12.3.12

Morrer em Lisboa



Em 1932, a pequena Donzília chegara à estação de Santa Apolónia, vinda do norte do país, pelas mãos dos seus pais e de uma velha avó materna. O momento ficaria para sempre marcado por uma azáfama que não conhecia mas lhe animou o pulso. As longas horas de comboio, o corrupio de malas, a correria das pessoas pela gare, o bater de asas afoito dos pombos, o fumo das castanhas assadas à porta da estação, o rio... O rio. Ahhhh, aquele rio. O rosto embeveceu-se-lhe de espanto! Reteve sempre a imagem do rio. Nas muitas vezes que havia de contar a sua história da chegada a Lisboa, havia de começar sempre pelo rio e só depois relataria os anos que antecederam aquele momento, e os que lhe seguiriam. Como a saída de Braga com a família, forçada pelos curtos tostões, e os anos que conquistou pela capital, com todas as venturas e desventuras que encarou. Com todas as tropelias que a fizeram chegar a mulher de prumo alinhado.
A menina Donzília cresceu no ofício de serviçal em casa de uns senhores ricos e mais tarde abraçaria a arte de costurar - herdada pelo gosto de sua mãe e de sua avó, mais que a tarefa de servir com os modos finos com os quais não tinha nascido. Apesar de lhe ter servido de polimento à rudeza que lhe corria no sangue, não lhe bastou servir os outros para se querer tornar senhora. Como aquelas que via passear pelas avenidas novas ou as que se sentavam nos bancos do Jardim da Estrela a comer um gelado de glacé, enquanto se distraiam em risinhos e conversas informais com as amigas.
Donzília havia de se integrar na cidade, pela qual se apaixonou no primeiro piscar de olhos ao rio, e parecer uma das muitas jovens senhoritas que não contavam os tostões para mandar fazer um vestido novo ou comprar uma capeline de feltro. Na busca por essa vida confortável, a costureira soube amealhar o conforto de uma vida parca mas feliz. Não lhe faltou nada nos limites do razoável. Faltaram-lhe os amores e também os filhos, que gostaria de ter tido para educar e levar a passear à Feira Popular. Faltaram-lhe os laços de uma família criada por si e acabou envelhecendo em toda a dignidade da solidão. Com o passar dos anos, e a chegada do peso às pernas, já não se permitiam agora as muitas viagens de outrora, cima-abaixo, feitas à sua habitação num penoso 4º andar, e por isso as saídas começaram a rarear. Contingências da vida! Bem o sabia. Nestas alturas a mente afundava-se na tal família que não construiu, e imaginava quão diferente podia ser aquela solidão se os muitos filhos e netos, que gostaria de ter tido, a visitassem. Talvez pudesse voltar ao Jardim da Estrela se um par de braços a ajudassem a descer do seu 4º andar. Mas não os tinha e, ao abrir de olhos, realizava-o de forma conformada e condescendente.
Quando se sentava no seu velho cadeirão de veludo, em tons de bege já coçado, e o sol lhe surripiava o rosto por entre as cortinas de musselina, transportava-se mais uma vez até à margem do rio, imaginando que os seus reflexos prateados e a brisa fresca lhe limpavam as faces e acalmavam as rugas. Ficava ali, entregue ao calor reconfortante do sol da manhã, aquecido pelos vidros velhos das janelas.
Num dia, esse agasalho que eram as imagens do passado e aquele sol de tons torrados, acarinharam-lhe tanto o corpo que a alma se desprendeu. Ficou-se tão sossegadamente no velho cadeirão que a sua expressão parecia a de se ter deliciado com uma sesta numa tarde de Domingo.
A D.ª Donzília, do 4º- Esquerdo, deixou vago um apartamento sem herdeiros. Ninguém brigou por bens e teve o funeral digno e modesto que a vida justamente lhe retribuiu.
As flores nunca haveriam de abundar porque a família, distante em Braga, também o era em grau de parentesco e não se havia de apoquentar com sentimentos de última hora. E as amizades, feitas em todos estes anos na capital, há muito que não aguentaram o peso da idade e já tinham partido.

Apenas após 375 dias decorridos sobre a sua morte, o corpo da D.ª Donzília foi retirado de sua casa. O senhorio, alarmado por um ano de rendas em atraso, nem questionou ao primeiro mês a regularidade dos quarenta anos que lhe antecederam. Apenas após 375 dias, a D.ª Donzília lá teve um par de braços para a ajudar a descer do seu 4º andar. Mas desta vez, lamentavelmente, não seria para voltar a ver o rio. 






6 comentários:

  1. A qualidade do seu blog e da sua escrita levaram-me a escolher o seu blog para o Prémio Dardos.
    Venho visitar, sorrateiramente, o que vai escrevendo e eu gostando
    Um abraço de Lisboa e Portalegre.
    Raul

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    1. Sinto-me honrada com tal distinção. Não conhecia o Prémio Dardos, mas lá fui investigar e fiquei agradavelmente surpreendida com o conceito.
      Irei proceder em conformidade com as regras para não quebrar a corrente mas preciso de uns dias.
      Obrigada Raul por me visitar e por me ler, mesmo sorrateiramente.
      Espero continuar a tê-lo por cá!

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  2. É ficção mas podia ser realidade.

    Já fiz este comentário mas parece que foi ter a outra história.

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    1. Parece-me que, infelizmente, é tão realidade...

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  3. Uma história que me parece tão real! Senti lágrimas verdadeiras em minha face.Bonita a tua escrita.Quando vais lançar um livro? Bj

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    1. Olá Márcia!
      Não me parece que um livro esteja ao meu alcance, mas agradeço a sua confiança e entusiasmo.
      Bjs.

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