sábado, 9 de março de 2013

Pelas ruas de uma puta


*
Nos dias em que largava o escritório, vestia roupas modestas, e entrava no carro e percorria a cidade à procurava de quem precisasse de ajuda, perdia sempre algo de mim para dar aos outros.
Perdia tempo, perdia qualidade de vida, perdia horas de sono, perdia a fé nos homens e na sociedade. Acabei por perceber que o pouco que eu fazia pelos outros, não chegava para nada.
Era apenas mais alguém que comia num dia, mais dois ou três que, ocasionalmente, ganhavam o calor de uma manta, outros que viviam melhor com um cigarro e um par de palavras perdidas ou, até, a felicidade de uma garrafa de vinho dada a um bêbado, era tudo o que eu consegui trazer de felicidade a quem vagabundeava pela cidade.
Nunca tentei educar um bêbado a preferir alimentar-se com leite. Nunca tive a presunção de procurar abrigo para quem, por opção, vivia nos passeios das ruas.
Fui o maior dos idiotas quando tentei fazer de ti uma mulher digna quando nunca poderias passar da puta mais nojenta de toda a cidade.

*
Cheiravas mal, entre as pernas, quando te colhi na rua.
Tinhas um ar imundo e metias nojo só de olhar. Fedias por todos os poros e ninguém se atravessava no teu caminho com medo de ser contaminado. Pela imundice do corpo e da cabeça. Essa cabeça porca e miserável em que vivias.
Ninguém te olhava por seres desprezível e ordinária. E por teres aquele ar de puta que se entregou ao álcool e à droga e teve de acabar num qualquer chão de estação de comboios, a dormir, em cartões empapados e panos porcos, sob um piso espezinhado por todos os pés da cidade.
Dormias de pernas abertas sem decoros  nem pudores ou com receio de que todos te vissem as vergonhas que ali trazias. Tinhas perdido essa vergonha, a dignidade e o rosto bonito que te marcava, há mais tempo do que aquele que te lembravas.
Ainda não eras puta e já eras nojenta e nem te davas conta. E quando passaste de puta a vagabunda e ainda te vias apenas como puta. Naqueles dias, em que vivias na merda fétida, não tinhas consciência do quão fundo tinhas ido na condição humana.
Já não tinhas nome nem identidade, para as pessoas que por ti passavam. Para alguns, transformaste-te apenas numa memória, enquanto a puta nojenta. Outros lembravam-se de ti como a puta vagabunda.
Eras puta na mesma. Não interessava.


*
Beijava-te sempre com amor antes de sairmos de casa. A minha mão abraçava-te o pescoço com suavidade, dirigindo-te os lábios aos meus e beijando-te de olhos fechados, num toque leve.
Mas a beleza que acolhia o teu rosto e o teu corpo não encontrava paralelo no interior desse peito bafiento. Tinhas maus sentimentos, má educação e os maus modos, típicos de quem nasceu em barracas entre falhados e putedo. Cresceste igual. Não te exigiste ser melhor.
Quando te olhei a primeira vez, ignorando que o coração me atraiçoaria, não vi nada do meu mundo em ti. E não vi que ao meu mundo fizesse falta alguém como tu. Lamento hoje que a cabeça tivesse cedido à minha longa solidão e tivesse acreditado que, fazendo de ti uma mulher digna, poderias ser a minha exemplar mulher. Estava enganado. Enganado na dignidade que te poderia dar e enganado na exemplaridade de mulher que um dia poderias vir a ser.
No último dia que te beijei antes de sairmos de casa, deste razão ao que a vida tinha feito de ti. À justiça de teres uma vida de merda. Afinal, o lamento que sentia pela linda mulher que vivia porca, enrolada pelos passeios imundos, não tinha razão de ser. Mereceste sempre a vida que tiveste.
No último dia que te beijei, ao sairmos de casa para irmos ao encontro da festa surpresa que tinha preparado para te celebrar o aniversário, não levei pelo braço a mulher que eduquei. Levei pelo braço uma mulher linda que nunca deixou de ser puta.
Nessa noite, em que acreditava que te iria surpreender, acabaste tu por me surpreender a mim. Encontrei-te linda, deslumbrante, a ser consumida por um dos teus antigos clientes. Foste ao encontro da tua natureza.
Morri ali.
Morri por te perder. Morri por perder o meu amigo de uma vida. Morri de vergonha por não te ter tratado como a puta que eras. Morri por perceber que foste sempre puta aos olhos de todos e nunca a mulher digna que me diziam ver. Morri por perceber que afinal todos se riam de mim.
Nessa noite larguei-te na rua e devolvi-te à puta que sempre viveu dentro de ti.






2 comentários:

  1. belo, o teu texto.

    indigno seria ir contra a sua natureza.
    (o coração de manteiga está sempre sujeito a ser corno?)

    bj

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    1. Se calhar. É o que acredita nas pessoas. E depois se desilude.

      R.

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