quarta-feira, 3 de julho de 2013

Não percebi a piada




(ver até ao último segundo, onde tudo faz sentido)



A um palhaço, a um comediante, àquele amigo bem-disposto, uma pessoa perdoa tudo. Perdoa tudo menos que não tenha piada. Aquela piada que se espera de quem é um profissional de piadas. Por isso, se estão numa de contar piadas, pelo menos que as contem bem. Que nos convençam que depois da piada vamos largar uma valente gargalhada.
Se não se sentem capazes de enfrentar um público com a atitude que este espera, então não subam ao palco. Quando não se está a trabalhar bem a melhor atitude é mesmo sair de cena. Abandonar o palco. Um dia, nesse dia, não haverá o espectáculo de todos os outros dias, porque o artista já não se sente capaz. Sempre é mais digno que ser apupado e empurrado à força para fora do palco. Mas não deixa de ser mau, afinal de contas, pagou-se bilhete, organizou-se a vidinha para ir passar um bom serão, alinha-se o estado de espírito com o estado de espírito do espectáculo de entretenimento que se vai ver, e a malta não se quer sentir defraudada. Não pode haver falhas. Porque no fim do espectáculo, se este não correr bem, o artista já tem o cachet no bolso e já não há verba para devolver o preço dos bilhetes.
Mas quantas vezes que isto nos tem acontecido?....
Pagamos, pagamos, pagamos, mas o artista sai de cena e nós ficamos a arder com o dinheiro do bilhete. Espectáculo de piadas nem vê-lo. É uma desilusão. Nem à piada final tivemos direito para nos podermos esquecer como o resto foi mau.
É como ir jantar fora a um sítio fino e só se safar a sobremesa. Até perdoamos que o resto da refeição tenha sido medíocre.
Ou como ir ao cinema: se o final do filme for bom, até nos esquecemos das duas horas anteriores de puro sofrimento e agonia sem compreender a genialidade do autor que fez um filme só para satisfação pessoal.
Parece que, nos dias que correm, já ninguém se lembra desta velha teoria de que um bom final salva um mau início.
As pessoas até podem aceitar fazer sacrifícios, levar com uns abanões, ter vómitos, penhorar a casa mas no fim, mesmo no fim disto tudo, a coisa vai ter de correr muito bem. Em algum momento vai ter de correr bem. Vai ter de haver a piada no final que salva isto tudo. Vai ter de haver um Parfait de chocolate com spuma de champagne servido por um empregado sueco que nos olha para o decote. Vai ter de haver um beijo na boca em bicos dos pés com a Torre Eiffel como pano de fundo, antes do The End.
Nós aceitamos um mau espectáculo se no fim a saída for em beleza.
Já chega de subidas e descidas de pano, de vergonhas e embaraços, de constrangimentos da nossa e da vossa parte. Chega de ter pena dos artistas por passarem a vida a levar com tomates e ovos podres nas trombas e mesmo assim continuarem a subir ao palco.
Pronto, já chega!
Contem lá a piada e sigam com a vossa vida, por favor.





2 comentários:

  1. Infelizmente os maus espectáculos vão continuar, parece-me.

    R.

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  2. uma peça de teatro de comédia sem piada (com a toda a subjectividade que implica) e um mau filme são das maiores frustrações que posso sentir. Também tem a ver com expectativas - e isto vale para tudo na vida: quantas vezes ouvimos dizer que só tem desilusões quem cria as ilusões, quem cria expectativas muito altas? se calhar é uma visão realista (e às vezes o realismo chateia-me), mas quanto do gosto pelas coisas podemos retirar se não houver expectativa(s)?

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