quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Retrospectiva



Hoje deu-me para organizar o meu primeiro e-mail. Criei-o nos tempos da faculdade, vai para cima de dez anos e, de vez em quando, lá fazia uma limpeza, mas a última foi em 2006. Desde então que se tem acumulado algum lixo.
Lá me decidi a apagar coisas que não interessam mas que, por razão nenhuma, foram ficando: publicidade, e-mails de pessoas que já nem me lembro quem são, facturas electrónicas das contas de água, luz, gás e tantas outras a que uma pessoa nem se lembra que está aprisionada. Banalidades. 

Mas nestes oito anos de e-mails por organizar, vi muito mais que essas banalidades do quotidiano.
Nestes oito anos de e-mails, vi o primeiro contrato de trabalho, os dramas da primeira declaração de IRS, a procura da primeira casa para arrendar. O contrato da primeira casa que comprei. Encontrei fotografias de amigos que estão longe, mensagens de saudade, cartões de Natal e frases em maiúsculas, cheias de entusiasmo, a dizer "AMIGOS, ESTOU QUASE A CHEGAR A PORTUGAL!!!!". 
Vi o drama de quem teve de sair do país sem querer, e relativizei a emigração de que se fala de agora, porque compreendi que há muito que acontece. Felizmente, também assisti ao regresso de alguns. Pelo meio, vi as minhas fugas daqui, porque teimei em guardar os bilhetes electrónicos das viagens que fiz. Logo depois deliciei-me com as fotografias reveladas no regresso.
Encontrei-me em fotografias, com meia-dúzia de anos, com menos preocupações mas muitas mais inquietações interiores. Vi-me sorrir com honestidade na companhia de pessoas de quem verdadeiramente gosto. Reli e-mails de amor profundo. Encontrei os que traziam boas notícias: "Amiga, estou grávida!"; "Amiga, vou casar!"; "Amiga, arranjei trabalho!"...
Vi a vida dos meus amigos ser partilhada comigo.
Vi todos os meus sobrinhos e afilhados nascer de novo. Renasceram-me lágrimas nos olhos. Recebi os convites de batizado e fotografias que parecem ter cem anos. Mas foi tudo ontem.
Encontrei convites para inaugurações de negócios próprios. Vi nascerem projetos que, hoje sei, vingaram. Recordei projetos nos quais me envolvi que, já não me lembrava, mas não vingaram.
Encontrei a matrícula do regresso à faculdade e todos os trabalhos e e-mails trocados com colegas, como se tivesse, novamente, dezoito anos. Voltei a sentir-me jovem naquelas dezenas de mensagens. Recordei nomes de pessoas que sei que não voltarei a ver. Senti saudades de todos.
Também passei por mensagens, pouco católicas, trocadas com pessoas que não tiveram mais de um par de horas na minha vida. Encontros fugazes. Reencontrei os rostos dessas pessoas que não hesitei em apagar, como se, assim, também os apagasse de mim. Mas percebi que a pele não a posso arrancar. Percebi que me arrependi de poucas coisas na vida, mas que, ainda assim, me arrependi.
Finalmente, encontrei aquele amor que encontro todos os dias e que sei que vai durar para sempre. Aquele que faz redimir todos os outros de que me arrependi. Olhei para as fotografias, tão recentes, e que um dia me irão trazer tanta nostalgia, e vi que, o caminho que me trouxe até aqui foi decente e até feliz. Acabei por me surpreender com essa conclusão. Por vezes precisamos de fazer uma retrospectiva num minuto, para percebermos como, afinal, as coisas não foram bem como passámos anos a imaginar.

Foi uma viagem emocionante, é o que posso dizer.
Mais que as imagens, que poderia ver apenas num álbum, compreendi que foram sempre as palavras que mais me fizeram chorar.



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