quarta-feira, 30 de maio de 2012

Carta aos filhos que nunca tive




“Meus queridos e muito-amados rapazes,

Não se iludam. Nunca planeei ter-vos. Nunca pensei em ter uma família convencional. Em ter um namoro longo, daqueles que perdem o sentido com o tempo. Em casar vestida de branco numa igreja cheia de falácias. Em ter-vos um ano ou dois depois de casar e ter cada um de vós com bonitos e regulares intervalos de dois ou três anos. Nunca me imaginei a perder noites de sono para vos amamentar ou, apenas, para vos contemplar a respiração. Nunca concebi deixar de gozar as manhãs de Domingo na cama com o vosso pai, perdidos em namoricos sem horários. As jantaradas com os amigos nunca me pareceram esgotáveis. A liberdade das férias e de viagens sem filhos nunca me pareceram em risco. Não achava engraçada a ideia de dividir um ordenado por outras vidas. Nunca sonhei quão bonito seria ver-vos crescer sob as minhas orientações e princípios e a tornarem-se em pessoas dignas. Nunca, sequer, tive a ambição de ouvir alguém chamar-me “mãe”.
Mas tinha outros planos para vocês, meus rapazes. Queria ter-vos para viver a experiência da maternidade, tal e qual pretendi viver outras grandes emoções na vida. Não era apenas pela maternidade propriamente dita mas porque não queria passar por esta vida sem saber o que é ser mãe. Não queria passar por aqui sem saber o que é conceber vida dentro de um útero. Sem conhecer a sensação de vos ter cá dentro, na relação mais intima e profunda que alguma vez existirá. Aquilo que nenhum homem, e nenhum de vocês, poderá saber o que é. Não queria viver sem sentir as dores de um parto. Sem conhecer a dor de vos ver sofrer e eu sofrer ainda mais por isso. Por não querer viver sem conhecer os ciúmes das namoradas dos meus filhos. Sem vos ralhar por começarem a fumar. Sem me entristecer por se esquecerem do meu dia de anos. Nem sem saber que o cordão umbilical se corta muitas vezes durante a vida e não apenas quando nascem. Quis sofrer esse corte também na vossa primeira queda de bicicleta, no primeiro dia que foram para a escola, na primeira vez que saíram de casa, ou quando me odiaram de todas as vezes que vos quis educar. Quis saber o que era viver com três corações fora do peito como uma fractura exposta ao mundo. Quis conhecer também as alegrias de um amor incondicional, e conhecer o prazer de vos erguer das quedas e dizer que no meu peito estarão sempre seguros. Quis saber como é chegar a casa e tê-la cheia. Quis conhecer, pelo menos uma vez na vida, o Natal com a alegria das crianças. Quis saber quão difícil é explicar a crianças que um adulto também chora porque tem medo. 

Quis saber o que era ter vontade de dar a minha vida por alguém.

Meus queridos filhos, apesar de querer viver a maior aventura da vida de uma mulher, nunca vos tive porque me faltou o amor de um pai que insistiu em não aparecer. Fui incompetente no esforço que apliquei para vos, efectivamente, ter... Bem sei. Perdoem-me não vos ter chegado a conceber, mas faltaram-me os incentivos. Não vos pari porque não acreditei o suficiente numa aventura a quatro, quando as minhas convicções sempre me disseram que o quinto é indispensável. 
Apenas vos garanto que fui uma boa mãe naquilo que pretendi. No que ambicionei fui a melhor! Não fui a mãe-amiga mas a mãe-educadora. Não fui a mãe-cúmplice mas a mãe-tolerante. Fui tudo aquilo que vocês me foram fazendo ser, conforme a história se ia escrevendo. 
Mas fui a melhor! Vos garanto!

Ao Gaspar, ao Gustavo e ao Baltasar."





sábado, 26 de maio de 2012

[Bem-devagar]




[Ler bem-devagar. Em tom lânguido. De voz descaída. De pensamento leve. De calor nos lábios. Lambendo cada letra. Degustando cada-uma-das-palavras. Sussurrando de olhos fechados cada um dos sentidos. Perder tempo lendo, até lhe encontrar significado. Ganhar ardor no peito. Implodir o desejo. Ler bem-devagar.]

As pontas dos dedos percorreram-lhe a pele. Devagarinho. Bem-devagar. Milímetro-a-milímetro. Como quem quer conhecer célula-a-célula. Cada sinal. Cada pequena ruga. Cada insípido vinco. Cada sobressalto no relevo. Cada acidente da sua natureza. Cada marca da sua existência. Queria conhecer-lhe a pele como quem estuda o mapa antes de uma viagem. Percorreu-lhe todo o corpo como quem anseia descobrir o mundo. E percorreu-o todo. Bem-devagar.

[Ler bem-devagar. Em tom lânguido. De voz descaída. De pensamento leve. De calor nos lábios. Lambendo cada letra. Degustando cada-uma-das-palavras. Sussurrando de olhos fechados cada um dos sentidos. Perder tempo lendo, até lhe encontrar significado. Ganhar ardor no peito. Implodir o desejo. Ler bem-devagar.]

Subiu, a ritmo lento, desde o umbigo profundo e arfante, até aos mais proeminentes sinais de desejo. Pele tensa de vontade. Suada de fulgor. Quente de interdito. Descobriu as mamas de um corpo arqueado. Descobriu-lhe as belíssimas mamas bem-devagar. Mirou-as de olhos semicerrados. Mediu-lhes o desejo.  Teve a certeza da vontade. Aproximou o nariz bem-devagar. Chupou-lhe os mamilos bem-devagar. Envolveu-lhes a língua bem-devagar. A dureza dos mamilos aconteceu bem-depressa. Não conseguiram lutar. Entregaram-se. Levantaram-se de rendição. A língua persistente continuou. Bem-devagar.

[Ler bem-devagar. Em tom lânguido. De voz descaída. De pensamento leve. De calor nos lábios. Lambendo cada letra. Degustando cada-uma-das-palavras. Sussurrando de olhos fechados cada um dos sentidos. Perder tempo lendo, até lhe encontrar significado. Ganhar ardor no peito. Implodir o desejo. Ler bem-devagar.]

Abusadora sobe morta, a língua sobre o esterno. Sobe perigosa e bem-devagar. No encontro com o pescoço hirto, invade com os lábios a pele tensa e suada do caminho até ali percorrido. Sugando cada beijo, puxa a pele, bem-devagar, como se de um beijo morrido se se tratasse. Chupa-lhe a pele, ainda bem-devagar. Beija-lhe as orelhas em leve toque não tão devagar. Sussurra-lhe o ímpeto em surdina, com o arfar a aumentar. Mostra-lhe o tesão em voz alta e corre por ela acima. Corre-lhe para os lábios e viola-lhe a língua. Brigam entre elas para que apenas uma delas possa ganhar. Morde-lhe os lábios. Aperta-lhe a pele. Crava-lhe as unhas. Sobe-lhe pelas pernas, mais e mais. Come-a com vontade. Come-a com pujança. Come-a com gritos. Come-a com gemidos. Vem-se a ferver. Já se foi o devagar.

Ela veio-se para ele e sorriu. Desarrepiou-se e se abriu... Tudo isto sempre, bem-devagar.






segunda-feira, 21 de maio de 2012

A menina do cabelo de azeviche




A menina de cabelo de azeviche chora todos os dias.
Chora por não ser feliz.
Chora por não saber o que quer dizer a palavra feliz.
Chora por querer ser feliz e não o conseguir ser.
Chora porque ninguém a faz feliz.


A menina do cabelo de azeviche e olhos de mel finge que é feliz todos os dias.
Finge que é feliz porque gostava de o ser.
Finge que é feliz por ser feliz ao fingir sê-lo.
Finge que é feliz para ninguém lhe perguntar porque não o é.
Finge que é feliz para que outras pessoas felizes gostem dela.


A menina do cabelo de azeviche, olhos de mel, e lábios de jaspe sorri todos os dias.
Sorri para não se notar que chora enquanto finge que é feliz.
Sorri para perceber o que faz uma pessoa feliz nunca chorar.
Sorri porque quer mesmo ser feliz em vez de fingir quando lhe perguntam porque não o é.
Sorri para que alguém tenha mais vontade de a fazer sorrir e assim nunca mais ter de fingir que é feliz, porque, finalmente, o é.





segunda-feira, 14 de maio de 2012

Bloggers e Stalkers


(Já sabem que quando começo a dividir as coisas em partes... é porque isto se vai alongar...
Quem não quiser ler tudo, tem o resumo no fim do texto.  Quem é amiga, quem é?)

Parte I
Os bloggers
Para quem não sabe, "blogger" é a designação usada para identificar uma pessoa que tem um blog. Um blogger é, não raras vezes, uma daquelas pessoas muito comuns e que tem uma vida muito normal, tão normal que cumpre com o pagamento dos impostos e atura jantares de Natal em família, como qualquer outra pessoa muito normal. São pessoas que também têm mau hálito quando acordam, que dão uns traques quando não está ninguém por perto e, de vez em quando, até atiram um papel de pastilha elástica para o chão, olhando primeiro para os lados, só para sentirem que não são tão civilizados como toda a gente anda a fingir que é.
Um blogger é uma pessoa cheia de coisinhas podres e más e de coisinhas boas e comuns... como todas as pessoas muito normais, creio. Porque ser blogger não define ninguém. Ser blogger não adjectiva coisa nenhuma. Ser blogger é o quê? Ah, pois! Ser blogger não é nada.
E quem é que pode ser blogger? Todos. Toda a gente pode ser blogger. Qualquer um mesmo. Não precisam ser bonitos, nem bem sucedidos, de retórica irrepreensível, ou de look impecável. Ser socialmente integrado, ter formação académica superior, ou ser de famílias bem estruturadas. Não tem de ser rico, nem bem intencionado, nem ser a pessoa mais inteligente e/ou esperta do mundo.
Blogger pode ser qualquer um, porque para ser blogger basta estar vivo e ser-se uma pessoa.

Parte II
Os stalkers
Para quem não sabe, "stalker" é a designação usada para identificar uma pessoa que persegue outra. Eu chamar-lhe-ia outra coisa - e não me estou a referir à palavra simpática "doente" porque eu respeito quem é doente - como por exemplo, maluco, tarado, psicopata...
E pronto... Não sei se me apetece falar mais sobre estas pessoas.

Parte III
A relação entre bloggers e stalkers
Não posso falar pelos outros por isso falo apenas por mim. A minha relação com os leitores do blog é saudável. Escrevem na caixa de comentários, enviam-me mails, de vez em quando até me enviam presentes, e com alguns até converso por chat. Noutro nível, até sou "amiga" de alguns na minha página pessoal do Facebook e, sorte das sortes, por vezes sinto-me confiante para conhecer algumas dessas pessoas. Tudo dentro de um clima de normalidade e de como é suposto as pessoas muito normais conhecerem-se. Nunca tive muito a mania do anonimato. Sou uma pessoa tão acessível como qualquer outra. Não preciso é de me expor. Não preciso porque isso não trás nenhuma vantagem a mim ou ao blog, nem a vocês, leitores. Eu sou uma coisa, o blog é outra. Mas percebia quem tentava a todo o custo "esconder-se"... agora começo a perceber.
A curiosidade sobre a pessoa que escreve deste lado é, acreditem, a mesma que tenho sobre todos os outros que me lêem desse lado. Questiono-me muitas vezes como serão todos vocês. Tal como questiono como serão outros bloggers que leio regularmente. Faz parte do mistério, da imaginação e de tentar deslindar o desconhecido. Até aqui tudo normal. Tudo muito normal. Faz parte e quem não gosta de se ver nestas situações é preferível não ter blog ou ter um com acesso restrito.
Eu exponho-me na medida daquilo que quero expor. Não exponho aquilo que a imaginação das outras pessoas quer que seja a verdade. Se um dia falo de morte não quer dizer que tenha matado. Se um dia falo de amor não quer dizer que me tenha apaixonado. A literalidade, no meu caso, não tem enquadramento no que escrevo. 
Nunca comecei a escrever a pensar que isto (o blog) iria a algum lado ou que alguém o iria ler, mas na realidade, vai-se a ver, e até na Russia tenho leitores (aproveitava para pedir que se acusassem porque morro de curiosidade por saber quem me lê a partir daí... são o quarto país que mais lê o "Dias Cães"... prometo que não sou nenhuma stalker... é só curiosidade).
Continuando... Gosto de ter um blog e que interajam através dele. Gosto mesmo. Gosto que gostem de mim e de me ler. Gostei de conhecer pessoas através do blog. Gostei de conhecer outros bloggers por termos interesses em comum. Mas o que gosto mesmo, mesmo e o que me move a continuar aqui é a escrita. O resto é abstracto. Por mais que pense em quem me lê, sei que é tudo muito abstracto. Não há rostos, nem nomes, nem profissões. Era suposto eu representar o mesmo. Uma figura abstracta que escreve. Só não gosto... que me levem tanto a sério. A sério... tenho muito pouco de sério. Tá-se?

Parte IV
A relação entre stalkers e bloggers
Eu não desconhecia o risco e já me tinham alertado para ele, sobretudo desde que os textos ditos "eróticos" começaram. Eu, ingénua, achei que todos sabíamos destrinçar a realidade da ficção e que todos iriam perceber que são histórias. Mas infelizmente não percebemos todos o mesmo...
Isto não é novidade nenhuma. O desconhecido atrai mais a nossa atenção do que aquilo que está escancarado, mas não percebo quem perde tempo e forças a querer empurrar uma porta que nunca se há-de abrir. A arrombar. A invadir um território que não lhe pertence.
O problema nunca hão-de ser as pessoas que todos os dias vêm dizer um "olá" ao blog e à caixa de comentários. Nem os que mandam presentes. Muito menos aqueles que convidam para beber um chá e falar de livros. O problema está naqueles que não se conhecem os movimentos. Aqueles que não comentam, nem querem ler os textos divertidos ou sobre o significado das coisas. O problema está em quem delira com a pessoa que escreve deste lado e se começa a distanciar do blog e a aproximar da personagem. Está nas pessoas que, entretanto, pensam que me conhecem, inventam intimidades e chegam a dizer eu sou a mulher com que sempre sonharam. O problema está quando o seu discurso começa a dizer "nós" em vez de "eu" porque crêem que ambos desejamos o mesmo. O problema está quando nos começam a moldar a imagem à semelhança dos seus desejos e, entretanto passamos de "Odetes Santos" a "Salmas Hayek". Quando nos dão atributos que não temos e não têm qualquer encaixe ou sentido nuns simples textos largados num blog.
Começa o romance nas suas mentes, de que se apaixonaram pela pessoa pelo que ela é e não pela imagem que tem. Acham isso fabuloso e, por tão bela sensibilidade, acreditam que encontraram o verdadeiro amor... mesmo sem nunca lhe terem visto o rosto, ou ouvido a voz...
Isto não me é exclusivo. Outros bloggers há que se queixam do mesmo. Sobretudo os homens. Parece que as mulheres têm queda especial para perseguir os homens que admiram, apenas pelo que escrevem. Eu até as percebo porque às vezes também me apetecia fazer uma espera a uns quantos e atacá-los no meio da rua (estou a brincar, não se apoquentem, estava apenas a tentar desbloquear o tom sério). 

Parte V
O início
Já fui vítima de perseguição por alguém que me conhecia fisicamente mas que eu nunca cheguei a saber quem era. Ele sabia por onde eu andava e a que horas. Como me vestia, movia, respirava. Se nesse dia estava bem-disposta ou com vontade de morrer. Arranjou o meu número de telemóvel e ligava às horas que entendia. No início achei que era brincadeira de algum amigo, depois percebi que era a sério e altamente paranóico. Começou a ligar a outras pessoas que eu conhecia e dizia que éramos namorados. Deixei de sair de casa sozinha e tinha medo das pessoas. Podia ser qualquer uma. Deixei de atender telefonemas de números anónimos ou desconhecidos. Passaram oito anos e ainda hoje mantenho essa regra. Ainda reside a sensação de que essa pessoa (ou até outra qualquer) me espreita e mantém uma obsessão por mim. Honestamente foi das piores sensações que experienciei. Aquela pessoa, de repente, parecia partilhar a minha vida sem que eu a quisesse nela. Se gostasse assim tanto de mim, não me teria feito passar por uma situação tão insuportável. Quem gosta dá espaço. Contempla de longe mas não se impõem.

RESUMO EUROPA-AMÉRICA (caso existisse para esta história toda...)
Parte I - Um blogger é uma pessoa comum. Um blog não atribui características à pessoa que o escreve. Em princípio, por ser uma pessoa muito normal, tem uma vida além do blog, logo, não passa a via agarrado a ele.
Parte II - Um Stalker é uma pessoa que persegue outra pessoa. Pensa que a conhece e que partilham intimidade. Não é o leitor comum, é um indivíduo com paranóia (e com falta de coisas melhores para fazer).
Parte III - Os bloggers também têm curiosidade sobre quem lê as suas coisas. também imaginamos quem está desse lado. Mas lamento, não nos apaixonamos pelo desconhecido, pelo abstracto. Pelo menos, eu não!
Parte IV - Os stalkers acreditam que estão apaixonados pelos bloggers e que são correspondidos. Deixam de se interessar pelo blog e tornam objecto de obsessão a pessoa por trás dele, mesmo sem nunca lhe conhecerem a figura. Não me importava que pensassem que sou a Salma Hayek mas estou mais perto da Odete Santos. Mais uma vez, lamento desiludir-vos.
Parte V - Já fui a vítima. Não quero voltar a ser. Pensem quão horrível seria a Odete Santos ser perseguida pelo Zézé Camarinha. Pois é... ninguém merece.



sexta-feira, 11 de maio de 2012

Quando os dedos tocaram o céu



Tempestivos dias houve em que a Terra parecia enfurecer-se com o Homem. Dias houve em que o Homem se sentiu fustigado às mãos da natureza e, impotente, baixou os braços pesados sobre o chão.
Os Homens morriam quando a Terra lhes tocava porque eles ainda não mandavam nela. Rendiam-se às suas vontades e caminhavam com medo de ser colhidos. Ceifados aos seus lugares, às suas famílias, aos seus objectos. Morreram muitos. Quase morriam todos.
Mas Homens houve que se fartaram dos caprichos dessa natureza e, um dia, batalharam contra a Terra. Ergueram as armas, caminharam firmes e venceram pequenas lutas. Pouco a pouco lá conquistaram a Terra. Conquistaram-se como Homens. Não perderem os seus lugares, nem as suas famílias, nem os seus objectos. Julgaram-se vencedores! Pensaram-se donos das vontades da natureza. E ainda assim reinaram durante algum tempo.

Mas num dia, igual a todos os outros, em que os Homens palmilhavam a Terra com pose de senhores, o mundo tremeu. Abalou-se o solo. Moveu-se o céu. Abriu-se o mar. Perderam-se Homens. Voltaram a morrer Homens. Não perceberam que, afinal, o segredo não estava apenas em conquistar a Terra. A chave estava também em não chegar ao céu. Mas nunca o compreendemos e não sabemos como o fazer. Iremos continuar a quedar-nos sem vontade. A partirmos sem nos despedirmos, dos lugares, das famílias e dos objectos. A partir em direcção ao céu por vontade da Terra. Sem vontade de mais nenhum de nós.

Afinal os Homens não ganharam nada. Não venceram batalha nenhuma. Nunca mandaram na Terra nem na vontade do mundo. Afinal os Homens nunca venceram a morte. Afinal os Homens continuam a lutar contra o céu.

Tempestivos dias há, em que o Homem se enfurece com a Terra. 
Hoje, enfurecemo-nos ainda mais.


... ao Bernardo Sassetti.


quinta-feira, 10 de maio de 2012

A trança de um homem



"O cabelo (do latim capĭllus) é cada um dos pelos que crescem no couro cabeludo (parte superior da cabeça do corpo humano). Há em média 3 milhões e meio de fios capilares em uma pessoa adulta e crescem em média 1 cm por mês. Diferenciam-se dos pelos comuns pela sua elevadíssima concentração por área de pele e pelo desenvolvimento em comprimento. Podem ser lisos, crespos, ondulados e de muitas cores. Os cabelos não servem só como um aliado estético (dando forma e valorizando o rosto) mas também funcionam como um isolante térmico, protegendo a cabeça das radiações solares e da abrasão mecânica. Também podem ser um indicativo de diversas doenças que se manifestam alterando sua estrutura."

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n Wipikédia



Cada laçada da sua trança, conta a história de cada um dos muitos países que palmilhou. Cada cabelo que lhe brota do escalpe, lembra-lhe cada uma das pessoas que conheceu. Cada fio solto, relembra-lhe as desventuras que deixou por resolver. Relembra-lhe o rosto de cada uma das pessoas com quem não concluiu um ciclo. De cada vida que divergiu da sua. Dos percursos que se cruzaram fugazmente e se afastaram ao mesmo ritmo. Das presenças que se tornaram em solidão. Das alegrias que se perderam na irrealidade das memórias. Soltaram-se muitos cabelos da sua trança com o passar dos anos, alguns puxados pelas suas próprias mãos. Queria sentir que a sua trança tinha história: a sua. 
Como as rugas num rosto, que mapeam os socalcos da vida, e denunciam o percurso de cada um, os seus cabelos lisos mas fortes como arames indicavam a forma como tinha vivido. Lembravam-lhe que tinha, absolutamente, vivido. Vivido de modo vivo. Vivido a vida vivendo-a. Vivido sem medo de viver. 
Por isso a sua trança começa robusta na nuca e estreita-se no seu desfecho. Começa agarrada e segura e vai crescendo solta, de ponta caída e entregue ao destino. Como a vida de um ser humano. Ele sabe que o fim da sua trança espelha o fim da sua odisseia pessoal mas orgulha-se mais do seu começo auspicioso. O fim será apenas a consequência inevitável de um percurso épico. 

Que parte de nós escancara a nossa vida? Que parte de nós reservamos para escrever a nossa história? Que parte da nossa vida mereceu ser escrita e ficar gravada, para sempre, na memória dos outros?

Qual de nós consegue ter uma trança de que se orgulha?





domingo, 6 de maio de 2012

A minha mãe



A minha mãe hoje vem visitar-me! Está quase a chegar e ainda não consegui escrever nada sobre ela.
Queria fazê-lo antes que se assomasse aqui à porta mas a urgência em fazê-lo parece deixar-me ainda mais atrapalhada. No fundo, não sei sobre que falar. Queria enaltecer-lhe o feito de ter criado dois filhos num tempo em que se ambicionava pouco para o seu futuro; de ter sido mãe enquanto se desdobrava nos papeis de mulher; dona de casa e fiel funcionária de um patrão tirano e de, ainda assim, nunca se ter esquecido dela própria e de ter lutado pelas suas ambições. É uma mulher do caraças, não há dúvida.
Mas neste momento o choque de gerações que vivemos não permite, ao meu insuflado e jovem ego, tecer-lhe elogios que não venham do fundo do esófago. Muito menos que venham da ponta de língua. Por isso não sei o que escrever. Mas pensando bem há que reconhecer: fez um excelente trabalho comigo e com o meu irmão. Foi e é a mãe que dera a muitos ter.
E isto não tem nada a ver com deixar subentendido "ai que somos os dois seres tão superiores". Não é nada disso. Mas no meio da balbúrdia toda lá estruturou duas pessoas bem resolvidas com elas próprias e com os outros. Educados e com valores morais bem assentes. Respeitadores e ao mesmo tempo tolerantes.
A menos que o meu irmão ande a fazer coisas que eu desconheça, eu acho que ele é mesmo o gajo mais porreiro deste mundo. E isso deveu-se, entre milhares de outras coisas, também à educação que a nossa mãe nos deu.
O meu registo é outro. Não sou a palhaça da aldeia mas também tenho os meus bons momentos. Não sou, ao contrário do meu irmão, aquele pessoa que quando vai à terrinha gosta de cumprimentar toda a gente e dar beijos, mas sou fiel e devota às minhas amizades. Já não me identifico com os costumes e modos das minhas gentes mas sou a primeira a falar das minhas origens. Mais uma vez, creio que a educação que me foi transmitida assim me moldou. Sou do mundo mas sei onde comecei a levantar asas.

Quando vasculho memórias de episódios que me marcaram com a minha mãe, não tenho dificuldade nenhuma em lembrar-me de uma dúzia deles. Foi sempre grande companheira e educadora. Nunca a melhor amiga, que há que saber distinguir os papeis. Ela assim o ensinou.
Mas recordo-me, particularmente, destes pequenos momentos em que, claramente, a minha mãe me passou conhecimentos e ensinamentos que trago até hoje comigo e, com certeza, os levarei para o resto da vida:

1.
(5 anos de idade, no caminho de casa para a creche)
-"Mãe, porque é que se diz "X coisas"? E porque é que existe o "há" com H e o "à" sem H? Mãe, porque é que dizes boa tarde a todas as pessoas que passam por nós? Mãe, quando não tens dinheiro porque é que não passas um cheque?...)
- "Filha, por favor, cala-te um bocadinho..." 
(Mas lá acabou por explicar tudo o que eu lhe perguntei).

2.
(algures na adolescência, enquanto falávamos sobre o futuro e a escolha da profissão)
- "Filha, lembra-te disto: nunca estejas dependente de um homem para comprar um par de meias".
(E cá estou eu, tarada por sapatos).

3.
(Já em idade adulta, enquanto falávamos sobre homens)
- "Uma coisa te digo: nunca penses que mudas um homem, porque nós também não mudamos. Além disso eles não enganam ninguém enquanto namoram connosco: são exactamente aquilo que vão ser dali por trinta anos, nós é que não queremos ver. Nunca me venhas dizer que foi uma desilusão e que não o conhecias: é para isso que o namoro serve. Para as pessoas se conhecerem".
(Palavras para quê? Ainda estou solteira. Obrigadinha por me abrires - demasiado - os olhos)


Um beijo a todas as mães!



sábado, 5 de maio de 2012

Finalmente... um e-mail



Nunca tive e-mail para o blog. Nunca julguei necessário e até agradecia que ninguém se lembrasse de me dizer o que fosse. Imaginava que isto era uma coisa só minha e por isso ninguém estava interessado em ler-me, quanto mais escrever-me. Mas as coisas mudaram e, desde há uns meses, têm-me chegado vários pedidos - ocultos em comentários que pedem para eu não publicar - para fornecer um e-mail através do qual me possam contactar.

E cá está ele: 

diascaes@gmail.com


Sintam-se à vontade para me escrever e até já!

DC



quinta-feira, 3 de maio de 2012

O carniceiro de Banguecoque



*
Saía todas as noites, sob as luzes imensas de Banguecoque, sabendo-se escondido pela multidão frenética. Era invisível, como todos os rostos com quem se cruzava. Sentia-se confiante a cada passo acelerado que dava de mãos nos bolsos, numa passada larga e curvada sobre a própria coluna, no belo fato que o divinizava.
A rotina estava instalada. Conhecia as ruas que lhe interessavam. As caves e fossos que escondem autênticas cidades subterrâneas. As condutas que foram sendo ocupadas com habitações miseráveis e lamacentas. E conhecia também a superfície dos luxos e da opulência. Conhecia as duas faces, mas apenas uma lhe interessava.
Quando saía para matar, e para dar vida à sua paixão inflamada, calcorreava a zona nobre da cidade. Movimentava-se bem nela. Conhecia as mulheres mais bonitas, mais ricas e com origem nas famílias mais influentes. Bem-falante e de pose aristocrática, captava-lhes a atenção de imediato.
Caídas na sua rede, golpeava-lhes a garganta sem esforço.
Sem lamentações ou hesitação. Sem amor nem paixão. Sem corpos impregnados de desejo ou imundos por conspurcações viscosas. Queria os melhores corpos. Limpos. Perfeitos. Sem cortes ou marcas. Cicatrizes ou tatuagens. Escolhia as suas vítimas a dedo. Era rigoroso, porque o era em tudo na sua vida. Nas suas paixões não poderia ser diferente. E por isso, apenas as mais belas e tenras mulheres da alta sociedade, tinham o prazer de findar-se às suas mãos. Pelo menos, ele assim o pensava.

*
Todos os dias pela manhã abandonava o exclusivo condomínio onde vivia. Não concebia partilhar-se com ninguém e não suportava a ideia de o seu luxuoso apartamento ser respirado por quem fosse. Gostava da vida garbosa que levava no silêncio das suas paredes de vidro, sozinho, controlando totalmente todas as partículas da sua atmosfera. Altivo e de porte hirto e elegante, acabava a viver os prazeres da vida apenas quando se vergava à realidade lá fora. A sua vida apenas acontecia lá fora. As suas paixões também. Entregava-se a elas todos os dias. Todas as noites.
De manhã, quando saía cedo de casa, devotava-se a uma das suas razões para respirar.
Ser chef no mais luxuoso hotel de Banguecoque atribuíra-lhe estatuto e luxuria mas devolvera-lhe, sobretudo, a vontade de viver apaixonado. A sua cozinha era a sua vida.
Por não conceber que alguém interferisse nela, controlava o processo do início ao fim. Elaborava a ementa, selecionava os vinhos, tratava da decoração das mesas, fazia as compras dos alimentos e escolhia as carnes.

*
Todos os dias, e todas as noites entregava-se às suas paixões. As noites completavam os dias, e para que esses dias fossem perfeitos, tinha de caçar todas as noites.
Seleccionava criteriosamente a carne que queria servir no restaurante do hotel no dia seguinte. Matava apenas os corpos que sabia terem a melhor carne. Provava-lhes o sabor. Degustava-as. Analisava a sua excelência. Era sabido que apenas as melhores teriam o privilégio de seguir até os pratos dos clientes mais exigentes e inacessíveis do planeta.
A carne que todos os dias fazia questão de selecionar com as suas próprias mãos para confeccionar magicamente, era, reconhecidamente, a melhor de toda a Banguecoque.
Houve pais que, sem saberem, comeram as suas filhas. Houve mães que sem suspeitar cuspiram-nas no prato.





terça-feira, 1 de maio de 2012

O público votou



O mês de Maio começa... com o fim.
Chegou ao fim a sondagem para saber quem é o público do "Dias Cães".
Aqui ficam os resultados:


Sexo
feminino 37 58%
masculino 26 42%

Idade
<17 2 2%
18<25 20 28%
26<35 31 44%
36<45 10 14%
46<60 5 17%
>61 2 2%

Escolaridade
básico 2 2%
secundário 16 23%
licenciatura 23 38%
pósgraduação 7 10%
mestrado 12 17%
doutoramento 4 5%
outro 0 0%

Área Profisisonal
saúde 812%
artes 10 15%
letras 5 7%
ciências 6 9%
economia 4 6%
operário 3 4%
estudante 8 12%
outra 19 30%

Textos Preferidos
bio 12 26%
erótico 22 48%
cartas 1737%
morte 11 24%
ficção 17 37%
teorias 15 33%
dicionário 4 8%
profissões 511%


A todos os que votaram, obrigada!