terça-feira, 8 de outubro de 2013

O homem que não voltou




Maria.
35 anos.


Fui abandonada na berma de uma estrada aos dois anos. Ainda de me lembro. A estrada estava escura. A noite estava amena. Não tive medo. Ainda me lembro.
Abriram-me a porta do carro como a um cão. Não me disseram nada. Não me bateram. Não se despediram. Apenas não me quiseram mais.
Um homem, que passou horas mais tarde, meteu-me dentro da sua carrinha. Percorremos um longo silêncio. Ele levou-me à polícia. Quando me entregou o homem chorou muito. Disso não me lembro. Contaram-me mais tarde. Mas dizem que chorava de dor, de raiva, de tristeza. Aqueles sentimentos que eu não tive por nem entender o que se passava. Apenas sei, agora, que naquela noite houve coisas que morreram em mim. Eu não sabia dizer por palavras. Mas algumas coisas ficaram perdidas. 
A polícia e umas mulheres de tom mecanizado, fizeram-me muitas perguntas nos dias que se seguiram. Nunca respondi. Sabia poucas palavras. Esqueci as que conhecia. A minha memória estava feita de coisas que não usam palavras. Imagens. Lembrava-me apenas daquela noite mas isso já não lhes importava. Queriam saber do passado. Eu sei lá do passado. Nessa altura sabia ainda menos. Por isso calei-me. Durante anos, calei-me. Ninguém parecia interessado em, realmente, me ouvir. Pensaram que eu estivesse traumatizada. Que talvez tivesse visto alguma coisa que não devia. Mas eu apenas me calei. Não tinha nada para dizer. Durante muitos anos não tive nada para dizer.
Às vezes lembrava-me do homem que me meteu na carrinha e me levou à polícia. Ainda me lembro. Não exactamente do homem. Não me lembro dele. Lembro-me do medo na cara dele. Da coragem. Penso na razão que o levou a parar a carrinha naquela estrada escura e ajudar-me. No que fez aquele homem emocionar-se. Às vezes pergunto-me se nele também terá morrido alguma coisa.
Nunca pensei em quem me abandonou. Também nunca os culpei. Não sei porque me abandonaram. Por isso não os culpo. Eram dois.
Hoje, os muitos abandonos que sofro, doem mais. Porque me lembro de tudo. Porque foram muitos. Muito mais que dois. Porque são feitos na luz do dia. Com palavras. Com acções. Com torturas. Com memórias.
Hoje, quem me abandona nas bermas dos meus sentimentos, tem culpa.

Lembro-me muitas vezes do homem da carrinha que me salvou.
Questiono-me por onde andará ele agora e porque é que nunca mais voltou.



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