quinta-feira, 7 de março de 2013

No dia em que eu morrer




No dia em que eu morrer nada mudará.
Nesse dia chorarão meia-dúzia de almas, por meia-dúzia de dias, e não mais.
Os dias irão continuar a nascer e a morrer, sempre com a promessa de que nascerão no dia seguinte.
Continuarão a existir chuvas e ventos e sol e neve, mediante o ponto do planeta em que se vive.
Não se extinguirão religiões apenas porque morri e não nascerão deuses apenas porque desisti.
No dia em que eu morrer os rituais serão os mesmos.
O corpo irá para a terra e não será feito em cinzas, porque na terra o apego é maior.
Porque ainda se crê que na terra permanece alguma coisa de nós.
Serão proferidas palavras de fé que ninguém entende mas se aceitam.
Alguém irá rezar por mim, mais nuns dia do que noutros.
Tempos depois alguém lamentará saber da notícia com atraso e lembrar-se-á desse lamento por um par de dias.
No dia em que eu morrer irão acontecer outras coisas muito mais memoráveis.
Morrerá uma figura mundial, cairão monumentos bombardeados, alguém lutará contra uma sentença de morte injusta, muitas vidas nascerão e darão início a um novo ciclo. Chorar-se-á mas de alegria.
Nada de importante se passará apenas porque a minha passagem se findou.
Não serão questionados os porquês da morte porque já todos sabemos que ela existe.
Não se culpará ninguém, para além de Deus, por eu ter morrido.
Naquele dia serei sempre a melhor, a mais perfeita e a que mais falta fará a todos.
Nesse dia serei a pessoa mais importante para alguém.
Finalmente, no dia em que eu morrer, e apesar do mundo não se indignar com tal acontecimento, eu serei, pela primeira vez, a pessoa para quem todos olharão numa sala.
Olharão, pela primeira vez, com apego e ternura, para o meu corpo estendido já sem qualquer emoção.
Um dia acontecerá o mesmo a todos mas naquele momento ninguém pensará nisso.
Viver-se-á apenas o instante daquela morte.
No dia em que eu morrer vou querer que me levem para a terra onde nasci.
E lá irei alimentar uma tília, que cresce há mais de um século, sobre todos os corpos que ali estão.
No dia em que eu morrer servirei de sombra e abrigo a alguém mesmo que já ninguém se lembre mim.




8 comentários:

  1. nisso és igual a todos os demais...

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  2. É o dia mais importante da nossa vida.
    Quando nasces, é anunciada a surpresa, a chegada de algo que ainda não se sabe o que é. Quando vais, é a celebração/pena daquilo que foste durante a tua vida, toda a gente te conhece e te quer de volta. São os nossos eternos 15 minutos de fama.

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    1. Nunca tinha pensado assim, mas tens razão.
      É a diferença entre abrires um livro para o começares a ler, e fechares o livro depois de o terminares.
      Passamos do entusiasmo ao lamento.
      É bonita essa ideia.

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  3. Nunca pensaste ao contrário? Que quando te fores, tudo o mais irá? Porque o que nos rodeia não é mais que fruto da nossa imaginação?

    R.

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    1. Posso debruçar-me sobre essa ideia, um dia.
      Parece-me louca mas, quem sabe, não encerra a verdade.

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