sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Rapariga procura homem

Fotografia de Jon Gavin para Black Velvet



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Meia-noite em ponto.
A tranquilidade que sentia não lhe era comum. Costumava sentir-se zonza uns minutos antes da meia-noite e os tremores e suores apoderavam-se dela até ao momento em que voltava a ficar sozinha.
Estranhamente, hoje, sentia-se tranquila. 
Quatro horas antes tinha recebido um telefonema que a tinha deixado assim. Sem medos. Sem pressas. Sentiu-se serena e, pela primeira vez em muito tempo, pouco culpada. Do outro lado do telefone, ele dizia-lhe com rigor tudo o que pretendia para que, quando se encontrassem, não se perdesse tempo em hesitações e amadorismos. Não mostrou arrogância nem autoritarismo, apenas alguma firmeza que a ela lhe trouxe segurança.
Depois do telefonema passou o tempo todo a preparar-se para aquele momento especial. De algum modo sentia que seria uma oportunidade única e irrepetível e nem conseguia racionalizar porquê.
Preparou três conjuntos de lingerie. Escolheu três pares de sapatos com salto agulha a condizer. Maquilhou-se. Perfumou o ambiente. Limpou as correntes, a trela, a coleira e a chibata. Por alguma razão sentiu que aquela não era noite para vendas e algemas.


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"Rapariga, morena, 30 anos, procura homem para sexo sadomasoquista. Não pretende qualquer relação amorosa. Não combina segundos encontros. Disponível todos os dias depois da meia-noite."

Sofia sempre fora a rapariga ideal. Boa filha, boa aluna, boa amiga, boa dona de casa, boa namorada... Irrepreensível era a palavra comum a todas as pessoas que a descreviam entre familiares, amigos e colegas. Depois de terminar o curso de Direito agarrou-se ainda mais aos livros e lutou para ser juíza. Era o orgulho de toda a família, que tinha criado aquela filha de modo humilde, e Sofia nunca se esqueceu disso. A sua honestidade e inteligência associadas à sua evidente beleza tornaram-na alvo de desejo desde muito cedo mas desde muito cedo soube que não se podia entregar. Esperou pelo homem certo. Namoraram mais de dez anos e um dia lá decidiram viver juntos. Os horários desfasados nunca foram motivo de discórdia ou afastamento. Aceitaram sempre as diferenças.
O namorado, médico de profissão, raras vezes dormia em casa e ela preenchia-as como podia. Umas vezes a trabalhar outras vezes... a atender telefonemas.


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Meia-noite em ponto.
A campainha tocou.
Sofia recebia sempre os seus "amigos" em casa. Sabia que o namorado chegaria apenas perto do amanhecer e ela nunca deixava que eles permanecessem mais de quatro horas.
Meia-noite em ponto e Sofia ajeita as meias de liga e passa uma última vez pelo espelho. Sente-se linda e sensual e sabe que já está a explodir de desejo entre as pernas, mesmo sem saber quem está do outro lado da porta. De passo firme dirige-se à porta e sente as expectativas elevarem-se. Não se enganou. Ele é lindíssimo.
Não trocaram palavras. Ele agarrou-a pelos cabelos e mandou-a contra o chão. Ela ficou louca de tesão. Ele rasgou a roupa dele e arrancou-lhe as meias das pernas. Ela respirava cada vez mais alto de excitação. Penetrou-a afincadamente, sem amabilidades, e consumiu-a até se vir enfurecidamente e nem a olhar. 
Ela gelou.
Não era aquilo o acordado. "Rapariga, morena, 35 anos, procura homem para sexo sadomasoquista". Era isso que ela procurava para aquecer a vida morna que tinha há mais de dez anos com o namorado. E por isso, há mais de cinco que procurava aventuras e dor noutros homens. Não era pelo sexo. Não era apenas pelo sexo.
Sofia levantou-se e deu-lhe uma segunda oportunidade. Recompôs-se, mudou de lingerie, e voltou à sala onde ele tinha ficado. Levou a trela posta na coleira. Ergueu a chibata e sorriu-lhe. Ele percebeu a mensagem. Dirigiu-se a ela e puxou-lhe a trela. Chamou-lhe puta para a excitar. Apertou-lhe dois furos na coleira e espremeu-lhe os mamilos até ela gritar de dor.
Apertou mais e mais a coleira. Ela gemia de prazer. Ele apertou mais. Ela sentia que era demais mas deixou-se ir. Ele apertou mais... e mais... mais. Sofia tinha razão: as algemas e a venda não mais iam ser precisas. Não naquela noite.
Sofia não mais respirou. 

*
"Juíza Sofia M.P. foi encontrada morta esta madrugada em sua casa, pelo namorado, quando este regressava do trabalho. O suspeito do homicídio já se encontra detido e pode-se desde já apurar que se tratava de um ex-recluso, que acabou de cumprir a sua pena de cinco anos, ditada pela juíza Sofia M.P. no ano de 2001. Desconhece-se se existiria alguma relação pessoal entre ambos face ao cenário encontrado em casa da vítima, no entanto parece claro tratar-se de vingança."

Naquele dia, no jornal, já não havia o anúncio da rapariga que procurava homem para sexo sadomasoquista. Naquele dia todos o estranharam.








4 comentários:

  1. Apesar de tudo, um final muito straihgt... A rapariga morena pagou caro os seus desvios...

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  2. Teve um fim trágico mas gostei de ler! =)

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  3. Fui um bocado careta com o final... Eu sei.
    Para a próxima mato-a de prazer em vez da asfixia.

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