12.11.12

Eu sei que não sou mãe





Ando há meia-dúzia de anos a ouvir isto: “Isso é porque não és mãe”. 

Eu sei que não sou mãe.
Mas obrigada por me lembrarem disso com tanta regularidade. Nunca se sabe! Nunca se sabe, se me dá algum ataque de demência e começo a ser uma pessoa sensível. Sim, que só é sensível quem é mãe ou pai, e o resto (esses miseráveis que não procriam) são uma cambada de monstros que não sofrem com a queda do psi 20, apenas porque não têm a sensibilidade de quem é pai. Nem sofrem com a procriação em cativeiro do Panda gigante, como única resposta em pleno século XXI para travar a sua extinção, porque não são pais. De repente, só se pode apreciar uma pintura de Monet porque se é pai. Só pode dizer que lhe doem as mamas quem já foi mãe. Só se pode queixar de estar cansado quem é pai. Só se pode chatear com as contas elevados de supermercado quem é pai. Só pode ficar irritado com faltas de educação quem é pai ou mãe… Cristo! Apetece-me dizer que afinal isto de ser mãe ou pai só traz é desgostos porque, afinal, só eles é que se podem (e têm todo o prazer nisso) queixar.
“Não és mãe? Ah, pois temos pena. Estás-te a queixar de quê? De que tens um joanete? Devias experimentar ficar com um períneo todo rasgado. Sim, porque eu sou mãe e por isso sei o que é sofrer”.
Epá, boa sorte mais a esse prazer todo em dizer que se vive na desgraça porque se teve a graça de ser mãe.

Eu sei que não sou mãe.
Ainda não percebi porque é que insistem tantas vezes em lembrar-me disso. Em lembrarem-me ou em julgarem-me, porque por vezes a diferença é muito ténue. Basta uma pequena alteração no tom de voz ou no ritmo com que se dizem as coisas para passarem de um “isso é porque ainda não foste mãe” para um “ (cala-te já sua anormal, que não fazes puta de ideia o que é andar nove meses sem mandar uma queca em condições na esperança que venha daí a melhor coisa do mundo e afinal isto só dá é dores de cabeça e noites mal dormidas e ainda mal consigo chegar com a mão ao cu sem me doer qualquer coisa, e já passaram dez anos, e estás tu praí a falar como se soubesses o que é a vida) isso é porque ainda não foste mãe”.
Minhas senhoras, importam-se de não discriminar a minha ausência de crias e me subestimarem por isso?

Eu sei que não sou mãe.
Crucifiquem-me por isso. Crucifiquem-me por pensar que os miúdos dormirem na cama com os pais até aos seis anos é o maior tira-tesão da história da humanidade e que “se fossem meus não fazia assim”.
Matem-me por pensar que se um filho meu com dois anos me levantasse a mão, eu não ia achar graça porque “já tem imensa personalidade e opinião”.
Mandem tirar-me os ovários por eu achar que as cesarianas são a melhor invenção do mundo e que os leites artificiais são o LSD deste século.
Retirem-me a guarda dos meus futuros filhos no dia em que lhes der uma palmada porque faltaram ao respeito a um adulto.
Mandem-me para a Fossa das Marianas por, apesar de não ser mãe, poder ter opinião sobre os mais variadíssimos assuntos. Melhor: precisamente por não ser mãe, consigo falar de outros assuntos. Boa!?

Eu sei que não sou mãe.
Mas e se fosse? Ia ser pior que as outras?
Não há mestrados nem doutoramentos em maternidade e, até que alguém me prove o contrário, ninguém sabe o que é ser mãe até o ser. E mesmo depois de os parir há algumas pessoas que revelam aptidões naturais para o ser e outras não. E no entanto, não há nenhuma espécie de controlo nisto. Não são divididas as potenciais boas mães das más mães, em exames médicos, logo à nascença. As más pessoas também são mães. E isso faz, à partida, que elas sejam pessoas com opiniões mais credíveis e válidas que as minhas quando se fala de maternidade?
Sei que não sou mãe por muitas outras coisas que não têm a ver com a sensibilidade e moderação. Com paciência e amor incondicional. Acreditem, sei bem que não sou mãe, porque continuo a ficar menstruada, a gastar dinheiro em pílulas e a dormir bem todas as noites.
Sei que não sou mãe mas sei que sou uma pessoa como qualquer outra e isso não faz de mim menos competente e menos apta para viver em sociedade.

Eu sei que não sou mãe.
Mas fiquem descansados porque eu até quero ser mãe. Se há coisa de que não me importava mesmo era de ser mãe. Importo-me com ter de pagar IRS e IVA e essas merdas que ninguém compreende muito bem mas com as quais se cumpre. Importo-me de ter de fazer dieta há vinte anos e estar cada vez mais lontra. Ultimamente até me importo com um fungo numa unha do pé que me impossibilita de dar os dedinhos a chupar. Agora ser mãe… não me chateava mesmo nada mas ainda não o quis ser (sim, desengane-se quem pensa que não sou porque ninguém me salta para cima). É uma opção de vida como qualquer outra. Como fumar, viajar ou gostar de levar pornografia para a casa de banho. Posso?
Eu sei que não sou mãe e não me venham com as teorias que é disso que preciso. Que esta genica toda se acaba com o amolecer da maternidade. Eu quero lá acabar comigo e condenar-me ao único e exclusivo papel de ser mãe? Que falo como falo porque quero muito, muito, muito, ser mãe e não consigo (eu vou treinando meus caros, eu vou treinando! Mas não preciso arriscar o último lugar nos Mundiais quando estou em primeiro lugar na Distrital).

A sério minha gente: não podemos conversar sem me atirarem à cara que não compreendo determinada situação porque não sou mãe?


33 comentários:

  1. Ah, Dc eu a compreendo!Também atiram-e á cara que nada sei porque não sou mãe.Mas, neste momento, sou tia, serve?? :)))

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    1. Não Márcia. Isso é batota :)
      E eu nem tia sou...

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  2. escreves tudo isto, porque não és mãe...
    ahahahahahahahahahah! conheço tão bem esse tom de que falas ;)

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  3. e sabes o que é mais engraçado? percebo mais de bebés do que muitas delas. já ajudei a criar muitos ;) mas não os pari, logo, não sei nada ;)

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    1. Então lave já essa boca com sabão, duas vezes!
      (Eu confesso que não percebo grande coisa de bebés mas percebo tanto de tantos outros assuntos. Não serve?)

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    2. ahahahahah! não penses que por perceber alguma coisa, o tom não é tão condescendente...

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  4. Não seja por isso: ficas a ser tia "emprestada" do meu sobrinho, aceitas?

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    1. "Tia emprestada" é bom.
      Vou ter um sobrinho do outro lado do oceano!
      Yupiiiiii :)

      Bjs

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  5. Curioso, falam como se isso de ser pai ou mãe fosse uma desgraça.

    R.

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    1. A questão é que, parece que ser pai ou mãe serve de justificação para tudo e que, quem não o é, não tem justificação para nada.

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    2. Felizmente nunca utilizei a minha filha como fonte de lamentação. Nem sempre posso fazer tudo o que quero, naturalmente, mas não vivo em função dela. O que vejo em muitos casais é justamente o oposto. Deixam de ter identidade.

      Sabes que mais? Bardamerda com eles. Só estão assim porque querem.

      R.

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  6. fenomenal este texto. infelizmente também convivo com pessoas que estão constantemente a atirar-me os filhos à cara.
    fico lixado por duas razões: primeiro não fui eu que os fiz, depois tenho que gramar com eles ainda mais que os pais.

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    1. Pelos visto nem com competências para isso me acham. Nunca deixam criancinhas ao meus cuidado.
      (Mas deram-me o prazer de ser madrinha de três... lá isso é verdade :) )

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  7. hummm... que é que eu hei-de dizer.. eu sou mãe, mas para manter a minha sanidade mental, vulgo, conversas normais, tenho de estar e falar também com gente que não é mãe; sinto-me a pior mãe do mundo por ver crianças malcriadas e perceber que a minha já levou palmadas onde quer que estivesse por apenas um décimo do que eu vejo tantas vezes, sem qualquer reacção dos progenitores, sinto-me má mãe porque acho que as pessoas entendem que a partir de que és mãe deixas de ser tudo o resto, tens de te sacrificar em tudo para ser mãe. Deixas de ter vida e interesses próprios e vontades e etc. Eu nunca consegui perceber nem fazer isso, adaptei a minha vida por ter uma filha, óbvio, mas só até determinado ponto, a partir desse ponto ela é que tem de se adaptar à minha vida até ir tendo a independência da dela. Mas é por isto que me sinto, tantas, mas tantas vezes péssima mãe. Mãe tem de ser abnegada e sofrida e viver para os filhos, Às vezes penso que é isso que vendem por imagem. E às vezes eu acredito... o que é uma porra!! E isto tu também não sabes o que é...porque não és mãe... :P

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    1. Na verdade acho que qualquer frase ou raciocínio pode ter como resposta "Isso é porque não és mãe".
      Senão vejamos: "Tenho uma unha lascada".
      Resposta: "Isso é porque não és mãe (porque quem é mãe corta as unhas às suas crias e não deixas que se lasquem Jamais!!!)"
      :)))

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    2. E se fores, é porque não o estás a ser bem!!!... bahhhh as pessoas dizem as barbaridades mais estúpidas só porque sim!!!

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  8. Curioso... também sei que não sou Mãe! :P
    Algo que acho demasiado precioso para o meu regalo da vida mundana é ver "Mães" a darem uma de pseudo-sábias da Vida Moderna, quando usam um rebento como troféu para mascarar carências.

    Beijos :)

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    1. AINDA não és mãe.
      Olha que a ciência tem evoluído imensooooo :)
      Percebo o que queres dizer. Já vi. Já assisti. Não são mães, são mulheres a quem ir às compras já não chegava para satisfazer os seus ímpetos materialistas. Só lhes faltava mesmo um filhinho.

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    2. Onde é que já vi esse comportamento que descreves??? Hummmm...Ah, já sei!! E tu também sabes! :p
      A mim - só pq não sou pai - já desistiram de me chatear! Venci-os pelo cansaço!! E continuo a não saber se quero ser pai...Talvez um dia! :)

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  9. Eu sou mãe(a dobrar)mas subscrevo a 100% as tuas palavras, pois o facto de ser mãe não anulou o facto de ser em primeiro lugar mulher e parte activa nesta sociedade hipócrita! Como diz a Eva, obviamente que alteramos algumas coisas na nossa vida em função dos filhos mas não podemos (não devemos) para bem da nossa sanidade mental viver em exclusivo para eles. Eu saí de um casamento que não me fazia feliz tinha o meu mais novo 11 meses, vivo com os dois, faço programas de e para eles, canto e danço as músicas deles (Pandas/Xana Toc Toc, etc... conheces? Claro que não, não és mãe ;) E para além disto tenho a minha vida como pessoa e mulher, saio com amigos, faço programas de "gente crescida" e dou a minha opinião sobre os mais variados assuntos mesmo que não seja Dra.para opinar sobre medicina ou escritora para opinar sobre livros. Se não ser mãe/pai não dá direito a opinar, então todos nós temos que calar as nossas opiniões sobra variadissimos temas! Para terminar, adoro a tua escrita (apesar de ser o 1ºcomentário que cá deixo) e desculpa este testamento! :)

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    1. Vou ao espectáculo o Panda lá para Dezembro e, infelizmente sei quem é a Xana Toc Toc :)
      Sou madrinha de 3 pequenos...
      Claro que é um conhecimento limitado (perdoem-me não sei as letras enm as coreografias) e isso não faz de mim a maior entendida na matéria.
      E continuo a dizer, não seria isso que faria de mim uma pessoa mais sensível e com maiores conhecimentos.

      Para terminhar, obrigada pelas visitas, pelas leituras e pelo 1º comentário de muitos (eu sou uma pessoa amistosa, apesar de não parecer, e recebo bem todos os que aqui chegam. Por isso, força nos comentários).

      Bjs

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    2. Aliás por tanto que, infelizmente, se ouve por aí definitivamente ser mãe não nos torna mais sensivel nem nos dá mais conhecimentos... Pode ser que nos encontremos no Panda, eu ensino-te as coreografias! ;-)

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  10. Brutal! É dos que mais gostei desde que a comecei a seguir.

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    1. Carolina, quanto mais leio o que escrevi mais pateta me parece.
      'Bora lá ler outros, só para eu não me ficar a sentir mal por dar "isto" às visitas novas.

      :)

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  11. Como se ser mãe fosse um estatuto tão superior, que não passamos por nada (bom/mau) enquanto não o experimentarmos.
    Também já mo disseram algumas vezes.

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    1. Ter diabetes é mau.
      Estar no topo da Torre Eiffel é bom.
      Não precisei ser mãe para saber disto.
      Não creio que se valorize mais uma e outra coisa apenas quando se é mãe.
      Como dizes, ser mãe não é um "qualificador" de coisa nenhuma.

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  12. Então e aquela baixa percentagem de homens que já foi confrontada com o "isso é porque ainda não foste pai!"???

    Venho aqui deixar uma palavra de apoio a esse grupo restricto do sexo masculino que foi aqui esquecido. :)




    DC, depois da prometida leitura geral pelo blog, confesso que a fasquia está muito alta!

    Ruben.

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    1. Quem diz mãe, diz pai.
      Também estou solidária com os rapazes.

      (Ruben Mendes, afinal não há qualquer perigo de podermos vir a namorar. Podes ler à vontade :) É que eu tenho um medo terrível da consanguinidade... Oh, Sr. Mendes :)))

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    2. Demorei algum tempo a perceber o dito factor da consanguinidade, mas se Sra. Mendes corresponder à descrição "... uma lady na mesa e uma louca na cama, princesa de dia e vadia de noite, silenciosa à luz do sol mas irrequieta à luz da lua..." tudo é possível!

      :)

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    3. Sr. Mendes... Eu sou a missão impossível em pessoa ;)
      Bjs

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  13. ADORO-TE!!!

    Eu sou mãe de duas filhas e porque tu não és mãe, vou partilhar contigo uma pérola de sabedoria maternal, para estares prevenida.
    Sexo é bom, antes de parir (treina muito), sexo é muito bom, na gravidez (tudo está muito sensível e os sentidos exponenciados) e depois de parir, melhor ainda, porque ambos estamos orgulhosos que o resultado do nosso amor seja «aquilo».

    Todas as que te olham de lado, têm INVEJA, porque sabem que tens sexo e elas não têm (conclusão óbvia).

    Um beijo muito, muito grande,
    Ana

    P.S. A sabedoria popular até diz que as que não são mães são muito mais inteligentes, porque depois de parir a mulher só fica com dois neurónios, um na mama esquerda e outro na direita.

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    1. Que dizer?
      Este comentário dava, por si só, um excelente post.

      Beijo grande :)

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  14. Não diria melhor. E sinto da mesma maneira. Parabéns pelo excelente texto.

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