dentes para poderes trincar uma maior, daqui a uns dias.

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