quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

O livro que me deste



Se o livro que me ofereceste tivesse cheiro, seria o cheiro da erva quente, abraçada pelo calor do verão. O primeiro que partilhámos. Teria um cheiro a pássaros pousados em ramos de eucalipto, perdidos numa manhã lenta. Como aquela manhã em que esperei por ti, deitada na rede, no alpendre soalheiro. Nesse dia esperei-te tranquila, com o calor a confortar-me o corpo, com os pés descalços e o cabelo ainda por despertar. Esperava-te preguiçosa, com o livro que me havias de oferecer na mão, e com o olhar distraído, à espera de te ver chegar com a ansiedade que, apenas quem ama, conhece.
Chegaste, já o livro tinha avançado cem páginas e o meu coração outras mil. Sentia-te a saudade em cada palavra sorvida. Em cada frase que tomava como sendo nossa. Virava as páginas com os olhos postos no nosso passado recente e lembrava o que nos tinha levado até ali. Àquele verão encantador. Àquele livro que me fez companhia enquanto os teus passos não chegavam. O cheiro daquele livro, que ainda não era meu, mas que tu soubesses que eu tinha adotado como se fosse, era doce, como o beijo que tinhas guardado para me entregar à tua chegada. E, finalmente, chegaste. O livro deixou de ser meu. Pousei-o na rede, ergui os braços para te encontrar o pescoço, e recebi os teus lábios quentes. Com o mesmo calor que, sei, sentias no estômago no caminho para me ver. Não precisei de abrir mais aquele livro porque, minutos depois, todas as histórias de amor aconteciam em nós. Chegaste, roubaste-me o coração, eternizaste o nosso abraço e nunca mais saíste de perto de mim. 
Com o inverno passado, longos meses depois do nosso primeiro verão, aquele livro voltou-me às mãos. Foste tu quem me o deu. Hesitei no propósito. Julguei que não sabias que mais me oferecer. Convenci-me do desamor. Do teu arrefecer.
O que eu nunca te disse mas, hoje sei, é que apenas me quiseste devolver àquele verão. Àqueles dias quentes em que os pássaros cantaram para nos adormecer. Àquele dia em que um livro me fez companhia, no correr das horas, até te poder voltar a abraçar.
Hoje sei, que todas as palavras desse livro, elevadas ao infinito, não chegariam para te agradecer.


Meu amor, aprendi neste livro que:
"A vida é mais uma acumulação de intervalos do que de interrupções. A doença interrompe. Os tratamentos interrompem. Mas a vida toda que resta está nos intervalos. E é preciosa por causa disso."

in "Como é linda a puta da vida" de Miguel Esteves Cardoso