quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Os lugares. Os objectos. As pessoas... As pessoas...



Nasci numa vila que mais tarde se elevou a cidade, mas nunca me senti a viver em mais que uma aldeia.
Não me deu ferramentas nem luz para dali fugir. Mostrava-me apenas um túnel que, acreditava, até ser prazeroso. Não conhecia outras paragens por isso aquelas não me pareciam lentas. Eram as únicas que tinha como possíveis. Estava rendida a uma estagnação que desconhecia ser real. No fundo desse corredor, onde não imaginava quantas coisas aconteciam, parece que, afinal, havia mundo.
Larguei as estradas atarracadas da vila, que insistiram em chamar de cidade, e caminhei devagar para ver se os pés se firmavam. Aguentaram-se e prossegui. Os joelhos lá se tocavam de tremores mas o passo acelerava-se ao ritmo do peito em euforia. 
Entendi o que estava para lá daquele esconso túnel e a gargalhada vinda do esófago amagou os suores frios das mãos. Os suores de ansiedade foram-se à medida que a confiança atracava. Rendi-me.
Encontrei-me naquele local. A verdadeira cidade encontrou-se comigo e eu não faltei ao compromisso. Dormi mais de dois milhares de noites nela. Vivi muitas vidas nos seus dias. Conheci um punhado de gente que ainda hoje insiste em permanecer na minha vida. Cruzei-me com outros milhares de pessoas que nem fazem ideia que lhes sinto a falta. Aqueles desconhecidos do metro, do autocarro e das ruas, que me habituei a ver nas rotinas. Ainda penso em alguns. Gostava secretamente que alguns também me sentissem a falta. Afinal de contas partilhamos passos e caminhos. Caminhos que acabaram divergentes porque as vidas também o são. Falo na primeira pessoa quando assumo que fui a primeira a divergir, quando mais tarde traí a cidade grande. Quando traí o meu amor por ela. Quando me traí. Traí-me e enganei-me quando decidi abandonar este amor pela incerteza da aventura e do desconhecido. Fiz as malas, larguei umas lágrimas, levantei a cabeça e mentalizei-me que o certo era arriscar. Rumei à ruralidade de uma outra aldeia que insistiram em chamar de cidade. E nem era a minha. Nunca foi e percebo que nunca será. Foi como se abandonasse um amor que me ensinou a crescer, por um caso com um desconhecido atraente. Nesta aldeia a que chamam de cidade, ganhei outras coisas, mas perdi a identidade. Anulei-me.
Mas mais uma vez lá me lembro das pessoas que vou pescando e aquelas que me caçaram. Também aqui, nesta aldeia a que chamam cidade, coleccionei pessoas que vou levar comigo, quaisquer que sejam os caminhos que me esperam. Amor verdadeiro e abnegado foi aquilo que aqui conheci. Daquele amor que não quer nada em troca: só se entrega.
Como me vou entregando a cada cidade que que passo, também daqui já me custaria levantar amarras. Aqui também já é a minha casa. Por isso vivo neste dilema sobre o sítio onde pousar. Sobre os motivos que me levaram a ficar num sítio em não no outro. Sobre as razões que me levarão, um dia, a querer aconchegar-me num lugar e ficar descansada. Porque sei que um dia é isso que vou querer.
Quando penso no abstracto e me coloco estas questões a resposta acaba por ser sempre a mesma: o que me prende aos lugares são as pessoas.
O dia em que mais uma vez quiser arrumar as malas, largar umas lágrimas e partir, com certeza que o farei por uma pessoa. Por alguém. Por qualquer motivo. Por um qualquer motivo que tenha a ver com pessoas, porque os bens, esses, vou largando e recolhendo exactamente nos sítios onde os encontrei. Os bens, são apenas coisas pesadas sem sentido. As pessoas nem preciso de as carregar ao colo e cabem aos milhares no coração.

Quando olho para a estrada que se vai diminuindo lá atrás, vejo que não deixei nada caído. Não perdi bens fundamentais. Não me faltou nada daquilo que mantém uma pessoa de pé. Olho para trás, por cima de um ombro que insiste em se elevar, e vejo que nada colhi. Deixei tudo exactamente onde estava. Não trouxe nada do que era dos lugares atrás de mim. Não movi nada nem ninguém. Andei e o cenário permaneceu igual. Olhando para trás vejo, que não tenho nada. Não recolhi nada.
As pessoas, as muitas que se foram colando a mim, e que eu amo que me arrastem com elas, essas boas centenas de pessoas, são bens inalienáveis e indeslocáveis. Não é importante que o sejam. É importante que permaneçam, independentemente do ponto geográfico onde se encontram. Se não puderem vir até mim, eu irei ter com elas.


Esta música... apenas porque sim.






5 comentários:

  1. detesto sentir-me assim como me sinto depois de te ler. é como se tivesse levado um murro no estômago... e logo hoje, Dc...

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  2. Epá...Fiquei quse sem respiração!.. E, ao acabar de ler, fiquei feliz. Feliz porque sei que estaremos sempre no coração um do outro qualquer que seja a aldeia em que nos encontremos!
    1 beijo enorme! :)

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  3. Estás aqui também, numa pequena aldeia do Brasil: Pelotas (a qual insistem em chamar de cidade).E será muito bem vinda quando apareceres!!Ah, e muito obrigada! ;) Bjs

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  4. Por mais que se mova a personagem, arrasta sempre consigoo a sua sombra e os seus falhanços.

    Porque só se move quem falhou,quem perdeu o jogo...abandona o campo de batalha de cabeça baixa e tenta-se esconder noutra aldeia, quer vencer, quer tentar mais uma vez...mas o jogo está viciado e mais uma vez sai derrotada.

    Acaba por ir vender bolas de Berlim na costa da caparica e sonha com a terra em que nasceu e foi feliz...mas já não consegue voltar, porque perdeu, derrotou-se e foi derrotada...
    esconde-se e tem vergonha das pessoas que sempre gostaram dela ou que eventualmente a amaram lá nessa terra perdida no mar do esquecimento.

    Hoje apeteceu-me dar uma de intelectual da Rive Gauche.
    O teu texto parece uma cópia dos filmes do Eric Rohmer.

    Pinoquio

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