segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Red Shoes. Red Light.



Parecias menos puta quando descalçavas os sapatos. Por alguma razão aqueles miseráveis stiletto agarravam-te às memórias das montras onde te vendias todos os dias. Querias que parecessem caros mas sabemos bem que os herdaste de uma colega, não menos puta e menos pobre que tu, desenrascados no Noordermarkt num dia cinzento. Não eram os Louboutin que algumas desfilavam, mas tu nem te ralavas. Sempre foste ordinária. Até nos sonhos eras ordinária... sabias lá o que eram uns Louboutin!
O homem que te quis calçar os sapatos da dignidade nunca o haveria de conseguir porque tu nunca passaste de uma pêga de rua, guardada por umas vidraças lambuzadas, onde te exibias, desmoralizada, entre cortinas velhas de veludo, de bainhas coçadas e galões debotados. 
É nestes pormenores que vejo, que o dia em que deixei cruzar a minha vida com a tua, devia estar embriagado de tesão. Nada mais. Porque nada mais justifica que me pensasse apaixonado. Nada mais perdoa que te trouxesse a minha casa para dividirmos as paredes e os afectos. Se realmente amasse alguma coisa em ti para além do vermelho que irradiavas, nunca acordaria suado de nojo e com vómitos de vergonha. Nunca teria tentado esconder-te dos vizinhos. Nunca teria mentido aos amigos e família sobre as tuas origens.
Foste um erro que eu insisti em errar porque há muito me exigiam que acertasse. A culpa não é tua. A culpa não foi minha. Obrigaram-nos a ambos a escolher o caminho das mentiras. O que nunca ninguém se lembra é que os sapatos podem mudar um homem, mas um homem não muda quando troca de sapatos. 

Não sou capaz de esquecer o teu passado. Perdoa-me mas não consigo. Tornou-se insuportável continuar a olhar-te por entre as pernas. Por essas pernas que tantos outros homens usaram. Tornou-se insuportável pensar que esses sapatos que calças nunca saberão outro caminho que não seja vermelho.







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