quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Ao largo do Camões aprendi



Tenho saudades tuas.

Tenho saudades da tarde em que comemos um gelado no Camões.
Sentados aos pés da estátua, sem cruzar muito os nossos olhares, apenas a trocar palavras contidas.
Recordo muitas vezes aquele dia em que nos vimos pela primeira e última vez. Ainda sinto saudades daquele dia, dos tremores na barriga antes de chegar a ti, dos sorrisos nervosos e hesitantes quando te encontrei, das palavras que me faltavam pelo caminho. Apesar do embaraço, do desconforto, que senti por ser eu mesma e não alguém melhor, senti-me ser invadida, aos poucos, por uma tranquilidade que vinha de ti. Foste bom comigo. Agradeço-te por isso.

Não me recordo exactamente da despedia. Tê-la-ei apagado da memória. Mas recordo-me do caminho até casa, que fiz a pé para poder repetir dentro da minha cabeça cada minuto contigo, sem interferências. Lembro-me da temperatura amena. Lembro-me de caminhar de cabeça caída para trás. Lembro-me de ter desejado que o teu corpo se tivesse colado ao meu, em algum momento antes da despedida. Lembro-me de não me apetecer estar com mais ninguém para além de ti e de desejar muito que aquele momento cristalizasse e se prolongasse pela noite dentro. Mas não podia ter sido assim.

Depois de nos despedirmos voltei a casa. Despi-me e tomei um banho de água quente. Voltei a vestir-me de outra pessoa que não era, para ir ao encontro de alguém com quem não queria estar. Caminhei uma vez mais a pé, para pensar e me castigar por ter tomado duas decisões erradas no mesmo dia. Caminhei, cheguei junto dessa pessoa sem sentir nada, jantámos, trocámos palavras sem calor (lembro-me de ele não parar de se auto-elogiar, de falar apenas de si, de quão excepcional era e de como o mundo girava à sua volta, sem nunca, sequer, perguntar se eu estava bem) e saímos do restaurante comigo em silêncio, eu com a cabeça em ti, e ele a matraquear-me conversas sem interesse.
Queria levar-me a casa, tentar o que não tentámos os dois, para se elogiar no fim.
Eu não quis. Tomei, finalmente, a única decisão acertada do dia.

Nesse dia, em que a tarde se pôs no Camões ao sabor de gelados de limão e caramelo, aprendi que temos apenas uma oportunidade para tomar ou desfazer uma decisão.
Desde esse dia lamento não te ter beijado.
Desde esse dia que aprendi que só tenho de estar com quem quero.


Tenho saudades tuas T.
Sei que estás bem.



1 comentário:

  1. Texto maravilhoso!
    (quando acabei de o ler, também senti as tuas saudades)

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