sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Quando for grande




Quando for grande vou querer sair do escuro.
Vou abrir os olhos e viver.
Vou querer gostar de mim.
Gostar dos outros.
Vou querer vestir-me de azul.
Viver com uma nuvem branca sobre a cabeça.
Contrariar os defeitos desta alma assombrada.
Vou dormir de luz acesa para espantar o medo.
Vou correr.
Fugir de tudo o que não faz sentido em mim.
Vou mergulhar.
Afundar-me na liberdade dos prazeres.
Entregar-me à felicidade dos vícios.
Vou agarrar num cigarro e namorar-lhe a cinza.
Beber um copo de vinho até os lábios sorrirem roxos.
Vou cheirar a sândalo e vestir-me de mim mesma.
Sem medos.
Vou dançar de olhos fechados.
Olhar para dentro de mim e cair redonda no chão de embriaguez.
Quando for grande vou querer saber dizer não.
Não temer as reacções dos outros.
Não temer os meus sentimentos.
Vou querer emocionar-me sem agarrar as lágrimas.
Não esconder que tenho coração que sente.
Quero render-me às lições de vida.
Apontar menos dedos aos outros.
Cair mais em mim.
Vou querer ser um exemplo sei-lá-de-quê para alguém.
Vou querer ser única.
Saber envelhecer na pele e rejuvenescer no espírito.
Ver os novos nascerem e endireitarem-se.
Vou querer ver a vida a dar vida e a morte a não existir.
Não vou sucumbir às tristezas das perdas. 
Vou querer viver tudo o que não vivi até hoje.
Vou querer chegar ao dia em que sei que nenhum caminho ficou por percorrer.



8 comentários:

  1. Eu já sou grande e também gostaria de ser isso tudo...Mas não sou nada!

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    1. É tudo uma questão de ambição.
      Quem sonha alto corre um risco maior de ter menos do que quem não sonha de todo.
      Por isso só posso dizer que mais vale ter ambicionado ser e não ter conseguido, do que nem sequer ter querido ser.
      Que confuso, bolas :)

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  2. quem me dera voltar a ser pequeno.

    R.

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    1. Pois... não há como discordar.
      Saudades dos tempos em que não fazia descontos nem declarações de IRS...
      Tens razão.

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    2. Não é lamentar o ser 'grande'. Gostava apenas de reviver uma vez que fosse alguns momentos da minha infância.

      R.

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  3. quem me dera nunca ter sido pequena...
    como sempre, excelente texto.

    beijinho grande
    (a ver se voltamos a meter a conversa em dia mas agora com a máquina pelo meio)

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    1. Minha querida, será quando quiseres (estou por cá este fim-de-semana) mas... qual máquina?
      Só se for uma máquina de encolher que eu estou para lá de lontra. Diria até que, em mim, surgiu uma nova espécie de lontra :)))
      Beijinhos

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    2. Não digas tontices miúda, tu és linda!

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