terça-feira, 29 de novembro de 2011

Receita do indivíduo que não existe

Porque considero que o homem ideal tem de ser como uma receita bem-feita. Irrepreensível, de fazer fechar os olhos. Com o equilíbrio perfeito dos extremos. Que seja mesmo de extremos. Como o sal e o açúcar. O 8 e o 80. O frio e o quente.


--- Receita comportamental para um indivíduo que não existe ---

Ingredientes:
Vai ser preciso…
- Que gostes de me levar à ópera ao São Carlos mas também consideres uma ida a Paredes de Coura;
- Que gostes de praia mas também gostes de fugir para a montanha;
- Que bebas imperial mas também aprecies um chá quente;
- Que nunca sejas preguiçoso mas, de vez em quando, também consideres um Domingo no sofá;
- Que gostes de viajar até Paris, mas também te divirtas num parque de campismo empoeirado;
- Que invistas num par de ténis caros, mas também saibas o gozo de andar de chinelos;
- Que me acompanhes no sushi, mas também não te negues a uma bifana;
- Que gostes de mim como acordo, mas também me elogies quando me arranjo;
- Que gostes de dormir agarrado, mas percebas que às vezes também preciso de espaço.

Preparação:
Agarrar num corpo e meter tudo lá para dentro. Misturar bem. Abrir um sorriso. Não colocar travões. Apaixone-se. Deixe-se amar. Misturar tudo. É inevitável levar a forno bem quente. Cuidado ao desenformar… para não partir.





segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Soltei os "Cães"


Finalmente, soltei os "Dias Cães" em livro.
Os primeiros já conheceram os novos donos... 
Agora seguem outros tantos, desta vez, pelo correio.

Funchal, Leiria, Lisboa, Amadora, São Paulo e Porto, são os próximos lugares que o Sr. Carteiro irá visitar.


Espero que desfrutem das palavras, que já vão conhecendo, e as tratem bem, como têm feito até agora.


Obrigada a todos!
Vamos-nos "lendo" por aqui.




quinta-feira, 24 de novembro de 2011

A Nespereira e o Marmeleiro




Sobre a tarde tinham descido tons quentes de açafrão. Os cheiros eram acolhedores e doces como a marmelada quando se cola ao fundo do tacho. Nós sofríamos pouco com o calor porque a tarde era de brincadeira e não demorava termos de separar-nos. Gostávamos de brincar juntas. De esgotar o tempo, que ainda desconhecíamos correr tão depressa, em conversinhas uma com a outra. Era tão bom. Ainda hoje o é. Recordo-me bem dessa tarde e de tantas outras. Das cores, do calor, dos cheiros e dos risos. Éramos miúdas e a palermice da falta de compromissos fazia-nos rir de tudo e de nada e trazia-nos alegria àquele dia de calor sobre o telheiro. Descalças, com calçõezinhos de algodão e camisolinhas de alças, lambuzávamos-nos em fruta, que a tua mãe nos trazia das árvores do teu quintal. Eram nêsperas e marmelos. Ali sentadas, pelávamos a fruta, trincávamos as suas carnes, cospiamos as cascas, salivávamos os sucos, contávamos os caroços... Lembras-te? Era um momento delicioso. Achávamos que o nosso futuro se desenrolava na leitura das frutas. Que o número de caroços das nêsperas indicavam o número de namorados que teríamos na vida. Nunca percebemos se seria a soma de todos os caroços, de todas as nêsperas que comemos naquela tarde, ou apenas daquela que escolhíamos. Ríamos sempre que os caroços se multiplicavam. Hoje podemos rir, por sabermos bem, que tu te ficaste apenas por um caroço e eu por pouco mais. Eu ainda acho que o meu caroço de nêspera está por chegar porque até hoje não passei de marmelos verdes e ásperos. Felicito a vida por te ter oferecido uma doce nêspera.
Na verdade nunca gostei de nêsperas nem de marmelos e continuo sem gostar, por mais que tenha insistido todos estes anos em trazer a mim o sabor de tão boas recordações. Mas a sua acidez desconsidera-me o mau-feitio. E o meu mau-feitio será sempre inestimável. Mas tu, doce como dióspiros maduros, não te deixavas atrapalhar pelos golpes daquele agre na boca. Nem te tocavam. Continuavas a comer com risinhos como se dissesses: "Vês! Não fazem nada!". 

À minha amiga Helena Maria, por ter partilhado comigo nêsperas e marmelos debaixo de um telheiro, naquela tarde de Verão mas, sobretudo, por partilharmos a vida com risinhos e brincadeiras.







segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Eu. Tu. E o Comissário de Bordo.



Barcelona - Porto - Canárias - Porto - Londres - Porto - Madrid - Porto - Marrocos - Porto - Tenerife - Porto....
A vida dele acontecia mais lá em cima que rente ao chão. Viajava todos os dias para destinos diferentes mesmo que a noite fosse sempre passada entre os seus lençóis, quando regressava a casa no Porto. Apesar de amar o trabalho que tinha conquistado, acusava o cansaço sempre que o despertador tocava às 4:30. Tinha de apanhar os voos das 6:30. Era inquestionavelmente duro.
Ela não adorava a sua agenda, mas sabia desde o início que estar com ele, era estar entregue à incerteza dos horários. As conversas tinham de esperar. Agarrar no telemóvel, porque lhe apetecia partilhar uma qualquer chachada, era coisa que nunca iria existir. Combinar um jantar a dois nunca chegou a ser possível. Mas, aparentemente, tudo valia a pena. Estavam apaixonados e alguns sacrifícios tinham de ser sangrados. Ela abdicava dele durante o dia. Ele compensava-a com amor durante a noite. Estavam incrivelmente rendidos um ao outro. Ela deixou de pensar "são todos iguais". Ele pensou que afinal "não são todas umas complicadinhas".
Era perfeito! Parecia perfeito. Ele passava o dia no ar. Ela passava o dia nas nuvens... E um dia caiu...
Sem palavras, considerações, justificações, mentiras que fossem... nada de nada, ele nunca mais regressou. Nem em corpo, nem nas palavras doces que lhe entregava antes e depois de cada viagem.
Ela chorou. Pensou num milhão de coisas. Nunca o julgou morto. Continuou a saber dos seus passos. Sabia-o bem vivo e de sangue fervente. Um dia acabou por saber o que acontecera.
Ela não ignorava que a vida em alta atmosfera envolvia riscos além das quedas de aviões. Por ali davam-se muitas quedas de coração. Foi o que aconteceu. Apaixonou-se. Apaixonou-se. Apaixonou-se. Ainda parece mentira.
Afinal, todas aquelas viagens não existiam apenas pelos negócios que mantinha pelo mapa fora: apaixonou-se pelo Comissário de Bordo que todos os dias, de sorriso na cara, lhe levava o café em copo de plástico.

Apesar do silêncio, ela nunca o levou a mal. Afinal de contas, cada um usa a saída de emergência que quer.




sábado, 19 de novembro de 2011

Um dia, não me caso




Uma vez sonhei que estava a casar sozinha. A igreja estava cheia. Os convidados impacientes. O padre exigia começar a cerimónia. Mas não existia noivo. Não era suposto existir.
Por isso, repetia-lhe vezes sem conta que podia dar início ao casamento: "Ele nunca aparecerá! - Dizia-lhe.
Ninguém estava a compreender o que se passava. Eu, no altar, parecia aguardar que alguém entrasse pela porta da igreja e desfilasse pela nave central. Como se os papéis fossem invertidos e fosse eu a aguardar pelo noivo. Mas não o estava, de facto. A única pessoa que parecia compreender que nunca iria haver noivo naquele dia, era eu.
No sonho observo-me de fora. Consigo ver-me ali especada, no corpo de outra personagem, de cabelo loiro com fartos canudos, metida num vestido de tamanho aquém da minha silhueta, de tecido velho e estragado, e com maquilhagem reles e esborratada. No entanto, apesar do cenário deprimente, na verdade eu estava feliz por casar sozinha! Desleixada. Abandonada à vida. Derrotada pela solidão. Mas estava feliz. 
E queria dizer a todos como isso era importante para mim e ninguém parecia ouvir. Estavam tão ocupados entre si, com as suas conversas moralistas. A nuvem de barulho que se gerou entre todos, subtraía a minha pessoa dali. Já nem me viam. Nem ouviam o que lhes queria dizer: "Não me vou casar. Não quero."
Não se trata de revolta, nem repulsa, nem é uma tentativa de me mentalizar que o casamento nunca irá acontecer na minha vida. Na realidade não o posso garantir. Mas os padrões que se definiram como casamento estão longe daquilo que eu concebo. Para mim o casamento nunca foi a festa. Nunca foi a igreja no seu sentido físico, ainda que acredite na cerimónia. Nunca foi o bouquet, o vestido e o bolo. Quero lá saber de um salão cheio de festa onde se exige a todo o tempo que os noivos sorriam, dancem e se beijem, como se se tivessem conhecido e apaixonado naquele dia. Não compreendo que se veja a lua-de-mel como momento fulcral de um romance. Não era suposto haver muitas "luas-de-mel" antes? 
No que eu acredito é no contrato. Curiosamente acredito naquilo que as pessoas tendencialmente vieram a desacreditar-se. Acredito no compromisso que o papel assinado trás. Acredito na fidelidade que um compromisso faz assumir. 
Por isso, para mim, o casamento pode nunca passar de uma secretária com um livro para assinar. A troca de alianças é obrigatória. O beijo também. Acreditar que é para sempre é condição, ou então nada disso valerá a pena. Mas o festim com duzentas pessoas a assistir acho ridículo. Não quero arroz e pétalas a caírem-me em cima.
A acontecer casar-me, quero acordar como num qualquer dia normal. Vestir-me sem ajuda. Sentir-me linda. Encontrar-me com "o tal" no local combinado. Dar-lhe um beijo, relembrar-lhe o quanto o amo. Assinar os papéis. 

Isto, ainda assim, seria o cenário razoável para algumas pessoas. Mas e se um dia eu disser "não quero casar?". Terei alguém do meu lado?





quinta-feira, 17 de novembro de 2011

"Dias Cães" - O Livro


Estão prontos os primeiros exemplares do "Dias Cães" em papel.
Começam a ser distribuidos no início da próxima semana e espero que os novos donos os acolham com generosidade.
Bem vêem que são modestos, mas são oferecidos com todo o coração.
Aos 22 contemplados (é verdade, não consegui dizer não a ninguém), muito obrigada pelo interesse e pelas simpáticas palavras que, conhecidos e anónimos, me fizeram chegar pelas mais diversas vias.

Vamo-nos "lendo" por aqui!



quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Carta a Saramago




"Caro José Saramago,

Lamentavelmente, sei-o morto. Não se inquiete, não lhe venho pedir que volte ou, tampouco, dar-lhe más notícias do lado de cá. Creio que todos os que lhe são queridos estão bem, caso contrário tal agoiro saber-se-ia à velocidade dos impropérios saídos da boca do povo, que sempre fala do que não sabe. Também não o venho evocar, que esta coisa de acreditar no além nunca lhe foi assunto caro, bem o sei.
O que me traz até si, tantos anos depois de desavinda com a sua pessoa, é a vontade de lhe pedir perdão. Pedir perdão e reconhecer-lhe o valor como homem, que durante tempos sem fim desconfiava ficar-se-lhe ao nível da sola dos sapatos. Na verdade achava-o um pobre miserável, pouco mais que ignorante, com a arrogância de manipular a língua-mãe como bem lhe aprouvia. Sem credo e sem temor a Deus. Um real néscio numa figura prepotente. Um ressabiado. Julgava-o descrente apenas da boca para fora, para esconder a fé desmesurada contra a qual lutava. Apenas via em si o ódio de quem, apesar da idade, ainda não tinha aprendido a viver, nem aprendido nada com a vida. Uma revolta apenas comparável à de uma de colegial a quem não foi satisfeito mais um inútil capricho e por isso amua de beiço estendido.
Caríssimo José, como eu estava enganada.
Como me penitencio por estar enganada. Como me satisfaço por ainda assim o reconhecer.
Lidos os seus livros, conhecida a sua vida, rendida à sua história de amor, não me resta senão estreitar a garganta de engano e embaraço.
Que notável homem foi, José! Que grande ser humano se encontrou nesse corpo! Nesse velho corpo onde ser escritor apenas coroou a excepcionalidade do génio em que se tornou.
Afinal, a sensibilidade que carregava no seu peito, era maior que aquela que carregava nas letras. Enganou-me bem. O seu amor pelos Homens não tinha fim e o amor pela vida doía-lhe por saber de um final inevitável. Amou a todos de modo mais ou menos severo mas entregou-se a tudo com as ganas de quem cresceu sem esse amor. Finalmente rendeu-se quando encontrou o mais literal dos pilares. Amaciou-se, e fez-me vê-lo doce, quando a velhice lhe chegou à pele. Os velhos são o meu conforto confesso. Passei a encontrar em si uma ternura que acreditava perdida para sempre entre as palavras agudas dirigidas a Deus. O mesmo Deus que o baptizou, ironicamente, com o nome de seu pai. Talvez soubesse que um dia o iria vergar. Sabia, com certeza, que um dia o iria receber. 
É por este reconhecimento de homem bom mesclado de escritor genial, que não podia continuar sem lhe pedir perdão. Sem lhe dizer que gostava de o ter conhecido. Sem lhe contar quantas vezes me imaginei em Lanzarote à conversa consigo, pela paisagem despida e insaturada. Sem confessar que, se as nossas vidas se tivessem cruzado, eu me teria apaixonado por si.
Assim, na solidão das palavras que deixou, choro cada dia que o julguei em vez de o ter tentado compreender. Perdoe-me.

Espero que guarde junto a si estas sinceras palavras, para que um dia, juntos, as possamos reler.

Com toda a estima,
Um até breve!"


Porque hoje José Saramago faria 89 anos.



segunda-feira, 14 de novembro de 2011

"Dias Cães" no Facebook


Inevitabilidade dos tempos ou não, o "Dias Cães" aderiu ao Facebook. 
Quem quiser seguir as actualizações pode fazê-lo Aqui
Basta dizer "Gosto".



Red Shoes. Red Light.



Parecias menos puta quando descalçavas os sapatos. Por alguma razão aqueles miseráveis stiletto agarravam-te às memórias das montras onde te vendias todos os dias. Querias que parecessem caros mas sabemos bem que os herdaste de uma colega, não menos puta e menos pobre que tu, desenrascados no Noordermarkt num dia cinzento. Não eram os Louboutin que algumas desfilavam, mas tu nem te ralavas. Sempre foste ordinária. Até nos sonhos eras ordinária... sabias lá o que eram uns Louboutin!
O homem que te quis calçar os sapatos da dignidade nunca o haveria de conseguir porque tu nunca passaste de uma pêga de rua, guardada por umas vidraças lambuzadas, onde te exibias, desmoralizada, entre cortinas velhas de veludo, de bainhas coçadas e galões debotados. 
É nestes pormenores que vejo, que o dia em que deixei cruzar a minha vida com a tua, devia estar embriagado de tesão. Nada mais. Porque nada mais justifica que me pensasse apaixonado. Nada mais perdoa que te trouxesse a minha casa para dividirmos as paredes e os afectos. Se realmente amasse alguma coisa em ti para além do vermelho que irradiavas, nunca acordaria suado de nojo e com vómitos de vergonha. Nunca teria tentado esconder-te dos vizinhos. Nunca teria mentido aos amigos e família sobre as tuas origens.
Foste um erro que eu insisti em errar porque há muito me exigiam que acertasse. A culpa não é tua. A culpa não foi minha. Obrigaram-nos a ambos a escolher o caminho das mentiras. O que nunca ninguém se lembra é que os sapatos podem mudar um homem, mas um homem não muda quando troca de sapatos. 

Não sou capaz de esquecer o teu passado. Perdoa-me mas não consigo. Tornou-se insuportável continuar a olhar-te por entre as pernas. Por essas pernas que tantos outros homens usaram. Tornou-se insuportável pensar que esses sapatos que calças nunca saberão outro caminho que não seja vermelho.







quinta-feira, 10 de novembro de 2011

"Dias Cães" em papel




O "Dias Cães" decidiu sair do computador e ir até casa de alguns fieis leitores, para uma leitura clássica, em que os dedos se perdem no barulho das folhas de papel. 
Esta versão impressa, totalmente
homemade, terá um número limitado de 10 exemplares e será entregue pelo Natal... em mão ou pelo correio.





Quem estiver interessado deixe mensagem aqui!






terça-feira, 8 de novembro de 2011

O problema dos "Ses"



- Se vivesse mais cem anos viajaria mais?

- Se não viajasse mais de que valeria então viver mais mil anos?

- Se o Sol amanhã não nascesse o mundo acabaria?

- Se o mundo acabasse que falta faria o Sol?

- Se tivesse dinheiro não precisava trabalhar?

- Se não trabalhasse não teria dinheiro?

- Se fosse feliz não chorava?

- Se não chorasse era mais feliz?

- Se fosse magra comeria menos?

- Se não tivesse comida seria mais magra?

- Se gostasse de alguém, alguém iria gostar de mim?

- Se ninguém gostasse de mim, eu teria de me odiar?

- Se mudasse de trabalho gostaria mais de acordar?

- Se nunca mais acordasse preferiria ter ido trabalhar?

- Se morresse agora, alguém o saberia?

- Se ninguém soubesse que morro agora, quem me impediria?

- Se sorrir mais fico mais bonita?

- Se nunca for bonita valerá a pena sorrir? 

- Se sussurrar num ouvido, esse murmúrio chegará ao coração?

- Se as pessoas não tiverem coração, para que raio lhes serve um par de ouvidos?

- Se beber uma garrafa de Gin direi o que não quero?

- Se disser coisas que não quero, acreditem... não foi do Gin.




O problema dos "ses" é constituírem por si mesmos palíndromos nas diversas frentes de interpretação. 




terça-feira, 1 de novembro de 2011

10 razões para namorar um(a) arquitecto/a


10 REASONS TO DATE AN ARCHITECT


1. All night long, all night strong;

2. We are damn good with our hands;

3. If we can commit to chipboard, relationships should be easy;

4. Should see the things we erect;

5. Used to doing things over and over again;

6. Finishing early never happens;

7. We know the true meaning of interpretation;

8. Creative positioning;

9. Work well in groups;

10. Entry and passage are always exciting.



(cuidadosamente roubado daqui)