terça-feira, 10 de setembro de 2013

O prisioneiro


Foto de Jon Gavin e texto de Dias Cães para Black Velvet



*

Passava os dias a sonhar de olhos abertos, perdidos num horizonte de coisas que não existiam. Sonhava-se nos braços dele, a receber beijos que nunca viu. A ouvir declarações que nunca lhe tinham sido dirigidas. Sonhava todos os dias com aquele homem a quem dizia "amo-te" vezes sem conta na sua cabeça. Perdeu-se pelos caminhos do coração, sabia-o, e entregou-se a isso de peito aberto.
Não queria acreditar que aquele homem lhe pertencia. Que era seu. Meio-mundo de mulheres a debaterem-se por ele, e ele, fez-se seu. Apenas homem de uma só mulher. Muitas foram as vezes que sentia sombras de vozes atrás dos seus ombros, maldizentes, agoirentas como a morte, mas recolhia-se dentro de si e ignorava o que tanto espanto causava nos outros. Pareciam não querer que fosse feliz com o homem que faria qualquer mulher feliz.
Bem... talvez fosse mesmo isso que causava tanta apoquentação.



*

Ele fez-se dela no momento em que lhe olhou nos olhos negros e lhe sentiu o perfume a lírios. Disse-lhe sempre ao ouvido o quão apaixonado estava e o quanto se tinha rendido aos encantos de amar uma só mulher. Ele murmurava-lhe sempre ao ouvido. As mais românticas palavras foram sempre entregues a ela, em sussurros encostados ao ouvido.As pessoas que falavam atrás dos ombros dela, bem sabiam esta manha dos sussurros. Conheciam-lhe bem as razões para tantos segredinhos ao ouvido. Um homem que nasce de rédea solta nunca mais se volta a prender. As mulheres mais velhas sabiam-no bem. Ele não era mais que um homem bonito e bem-falante que caçava rapariguinhas com palavras mansas e tons melosos. Queria-as por vaidade. Depois como troféus. Algumas por orgulho. Outras por apostas consigo mesmo. Esta rapariga em particular apenas a quis por saber que ele ia ser o seu primeiro homem. E foi.

*

Mil mulheres choravam pelas ruas, cabisbaixas, infelizes por nunca mais se terem alegrado por ver aquele homem excepcional. Algumas das mulheres que lhe falavam por trás dos ombros não choravam. As que choravam eram as inocentes cheias de saudades. As que não choravam eram as mais experientes na vida, que conheciam bem o traste que ali estava. Não lhe lamentavam o sumiço. Desejaram que se tivesse evaporado antes de ter cruzado o seu caminho com os caminhos delas. Mas apenas umas tinham consciência disto, outras não.
A sua apaixonada... Talvez o soubesse. Nunca se veio a confirmar.
Mas a sua apaixonada não chorava. E também não andava de cabeça baixa aos suspiros. Não rezava todas as noites antes de se deitar para que ele voltasse. Não se recordava dele com um sorriso como quem recorda o melhor da vida.
As pessoas sussurravam-na atrás dos seus ombros coisas estranhas mas, pela primeira vez, não era para a chamarem de parva.


*

Foram precisos trinta e dois dias para que sucumbisse à sua mente. 
Há trinta e dois dias que fora largado num velho armazém, escuro e lamacento, sem as boas roupas e o bom alimento no corpo. O perfume exuberante desvaneceu-se pouco depois de ali ser deixado. O sorriso formatado aguentou-se apenas umas horas até perceber que nada mais havia para rir.
Há trinta e dois dias, que a sua apaixonada se fartou das vozes nos seus ombros. Que abriu os olhos e lhe viu as mil camas, das mil mulheres que agora o choram, fartas de tudo o que ele lhe tinha prometido apenas a ela.
Há trinta e dois dias que o aliciou para uma aventura com uma desconhecida e confirmou que espécie de homem ali estava.

Fechou o portão e mandou a chave para um poço.
Depois dos trinta e dois dias em que a sua mente sucumbiu, não mais se soube quanto terá aguentado o seu corpo.






Sem comentários:

Enviar um comentário