quarta-feira, 30 de maio de 2012

Carta aos filhos que nunca tive




“Meus queridos e muito-amados rapazes,

Não se iludam. Nunca planeei ter-vos. Nunca pensei em ter uma família convencional. Em ter um namoro longo, daqueles que perdem o sentido com o tempo. Em casar vestida de branco numa igreja cheia de falácias. Em ter-vos um ano ou dois depois de casar e ter cada um de vós com bonitos e regulares intervalos de dois ou três anos. Nunca me imaginei a perder noites de sono para vos amamentar ou, apenas, para vos contemplar a respiração. Nunca concebi deixar de gozar as manhãs de Domingo na cama com o vosso pai, perdidos em namoricos sem horários. As jantaradas com os amigos nunca me pareceram esgotáveis. A liberdade das férias e de viagens sem filhos nunca me pareceram em risco. Não achava engraçada a ideia de dividir um ordenado por outras vidas. Nunca sonhei quão bonito seria ver-vos crescer sob as minhas orientações e princípios e a tornarem-se em pessoas dignas. Nunca, sequer, tive a ambição de ouvir alguém chamar-me “mãe”.
Mas tinha outros planos para vocês, meus rapazes. Queria ter-vos para viver a experiência da maternidade, tal e qual pretendi viver outras grandes emoções na vida. Não era apenas pela maternidade propriamente dita mas porque não queria passar por esta vida sem saber o que é ser mãe. Não queria passar por aqui sem saber o que é conceber vida dentro de um útero. Sem conhecer a sensação de vos ter cá dentro, na relação mais intima e profunda que alguma vez existirá. Aquilo que nenhum homem, e nenhum de vocês, poderá saber o que é. Não queria viver sem sentir as dores de um parto. Sem conhecer a dor de vos ver sofrer e eu sofrer ainda mais por isso. Por não querer viver sem conhecer os ciúmes das namoradas dos meus filhos. Sem vos ralhar por começarem a fumar. Sem me entristecer por se esquecerem do meu dia de anos. Nem sem saber que o cordão umbilical se corta muitas vezes durante a vida e não apenas quando nascem. Quis sofrer esse corte também na vossa primeira queda de bicicleta, no primeiro dia que foram para a escola, na primeira vez que saíram de casa, ou quando me odiaram de todas as vezes que vos quis educar. Quis saber o que era viver com três corações fora do peito como uma fractura exposta ao mundo. Quis conhecer também as alegrias de um amor incondicional, e conhecer o prazer de vos erguer das quedas e dizer que no meu peito estarão sempre seguros. Quis saber como é chegar a casa e tê-la cheia. Quis conhecer, pelo menos uma vez na vida, o Natal com a alegria das crianças. Quis saber quão difícil é explicar a crianças que um adulto também chora porque tem medo. 

Quis saber o que era ter vontade de dar a minha vida por alguém.

Meus queridos filhos, apesar de querer viver a maior aventura da vida de uma mulher, nunca vos tive porque me faltou o amor de um pai que insistiu em não aparecer. Fui incompetente no esforço que apliquei para vos, efectivamente, ter... Bem sei. Perdoem-me não vos ter chegado a conceber, mas faltaram-me os incentivos. Não vos pari porque não acreditei o suficiente numa aventura a quatro, quando as minhas convicções sempre me disseram que o quinto é indispensável. 
Apenas vos garanto que fui uma boa mãe naquilo que pretendi. No que ambicionei fui a melhor! Não fui a mãe-amiga mas a mãe-educadora. Não fui a mãe-cúmplice mas a mãe-tolerante. Fui tudo aquilo que vocês me foram fazendo ser, conforme a história se ia escrevendo. 
Mas fui a melhor! Vos garanto!

Ao Gaspar, ao Gustavo e ao Baltasar."





23 comentários:

  1. De certeza que foste a melhor das mães: a mais terna, a mais aconchegante, a mais querida, a mais forte, a mais solidária, a mais perto, a mais sofredora, a mais atenta, a mais amorosa, a mais tudo...

    Mesmo sem o seres, mesmo sem o saberes, tens sido a melhor mãe do mundo

    Beijos

    Raul

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  2. A Noites Caninas ainda é uma jovem e está muito a tempo da maternidade. Chegará o Pai, chegará a Hora...))
    Texto muito bem parido. Parabéns e Beijo.
    .

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    1. Salvador também era nome para alinhar num dos elementos da ninhada.
      Sabe bem como gosto do nome.
      Beijo ;)

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  3. "Quis saber o que era viver com três corações fora do peito como uma fractura exposta ao mundo."
    Está lindo, lindo, lindo. Basta uma frase para ganhares o texto todo.

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    1. Fizeste a observação que entretanto muita gente tem feito.
      E dizem sempre: "Concordo com o que um tal rapaz chamado Herético disse"... :)
      E eu também concordo.
      Bjs.

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  4. Há horas de sorte.....
    Gaspar, Gustavo e Baltazar saiu-vos o Euromilhões!!!!!!!

    La Vie en Rose

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    1. Serei eu quem o vai ganhar se me saírem os três rapazes... O que eu gostava de ser mãe de três rapazes...

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  5. Gostei muito... Obrigada!
    Partilhamos uma visão da maternidade em tudo semelhante. ;) Beijos

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    1. Beta... Beta, que eu estou a pensar? :)
      Gosto de te ver por aqui.
      E eu é que agradeço.
      Beijinhos.

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  6. Como já é habitual neste blogue, aqui está mais texto fantástico. Parabéns!

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  7. Como sempre, acho o texto fantástico.

    A riqueza do ser humano reside, também, na diferença, reconhecer e amar as diferenças, é preciso.

    Eu, desde cedo, soube que queria casar e queria ser mãe.

    E tive a felicidade de me cruzar com um pai que, apesar de diferente, queria o mesmo.

    Beijo sexy,
    Ana

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    1. É por causa de casos desses que eu sei que o meu dia também irá chegar... Como diziam ali em cima... Eu ainda sou tão jovem... :)
      Beijinhos Ana.

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  8. Gostei muito, ao ponto de pontuar o meu gosto o que não me é muito recorrente enquanto consumidor bloguista.
    Após leitura apenas me ocorreu a palavra saudade associada a palavras de Vinicius: Saudade de «poesia não vivida».
    :)

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  9. Não me lembraria de melhor, mas é isso mesmo.
    Deverei então dizer bem-vindo, ou já nos cruzámos por cá?
    Bjs

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    1. Uma vez que aqui poisei (qual «cegonho» parisience), fico grato pelas boas vindas, apenas lamentando não vir provido dos rebentos almejados!
      Como penitência,desejo-lhe, porém, três boas vindas! :D

      Retribuo os simpáticos beijos

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  10. Eu como homem também gostaria de ser pai. Vou tentar com tudo lá chegar, nem que o faça adoptando alguém. Assim que, vês, o facto de tu própria não teres o "pai" certo ao teu lado não é conclusivo. O mais importante é teres amor para dar e uma vida organizada. Beijo.

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    1. Olha que equação fácil de resolver: tu queres ser pai + eu quero ser mãe = ....
      Ahahahaha... estou a mangar, logicamente!
      Beijos ;)

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  11. E depois tudo adquire uma desconhecida, inquietante e entusiasmante dimensão.

    Beijo

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    1. Ainda não te tinha desejado felicidades mas assim ainda tem um sabor mais especial.
      Gosto da visita!
      É com toda a sinceridade que desejo as maiores felicidades e saúde para os três.
      Porque os três passam a ser apenas um, e ninguém pode falhar.
      Beijinhos <3

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  12. A sua escrita é notável, bem sei não serei original se lhe disser isso.

    (apenas substituiria um dos rapazes, talvez o Gaspar, por uma Rita, que lhe daria uma outra dimensão de maternidade - as meninas são tão diferentes dos meninos...)

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    1. Não me importava nada de juntar uma Rita ao naipe, mas tenho um feeling que um dia, a acontecer, só me vão sair rapazes na rifa.
      Obrigada pela visita!

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