quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Carta ao meu pai que não emigrou


"Pai,


Escrevo-te esta carta com muitos anos de atraso. Ou talvez precisasse de todos esses anos para te conseguir, convenientemente, escrever. Escrevo-te esta carta, numa altura em que se fala de partidas, de pais que deixam filhos, de filhos que lamentam a partida dos pais. Fala-se do drama da emigração. E tu sabes o que é emigrar porque, também tu, já o fizeste. Bem sabes que nessa altura não houve palavras. Não me lembro, sequer, se houve uma despedida. Se houve a conversa do "tenho de ir procurar uma vida melhor para nós". Não houve, com certeza. Terás saído de casa, num dia qualquer, sem despedidas, nem lamentações. Nunca recordei esse exacto momento, porque, creio, nada terá acontecido.
Poderia ter lamentado depois. Ter sentido a falta. Ter sentido... a saudade. Saudade. Não senti. Mas na tua ausência aconteceram muitas coisas comigo. Houve muitas coisas que morreram e nasceram em mim por não estares. Coisas em que fui obrigada a pensar para encontrar a verdadeira razão de não lamentar que tivesses emigrado. Nos dias, nos meses, que se seguiram à tua ausência, deixa-me dizer-te o que se passou, a transformação que a tua ausência fez dentro de mim:
Nessa altura, morreu o pai da minha melhor amiga. Matou-se. Éramos adolescentes e ele matou-se. Um pai não faz isto a uma filha. Aquela morte atordoou-nos a todos. Bem sabes como todos gostavam do pai da minha melhor amiga. Era aquele pai que nenhum dos outros pais estava para ser: presente. Por isso, quando ele se matou, quando quis morrer, desaparecer, eu não pensei em ti. Pensei na dor dela. Pensei que ela tinha acabado de perder o pai que tanto amava. Hoje sei, todos sabem, que essa falha, essa ausência, lhe destruiu a vida. Ela vive, mas faltar-lhe-á sempre o pai. Sobraram-lhe todas as preocupações de quem vai ter de viver o resto da vida sem um. E, enquanto ela se debatia com a sua perda eterna, eu questionava-me sobre quão definitiva e irremediável era a perda que eu sentia, emocionalmente, de ti. Sobre qual das perdas doía mais.
Também por essa altura, vi um colega de liceu andar às voltas com um embaraço paternal. Não sabia quem era o pai. Nunca soube. A mãe, entretanto solteira, tinha cometido o pecado de ter sido casada com um homem e ter sido amante de outro. Engravidou sem saber de quem. Foi abandonada pelos dois e nunca se chegou a saber a quem deveria exigir que fosse pai. Pela altura em que tinhas emigrado, andava o meu colega destruído por dentro por não ter o nome de um pai para escrever nuns papéis do liceu. "Pai desconhecido", lembro-me tão bem. Doeu-me tanto. Não teve pai de criação, nem de educação, nem de amor, nem de nome. Nem sequer de nome, que foi aquilo que eu tive. Dei por mim a pensar na diferença entre ter um nome e não ter, independentemente de ter um pai ou não ter. Cheguei a uma conclusão que nunca poderei dizer.
Por essa altura, em que estiveste fora, as pessoas perguntavam-me por ti. Os meus amigos, apesar de mal te conhecerem, perguntavam-me por ti. E eu não lhes sabia dizer nada. E eu não sabia dizer nada porque nunca me deste nada que eu pudesse conhecer. Nunca soube nada de ti. Soubeste apenas criar um fosso entre nós. Talvez por isso não tenha sentido que tivesses abandonado o país porque, o que eu sentia, é que há muito que me tinhas abandonado a mim. Não saberia, por isso, escrever-te uma carta nessa altura. Ainda é difícil escrever-te agora. Mas, como vês, andei ocupada a tentar perceber o que se passava com os outros e o que era diferente entre nós, e de que maneira a emigração dos outros pais era diferente daquela que me fizeste.
Por isso pai, o que agora tenho para te dizer, ao fim de trinta e três anos, aquilo que aprendi e que fez de mim uma mulher diferente, é que conheci as muitas maneiras de um pai estar distante de um filho. Conheci as formas de um amor ausente e as formas de uma presença distante. Os opostos. O que é estar longe e o que é estar perto.
Percebo hoje, neste dia em que tanto se falou de partidas dos pais, e de cartas de lamento dos filhos, que há muito que emigraste de dentro de mim. E que a maior solidão é aquela que nasce do vazio entre o não se ter tentado e o nem se lamentar não ter tentado.
Pelo caminho perguntei-me sobre quantas maneiras se pode emigrar do coração de um filho?
Encontrei, assim, na tua ausência, a resposta que procurava: aprendi que não se pode emigrar de um sítio onde nunca se esteve. E a verdade é que tu nunca estiveste em mim."