domingo, 23 de março de 2014

O traidor




Se te fumassem a puta da vida, como viverias?
Aquela vida que sempre achaste ser verdade.
Aquela vida que durou toda a tua vida.
E se tudo não passasse de um instante vazio?
Se te consumissem o que te sobra de sanidade?
De dignidade.
Se te dissessem que tudo foi uma mentira.
Como te segurarias nas pernas?
Como pararias esse tremor dentro do peito?
Como encararias a pessoa que te mentiu?
Aquela que te cuspiu na cara uma vida que nunca teve.
Que te deu uma vida nas sombras que nem nunca soubeste ter.
Conseguirias segurar a vontade de lhe assentar uns punhos na puta da cara?
Segurarias depois as palavras de acusação?
Como é que te sentirias por chegar a um ponto da vida, em que tudo se desmoronaria por causa de uma gigante mentira?
Aquela que todos viram menos tu.
Não sentirias vergonha? Embaraço?
E como é que te livrarias desse fardo se ele não fosse teu?
Mas de outra pessoa pela qual morrerias.
Como é que se vive uma mentira entre os outros? Dos outros?
Mentirias na esperança que alguém entendesse os sinais?
Conseguirias esconder a verdade apesar de te dar vómitos assistir a um teatro cheio de tretas punheteiras? 
Conseguirias dizer a outra pessoa que foi enganada a vida toda pelo seu maior cúmplice?
Que tem um punhal cravado nas costas e o gozo e a crítica dos outros colados na testa?
Como é que se abate um filho da puta que mente enquanto sorri?
E como é que se acaba com o sorriso de quem anda a ser fodido pelas traseiras mas não sabe?
Estará o segredo da sobrevivência da dignidade moral dependente da vida e da morte?
E será que apenas nos livramos da vergonha quando se abate o traidor?


["Não te espantes se um dia destes não acordares porque engrandeci a coragem dentro de mim e te cravei com um par de tiros nos cornos. Porque nas minhas costas não me vais mais foder." - Disse-lhe ela em voz baixa antes de adormecer com um beijo fingido de amor.]