sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

O preto e o fascista



pre·to |ê| 
adjectivo
1. Da cor do ébano. = NEGRO
2. [Brasil, Informal]  Perigosoarriscado.
adjectivo e substantivo masculino
3. Diz-se de ou indivíduo de pele negra. = NEGRO
substantivo masculino
4. A cor negra.Ver imagem
5. [Física]  Ausência de todas as cores (por oposição a branco que é a reunião de todas).
6. Indumentária dessa cor (ex.: foi à ópera de preto).



fas·cis·mo 
(italiano fascismo)

substantivo masculino
1. [História]  Partido e movimento político em Itália que tinha por emblema os fascese terminou após a Segunda Grande Guerra depois de vários incidentesnum dos quais foi morto o seu chefe Mussolini (1883-1945).

2. [Política]  Tendência para o excesso de autoritarismo ou para o controlo ditatorial.


in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, http://www.priberam.pt/

Ultimamente (e apenas ultimamente) tenho-me apercebido que nos Estados Unidos há um grande problema em dizer-se a palavra "preto" como adjectivo qualificativo de um individuo, claro está, de raça negra.
Nos Estados Unidos chamam-lhes "negro", mas o adjectivo é tão mal visto que, para evitar a palavra negro, dizem "the "N" word": a palavra "N". Nem sequer a proferem!
É evidente que não têm problemas em dizer "black". Acho que ninguém diz: "the "B" word", mas a palavra "preto" não pode ser verbalizada.
"I'm the first black woman winning so many music awards", dizia a Beyoncé até com algum orgulho. Para mim, na minha minuscula visão do mundo, ele própria é que se catalogou e pelos vistos sem problemas nenhuns. Se eu tenho dito "sou a primeira branca a ver um concerto do Eminem" estava-se tudo pouco borrifando. Que raio de adjectivo qualificativo seria a palavra "branca"? 
De facto, o preconceito está mesmo na cabeça das pessoas, e isso não tem cor nem credo.

Entretanto, pus-me a pensar que adjectivo equivalente teríamos nós em Portugal, que fosse igualmente ofensivo. "Preto", pode não ser lindo, mas a meu ver é o que é. Há pretos, há brancos. Espero que ninguém me venha dizer que sou cor de "salmão da Noruega apanhado no mês da desova". Como não acho lógico que se chame "escuro" ou "cor-de-chocolate" a uma pessoa de raça negra. Somos pretos, somos brancos. É igual.
Pronto, e lá fiquei a pensar que éramos os melhores do mundo e que os americanos são uns patetas que inventam coisas onde não há. Estava quase a concluir, e a fechar esta história na minha cabeça, que não existia um equivalente em português para a ""N" word", até que...

[muda a linha que isto agora é outra conversa...]

Hoje, depois de um episódio de despotismo (coisa insignificante mas que me fez pensar no que andamos aqui a fazer e quem manda em quem) veio-me à ideia a palavra "fascista". Porque entretanto escrevi a palavra "fascista" e a coisa não me pareceu bonita. Dei até por mim a pensar o quão ofensivo seria eu chamar, de viva voz, fascista a alguém. Tentei redimir este pensamento fazendo o paralelo com a palavra "negro", contextualizá-la, ver que pode nem ser assim tão mau mas, chamar "fascista" a alguém, é mesmo ofensivo. Retorci mais um bocadinho o cérebro e conclui que, realmente a palavra "fascista" é muito feia mas, mais feio ainda, é sê-lo.
Será que tal como ser-se preto ou branco, é o que é, ser-se fascista, também é o que é?
Então, porque não chamá-lo a quem, realmente, o é?

Enfim, se quisermos ver isto de um modo mais sério, chegamos à conclusão de que estamos neste ponto, porque é a história que temos. É o passado que herdamos.
Os americanos não lidam bem com os tempos da escravatura e com a descriminação que criaram, e nós não vivemos bem com o tempo em que um mandava e os outros baixavam as orelhas, mesmo que isso custasse a ignorância, a fome, a miséria e a falta de liberdade de um povo inteiro.
Há-de haver outro país onde não se podem fazer piadas com a palavra "gás", hão-de haver outros onde não se pode dizer "Cristiano Ronaldo". As coisas são como são.
Cada um vive com os seus fantasmas e pensamos que, apenas por proferirmos palavras, estamos a evocar o regresso deles.





2 comentários:

  1. Espantosa a força de uma palavra.

    R.

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  2. Quando era pequenina não percebia porque lhes chamavam pretos, a meu ver eles eram, sem dúvida alguma, castanhos. Apesar de branca, achava quase ofensivo (noções de criancinha com os seus 3 aninhos) chamarem pretos aos castanhos, quer dizer se eles são castanhos porquê dizer que são pretos?
    (Para mim, o meu amigo era o castanhinho porque eu gostava muito dele e porque era assim que ele era, qual preto qual quê! Na verdade eu também não era branca, era cor de pele, inclusive havia um lápis dessa cor. Agora que penso nisso, é um nome algo racista para uma cor mas na mais pura da minha inocência aquela era a realidade e não tinhamos que mentir sobre aquilo)

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