quinta-feira, 28 de junho de 2012

Sobre a felicidade e os novelos



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Uma vez na praia ouvi uma mãe, desesperada por adormecer o seu pequeno filho, dizer-lhe: "Oh filho, mas porque é que não dormes? Para dormir basta fechar os olhos". 
E aquilo foi um momento revelador. Estranhamente revelador e lúcido. 
Naquele instante, aquela lógica, pareceu-me ter encaixe em muitas outras coisas. Era tão simples aquela ideia, mas tão simples, que me questionei porque não funciona assim em tudo na vida?
Tens fome? Então porque não comes?
Tens frio? Porque não te vestes?
Tens medo? Então porque não enfrentas?
Estás cansado? Porque não te sentas?
Nisto, enquanto tentava perceber porque é que aquela criancinha não conseguir dormir apesar do bom conselho da mãe, procurava na minha cabeça respostas também para outras coisas tão importantes da vida, mas que não conseguimos resolver por vias tão pragmáticas. E cheguei a uma conclusão. A criança não precisava apenas de fechar os olhos para dormir: ela tinha de querer dormir. Ela tinha de permitir-se fechar os olhos. Tinhas de ter essa vontade. Dependia apenas do “seu querer”. Naquele momento as felicidades, da mãe e do filho, dependiam apenas de “um querer”, e quem devia ter esse querer, naquele momento, não quis. E, assim, a outra felicidade ficou comprometida por isso.

Conheço muita gente que lamenta não ser feliz, mas na verdade nunca o quis ser. Nunca se permitiu ser. São pessoas que deixaram os factores externos terem mais poder de intervenção, que a sua própria vontade. São pessoas que fecham os olhos mas nunca se deixam dormir. São pessoas que não querem dormir com medo que os outros as acordem. Têm medo de ser acordados e gostar. Parece que têm medo de ser felizes.
Também há os que não são felizes porque penduram essa felicidade numa decisão dos outros. Porque não sabem caminhar sozinhos e dependem do bocadinho de felicidade que os outros lhes queiram proporcionar.


*

Há muitos anos, discutia com um namorado um assunto tão importante para ele, que eu já nem me lembro qual era. Mas era muito importante, com certeza, porque para mim só vale a pena discutir (brigando) quando o assunto é sério. Mas, honestamente, acho que apenas estávamos a divergir porque a comunicação estava a acontecer em frequências diferentes e, já se sabe, grande parte dos problemas entre as pessoas têm origem nas falhas de comunicação. Ainda assim eu quis dar uma oportunidade àquela conversa, mas eliminado a discussão, e por isso tentava explicar-lhe a sua inutilidade. Expliquei que devíamos optar por simplificar os raciocínios mas investir esforços em verbalizá-los na perfeição e que, quanto mais simples fosse a sua entrega à comunicação, menos desentendimentos existiriam, porque a probabilidade de o receptor perceber mal a mensagem, seria muito menor.
Ficou irado. Queria discutir e eu não estava a alinhar.
É que para mim, dentro do bolo da felicidade, as discussões inglórias não têm lugar. São uma espécie de tripas de peixe em cima de uma tarte de amêndoas: simplesmente, não bate certo. Ser feliz num território de conflito é, para mim, entrar em zona non aedificandi. Por isso procuro primeiro o caminho simples para as coisas: conversar. Conversar apenas. Ser simples. Comunicar de modo simples. Mas comunicar muito.
Lá continuei a minha senda de apaziguamento e tentei explicar-lhe que não pensávamos da mesma maneira porque ele tinha um raciocínio complexo, enquanto o meu era linear e que as atitudes pragmáticas são quase sempre as melhores. Mas não estava a ter sucesso.
E eis que se deu um episódio que viria a ficar para as histórias das nossas vidas (que, entretanto, cada um seguiu com a sua).
Com as palavras já  esgotadas e a perderem o sentido, transmiti-lhe num gesto o que estava a pensar daquilo tudo, dizendo-lhe com as mãos:  "É que tu pensas “assim”, enquanto eu penso “assim”".
Enquanto no primeiro "assim" simulava o gesto de enrolar um novelo de lã emaranhado e, no segundo "assim", parecia desenrolar desse novelo um fio simples e direito.
Ele quedou-se. Percebeu que dentro dele o novelo tinha a mesma extensão de fios que eu tinha dentro de mim, mas os fios deles estavam todos enrolados, e os meus não.


Nos momentos em que a felicidade não nos atinge porque temos problemas em comunicar, devíamos lembrar-nos deste novelo. Pensarmos que está nas nossas cabeças viver apenas com um fio de lã em vez passarmos a vida a embrulhar um novelo. Porque é fácil emaranhar um fio até dele fazer um novelo, mas é muito mais difícil desembaraçar um novelo até obtermos apenas um fio.






16 comentários:

  1. Parece simples.....e tão fácil...mas não é ...ou é???

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  2. Muitas vezes o que parece simples é mais do que complicado... é um novelo mal enrolado, um verdadeiro "nó górdio" que se resolve, apenas, com um golpe de espada, definitivo e eficaz!
    É a única solução, muitas vezes...
    Bj
    Raul

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  3. Ainda te vou ver no parlamento e quem sabe em "1 Dama" desculpa primeiro ministro....que é para ver como desembaraças o novelo que é Portugal......mas reconheço uma certa aptidão pratica nas mulheres a trabalharem com novelos, de várias cores e ao mesmo tempo...em especial o novelo que se chama a Vida.
    Coitado do rapaz desta tragedia textil... tinha nas mãos o novelo certo mas na hora errada e acabou tal capuchinho vermelho por ficar todo emaranhado.

    La Vie en Rose

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  4. E assim, entre novelos e novelas, a vida vai passando...))

    Um beijo, Noites Caninas...))

    PS- Muito bom, como sempre...))

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  5. Uma vez mais.... BRILHANTE...

    http://confissoesdarosana.blogspot.com

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  6. Inês,
    Acredites ou não, por vezes é este meu pragmatismo que, ao invés de simplificar, me trama tudo...

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  7. já te tinha dito que viria aqui dar te a minha singela opinião. quando leio os teus textos, fico a pensar no que dizes e preciso sempre de amadurecer os pensamentos. (seria mais fácil, se viesse daí um belo texto erótico ;) divertia-me a amadurecer os pensamentos!)
    ao contrario de ti, minha cara, eu complico tudo, sou pragmática em quase tudo, menos nos sentimentos, nas relações.
    vejo a felicidade não como um novelo ou um fio condutor constante, mas sim como frasco de vidro que se vai enchendo de pequenos momentos felizes. e, para mim, a felicidade nas relações depende muito dos outros, sim. afinal é a sua interacção para comigo, que me vai fazer pouco, muito ou nada feliz. eu sei... sou uma desgraça! :)

    quanto à escrita, uso as palavras do Salvador, "Muito bom, como sempre... ))"

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  8. Obrigada a todos pelos comentários.
    Obrigada por não se importarem de perder tempo a ler-me, a penar no assunto e a partilharem as vossas ideias.
    Beijos e abraços.

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  9. Olá,Inês! Estava a pensar neste tema quando vim ao teu blog.E me perguntava por quê raios tendo a complicar as coisas mais simples?
    Acho que entendi, com a leitura, que necessito aprender a "desembaraçar" o novelo.Um fio é tão mais fácil de se carregar!Belo texto, belíssimo! bjs

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  10. Essa discussão tem dado e sempre (acho) dará muito pano para mangas. Não a questão de querermos a mesma coisa e não nos "encontrarmos" (vi o comentário no Bom Sacana), não a falta de comunicação ou falta de esforço mutúo para caminhar lado a lado numa relação. Falo sim da felicidade, mais concretamente o "não querer" ser feliz.
    Pergunto-me isso - e levo na cabeça por tal - há bastante tempo, o que é isso de não querer? Sim, porque as coisas não são simples ao ponto de dizeres que sim e já está. E se não souberes como? Se não souberes que passos dar ou para onde os dares...?

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    1. Tantas perguntas e eu sem respostas para qualquer uma delas.
      Sim, é "O" eterno assunto. Sim, podíamos estar aqui o resto da vida a discutir este assunto e tentar arranjar todas as respostas.
      Mas agora pergunto eu: não é por procurarmos todas as respostas que nos continuamos a pôr à prova?
      Na verdade, eu acho que o ser humano gosta de sofrer e então se for por amor... adoramos sofrer por amor.
      É a melhor dor que há.

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  11. Pois, parece que ainda não é desta que se faz luz :)

    Ah, por amor, então... Que dizer? Nem sei por onde começar, apenas posso acrescentar o "estupidamente" por amor. Se a minha alma falasse...

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    1. Pois, não vai ser. Ainda vamos andar às escuras muito tempo :)
      Se me leres para trás perceberás que a evolução na descoberta de respostas tem sido escassa :)))) E olha que deixo que a minha alma fale... e sabe tão bem. Liberta.
      Atiro muito para o ar mas acerto pouco. Mas pode ser que um dia acerte.

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  12. Descobri-te hoje. Ainda estou a ler :)
    (Se bem que respostas só nós as podemos dar, já aprendi isso)

    Mas olha que acertaste em algo com o teu comentário no blog do Garcia. É algo que parece custar a perceber e mais ainda a admitir por ambas as partes. Mas deve ser mais giro assim, andarmos (quase) todos às turras e à deriva...

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    1. Entretanto, eu também te ando a ler e a ver.
      Ganhas já 10 pontos só por gostares de Seinfeld.
      Ganhas outro par de pontos por gostares de filmes que gosto...

      Entretanto vou ver o resto :)
      Até já.

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    2. Pedia-te que não me lesses (se soubesse de antemão que o ias fazer) mas parece que tal já não é possivel. Porque há pouco tempo estive a rever-me/ler-me e sinceramente não percebo como fui capaz de escrever tais coisas.

      Já quanto a mim, com 2 meses de leitura e já me assaltam umas quantas questões. A seu tempo.

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