quinta-feira, 4 de abril de 2013

Os Melros




Melro |é| 


s. m.

1. [Ornitologia]  Pássaro dentirrostro (Turdus merula, Lin.), de plumagem negra, bico amarelo e canto melodioso.

2. [Ictiologia]  Peixe percóide de Portugal.

3. [Figurado]  Homem finório; espertalhão.

Melro de bico amarelohomem finório, sagaz, espertalhão.




Canto melodioso. Finório. Espertalhão.
Mais adjectivos dificultariam o entendimento da natureza de um Melro.
Menos detalhe não nos faria chegar à conclusão de como os homens se podem assemelhar a animais.
Uns no bom sentido, outros no mau e, no caso do Melro, no sentido que nos permite fazer o paralelo entre a evolução do carácter dos homens e o dos animais ditos irracionais.
Homens finórios e espertalhões nascem e morrem todos os dias.
Uns conquistam mulheres e glórias por habilidade com as palavras e rituais de acasalamento, outros ascendem a cargos importantes por meia-dúzia de palermices que palraram no poleiro certo.
Mas há dias em que os Melros cantam e há outros em que se suicidam, como os corvos que se atiram de poços quando percebem que, ao lhes cortarem as guias, não mais poderão voar.
Muitos dos Melros também são assim. Quando percebem que as suas asas já não servem para voar, que lhes cortaram os meios, matam-se, antes de se sentirem mortos por terceiros.
Por vezes também ocorrem suicídios colectivos no mundo animal. E no mundo dos homens também. Há quem defenda que, no mundo animal, os suicídios colectivos não são fruto de uma inteligência colectiva mas que se tratam apenas de um acto de imitação: se um animal por acidente cair de um penhasco, o resto do grupo atira-se do penhasco também...  mas por imitação, e não por consciência da irreversibilidade do acto.
No mundo do seres humanos não ocorrem destes erros inconscientes. E é uma pena. Poderiam existir mais suicídios colectivos. Daqueles em que, quando um Melro se mata, todos os outros poderiam ir atrás ver o que se passa. Por querer ou sem querer. Mas era uma imensa sorte.
Talvez tenhamos mais a aprender com os animais do que pensamos e, colocarmos os olhos nos Melros que por aí andam de canto melodioso, andar finório e olho espertalhão, poderia ser uma gigantesca lição de vida para todos nós.
Para pensar sozinhos ou em colectivo.







3 comentários:

  1. Crónica com C grande. Parabéns!

    (da semântica nada digo, pois quando se trata de Cartas, Bilhetes e Recados, o melhor é ouvir e calar... ;)

    beijo

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  2. Gosto, gosto muito. Permite-se a conotação política...

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