sábado, 15 de setembro de 2012

O fotógrafo e a escritora





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As noites e madrugadas, encostada em esquinas vomitadas de sexo mal pago, amaldiçoaram-lhe o destino. Desde o primeiro trocar de dinheiro por gemidos fingidos que a sua vida tinha, drasticamente, terminado. Não se odiava pela opção que tomara, mas tinha deixado de conseguir olhar-se no espelho. No reflexo dos vidros dos carros que se encostavam às suas coxas. Nas montras abandonadas às luzes da noite. Deixou de se olhar, num desejo subconsciente de que as outras pessoas também não a vissem. Pensava que não se vendo, nenhuns olhos passariam por ela. Não aceitava a sua imagem. Não se olhava mais ao espelho. Não se deixara retratar, nunca mais, desde o primeiro dia em que se deitou com um homem, em troca de pão para a boca.
No intervalo das horas do dia em que estava acordada, ainda moribunda num sono de vergonha, lavava o rosto na água fria para despertar do embaraço. Começava naquele momento a vida comum e sorrateira que lhe trazia tranquilidade ao pulso. Agarrava-se às letras dos livros, ao sonho das imagens e à ilusão da felicidade que as histórias lhe traziam. Todos os dias, religiosamente, desenhava letras sobre as folhas, numa caligrafia traçada a rigor. A sua grande paixão sempre fora escrever, desde que aprendeu que uma caneta era um instrumento de criação. Chegou a iludir-se de que um dia poderia viver ao ritmo dessa caneta mas também um dia cresceu, os sonhos mirraram, e percebeu que a distância entre o rabiscar de tinta e a concretização da história era um caminho sem fim. Não lhe restaram, assim, alternativas a ter de entregar-se durante a noite a enredos inenarráveis, para durante o dia poder ser a escritora que, durante anos, desejou ser.



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Andava perdido pelos dias e pelas noites há demasiado tempo. Não conhecia os intervalos em que devia dormir, estar acordado ou alimentar-se. Há muitos meses que os dias pareciam semanas e nada parecia acontecer na sua vida.
Os tempos em que tinha trabalhado numa empresa, tinham-lhe preenchido a necessidade de pagar contas mas nunca lhe alimentaram a emoção. Queria mais que apenas um emprego socialmente bem aceite e confortável. Sabia que dentro de si, bem lá na sua intimidade, gostaria de poder viajar pelo mundo a fotografar. A fotografar o mundo, claro está! Tinha tanto dentro de si para dar. Tinha tanto para dar e sabia tão pouco como o fazer. Por vezes sentia-se sufocado pelas suas próprias vontades sem soluções mas sentia-se incapacitado para agir. Ai, tantos sonhos que tinha, sem saber como realizar. Ai, tantos sonhos que tinha, pelos quais pouco lutou por concretizar. E sentia-se assim muitas vezes: impotente para mudar a sua própria vida.
E um dia, num daqueles dias afoitos em que a pessoa perde o norte e decide ser feliz, assinou meia-dúzia de papéis lá no emprego e pôs-se a correr. Correu dali para fora como se o mundo esperasse por ele, e ele já estivesse atrasado. Ele e a sua máquina fotográfica. Sempre na companhia da sua máquina fotográfica.
No dia em que se despediu, chegou a casa com a leveza de um miúdo traquina a quem soube bem fazer um disparate. 
No dia seguinte acordou na dura realidade de que o mundo continuava a girar e os sonhos não se tinham realizado sozinhos. Adormeceu numa depressão de dias, que pareciam semanas, que durante muitos meses lhe pareceram anos.



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Numa das noites, em que a cabeça andava perdida pelo vazio das horas, agarrou na sua estimada máquina e fez-se à estrada. Pôs-se a caminho de coisa nenhuma e sem destino nenhum.

Percorreu quilómetros sem emoção, para esquecer-se daquilo em que a sua vida se tinha tornado. Pensou em deixar-se ir por um penhasco abaixo. Pensou em largar a vida. Pensou. Pensou que já não havia lugares, nem pessoas, nem objectos que valessem a pena fotografar. Os seus olhos já não viam nada que a sua máquina quisesse registar.

Parou o carro.
Olhou, absorto, a noite.
A fabulosa noite que, inesperadamente, tinha caído.
Sentia um perfume misturado na brisa e fechou os olhos para o saborear.
Ao abri-los novamente, uma mulher, estática, apareceu na sua frente. Com o medo a gritar duns profundos olhos esborratados e a tremelicar do cimo de uns saltos finos e de uma saia indecentemente curta. O medo só a fazia parecer ainda mais bonita.
O olhar dele colou-se à imagem dela. Daquela bela mulher, com o escuro da noite por trás, numa decadência genuína de quem não queria estar ali.

Ele agarrou-se à máquina e num pensamento desembriagado avançou:

"Posso fotografar-te?" - Perguntou.

"Não, deixa-me primeiro escrever-te" - Sussurrou-lhe ela com um sorriso.






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