quinta-feira, 18 de abril de 2013

Dar. Doar. Amar.







Durante toda a minha vida assisti a campanhas para salvar vidas.
Campanhas para encontrar pessoas desaparecidas, para resgatar prisioneiros, para dar alimentos, cobertores e roupa, campanhas para dar sangue, e campanhas para doar órgãos ou medula.
No fundo, todas são campanhas para salvar vidas, apesar de percebermos que umas salvarão de um modo mais imediato e literal e outras salvarão num sentido mais metafórico.
Nenhum de nós terá problemas em dar roupa que já não usa, em comprar um pacote de arroz para o Banco Alimentar ou em dar uns trocos a um mendigo, mas quando nos pedem para saltar para outro nível de salvamento de vidas, ficamos hesitantes.
Pedirem-nos sangue, medula ou órgãos exige outra responsabilidade. Compreende-se que sim. E nem todos estamos ao nível do desafio, sejam lá porque motivo for.
Eu nunca dei/doei nada do meu corpo porque não posso. Não há nada suficientemente "saudável" para dar/doar. Já tentei por diversas vezes, tão simplesmente, dar sangue e o facto de ser asmática tem-me impossibilitado disso.
Mas talvez pudesse doar qualquer coisa. Um órgão?
No entanto, a doação de órgãos em vida, a meu ver, envolve uma relação emocional muito mais profunda que dar sangue. Sentimos, de algum modo, que estamos a dar algo nosso e que é "irreproduzível" (ao contrário do sangue) mas também há o sentimento de que podemos estar a colocar em risco a nossa própria vida por outra pessoa. 
E valerá a pena? 

Toda a minha vida assisti a campanhas para salvar vidas mas nunca me envolvi profundamente em nenhuma, para além daquelas mais abstractas como ser sócia da AMI ou fazer voluntariado. Nunca me envolvi em nenhuma daquelas que nos exigem tempo para pensar na vida, no sentido da vida, e no significado do amor entre as pessoas. Na verdade, nunca precisei de o fazer. Na verdade, nunca pensei que um dia isso viesse a ser um dos assuntos de "vida ou de morte" para a minha felicidade.
Mas agora sei.

Com trinta anos de vida, não sabendo o que me reserva o futuro, penso se valerá a pena arriscar dar algo que ainda me poderá vir a fazer falta?
Se doar em vida a um desconhecido, contribuiria assim tanto para a minha felicidade?
E se a pessoa que precisar de um órgão me for próxima?
Nesse caso, a pessoa que precisa de um órgão, não me fará uma falta maior do que um órgão que eu possa doar?
E de que serve morrer-se com todos os órgãos, sem se ter salvo alguém, quando podíamos ter vivido de modo saudável ao lado da pessoa que amamos?

Perguntas sem respostas.

E nunca mais a cabeça sossega com tantos "ses" e tantas decisões demasiado definitivas.
E uma pessoa não para de pensar: "Mas vou dar um rim? Um rim ainda me pode fazer falta. E se um dia alguém que eu conheça e ame precisar de um rim e eu já não tiver nenhum para dar? E se...

É legitimo ter estes pensamentos, por mais que saibamos que não os podemos ou devemos verbalizar, porque pareceria cruel e insensível da nossa parte, mas a verdade, verdadinha mesmo, é que pensamos.

Não vou dizer que seja uma atitude egoísta porque cada um sabe de si e, felizmente, ainda somos livres de darmos as partes de nós que bem entendermos, mas dá mesmo que pensar. Põe-nos a pensar naquilo que somos como pessoas, naquilo que esperam de nós, naquilo que pensamos que somos e o que afinal somos na realidade. Faz-nos pôr em causa o nosso carácter. Faz-nos pôr em perspectiva o sentido da vida.
É um teste limite.


Talvez por se ter tornado um assunto importante na minha vida, ando atenta ao que se passa no mundo sobre esta matéria e, talvez por isso, ache que esta semana foi particularmente rica em notícias de grandes feitos e de grandes descobertas e avanços científicos, como estas, por exemplo:







Depois desta sequência de notícias em pouco mais de três dias, fiquei a pensar que o mundo se anda a movimentar e não está tão adormecido quanto julguei. 
Há pessoas a fazer a diferença. A tentar mudar vidas. A salvar vidas.

Finalmente, ficam aqui apenas meia-dúzia das dezenas (ou centenas) de páginas sobre o assunto. Com certeza existirão milhares por todo o mundo e em todos os países. Procurem.
Não custa ficar informado e ficar a pensar no assunto para o futuro:









2 comentários:

  1. O receptor do rim é quem estou pensando? :) Enviei e-mail com noticias.Aguardo tua resposta.Saudades.Bj

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