terça-feira, 22 de julho de 2014

Da podridão






Quando o coração apodrece,
Morre-se o sangue.
Matam-se todas as vidas dentro da vida de um corpo.
As vísceras mirram-se, lentamente, de fora para dentro.
Como as emoções. Qual desamor.
O baço escurece-se.
Falece em primeiro.
Desiste dentro de nós.
Os fígados e as entranhas misturam-se como lamas,
Ficam negros.
Como a dor.
Os rins, esses silos de emoções,
Despedaçam-se de tristeza.
Perguntam-se pela generosidade do coração.
O coração ironiza-se. De mau.
Quando se apodrecem as artérias,
Não mais se irrigam os canais.
Os nossos. Os que nos levam aos outros.
Matamo-nos a nós.
Matamos a viagem dos outros até nós.
Quando apodrecemos por dentro,
Mesmo com a pele imaculada por fora,
A sepultura já está cavada.
Metemos lá os sentimentos.

Quando o coração apodrece.
Nada mais há para salvar.
Morremos sós.

Morremos tão sós.






7 comentários:

  1. Hoje, apetecia-me morrer... Já não morreriamos sós...

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  2. "Ainda não morri e já me enterro." By Uva Passa... que anda neste mesmo registo. Olha, somos as três da vida airada.

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    1. Então?
      Os chacras e as férias e mais não sei quê?
      Só serve para os outros, é?
      Anime-se, vá lá.
      Não te deixes arrastar por este lodo.

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    2. Não deixo, não deixo... cof cof cof. Vou escrevinhando uma parvoíces no meu blog a ver se me animam as minhas próprias piadas, e é só.

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  3. (Evidentemente, não lhe valerá de nada porque não faz a menor ideia do quanto pode ter em conta a minha apreciação “literária”).
    Ainda assim, acontece-me a necessidade de lhe dizer que isto é MUITO bom.

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    1. Que conversa...
      Eu sou das que precisa da validação dos outros. É uma fraqueza minha.
      Assim, acontece-me a necessidade, de lhe agradecer o comentário.

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