quarta-feira, 7 de março de 2012

Nascer para morrer



Não há maior ironia na vida que a própria morte. Nascemos para morrer. Já algumas pessoas antes o constataram. Outras tantas ainda não perceberam nada do que andam a fazer e nem perceberam esta singularidade de termos de lutar pela vida, ainda antes dela o ser, para termos como destino certo a morte. A única razão para isto acontecer só pode ser porque, de algum modo, oportuna e previamente conseguimos saber, ainda antes da concepção, que quando fazemos a viagem entre o nosso pai e a nossa mãe, é para vir ao mundo gozar de uma experiência única e imperdível. Aquele espectáculo para o qual só havia um bilhete. Quem lutou e ganhou, levou para casa o direito a morrer. Foi isso que todos ganhámos.
Apesar de achar a morte uma coisa tramada - porque nem nos perguntam quando queremos que acabe o jogo e desligam-nos, simplesmente, os cabos - nunca tive pena de um dia ter de morrer. Custou-me aceitar que os outros que morreram deixassem de estar comigo. Mas custou-me porque me faziam falta. Por isso suponho que seja puro egoísmo e não dor, amor, ou sentimento de injustiça "ai, que os bons vão sempre primeiro". Vai quem tem de ir e já não tinha o que fazer por cá, ainda que por vezes pareça que já não andamos por cá a fazer nada.
Às vezes até gostava de já ter morrido. Penso até que já podia ter morrido. Em alguns fases da minha vida podia ter acontecido esse momento, de um modo mais ou menos natural. De uma maneira mais ou menos desinteressante e sem marcas. Poderia já ter partido, sem ninguém se assoberbar. Sem grandes choros ou condolências, porque a vida continua para todos os que cá ficam. Podia ter sido pacífico e o assunto já estava despachado. E hoje era um bom dia para morrer, porque não estou a fazer nada. Nada que seja importante para mim ou para os outros. Não passo de um peão que gira no tabuleiro de xadrez apenas a tentar escapar-se. Mas os peões são sempre aqueles que vão à frente para ser comidos não é? Pois, devia então tentar ser a Rainha, mas a diversão não é a mesma. Mas não podemos ser todos peças-chave a alguns lá têm de ir à frente e findar-se para que outros por cá continuem. Mas certo é que todos temos o dia marcado para morrer.
E hoje até podia ser um bom dia para morrer porque está cinzento. É que quando eu morrer, quero que as pessoas fiquem tristes e isso não se compadeceria com os raios de Sol. Queria morrer hoje porque não daria trabalho a ninguém. Morreria sozinha, em casa, nesta casa que só me tem a mim e ninguém mais para cuidar. Morreria solenemente só. Morreria a dormir. Assim o desejamos todos.
Amanhã dariam comigo sem expressão no rosto, abandonada ao momento de solidão que me viu partir.
Tratariam de mim, pela primeira vez em muitos anos, melhor do que nos trinta anos que vivi.
Voltar-me-iam a dar as atenções de quando nasci e me celebraram a chegada ao mundo. 

Ao ver a luz - num foco que nasce ao fundo de um túnel negro como Ébano - descola-se-me a carne dos ossos e fico com vontade de partir.
Afinal de contas, o único bilhete que tínhamos como certo quando nascemos era o da partida.





4 comentários:

  1. Gosto do que escreve mas por favor mude o tipo e o tamanho de letra. É difícil de ler... e a pessoa quer mais mas o esforço é tanto, acaba por ser uma espécie de prazer sofrido (dizem que é o melhor), mas se for um prazer menos sofrido tb não é mau. Digo eu. Obrigado

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    1. Nuno, agradeço a chamada de atenção e irei estudar outras hipóteses de letra e/ou tamanho. No entanto, como deve calcular, é-me difícil abandonar esta imagem do blog. Mas vou ver o que posso fazer.
      Em todo o caso, chamo a atenção que o problema poderá não estar na letra com que escrevo nem no tamanho que utilizo. Pode até ter a ver com a configuração do seu computador. Nos diversos computadores em que acesso ao blog é comum existirem diversas desconfigurações.
      Pode ser disso... mas estou apenas a arriscar uma possibilidade.
      Obrigada pela visita e espero que volte.

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  2. Ah, a morte. The final frontier. To be or not to be, that is the question. E por aí fora.

    Estava a estranhar a tua ausência (perguntome se te terás perdido no cubo eheh) e fui procurar o teu mail para enviar um "Então, morreste?" mas não encontrei mail... Oh diabo, então como vou comunicar com a diascães? Será que morreu? Morreu... tag morte! Eureka!

    Encontrei este texto. Adorei. Pena que o pessoal procure mais os textos eróticos e passo a citar-te, do esperma a jorrar para a boca forçada até à garganta, do teu cabelo cor-de-fogo e da pele das bestas a roçarem-se sobre a tua pele de cabra, dos red shoes que não são louboutin...

    Tu és muito mais que textos eróticos, aliás basta ver a quantidade de textos que publicaste: só nove eróticos.

    Parabéns pela tua escrita. Espero que não tenhas morrido! Eheh

    P.S.: Não resisto a perguntar-te neste cantinho recatado do teu blogue, se és mesmo 38D como li num comentário no "Fode Fode Patife"... ;) Aparece no meu blogue e/ou no meu mail. Sabes que uma vez tive um caso com uma colega de Évora e encontravamo-nos em Montemor, ela tinha fetiche de fodas no pinhal, gostava de aparecer vestida mesmo à puta. São casos destes que dão sal à vida. :)

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    1. Estou viva. Estou prestes a sair do hipercubo. E as copas 38D ainda estão por cá.
      Obrigada pelo comentário.
      Até já!

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