quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

O meu lindo funeral



Hoje pus-me a pensar no quão importante é tratarmos do nosso próprio funeral.

E de onde é que veio isto?
Um colega meu em estilo de brincadeira sem graça desejou-me a morte e eu fiquei a matutar que não quero que este tipo de gente vá ao meu funeral. Mas como poderei evitá-lo?

Fazendo uma guest list.
Ah pois é!

E como os amigos e a família não se podem deserdar destes eventos tive, precisamente, de pensar numa guest list para os meus colegas de trabalho. É esse grupo que tenho de limitar.
Ora o meu local de trabalho tem cerca de mil e duzentos funcionários e, como é evidente, não conheço nem metade desta gente. Pois da metade que conheço, estimo que um terço não goste de mim e, é garantido, que o outro terço das pessoas seu eu que não gosto delas. Sobra, portanto, o último terço, colegas de trabalho entre os quais alguns bons amigos, de quem eu gosto ou, pelo menos, não desgosto. Perfaz, mais coisa, menos coisa, duzentas pessoas. E duzentas pessoas já são muitas pessoas. Duzentas pessoas chegam para encher, à justa, quatro autocarros para fazerem a viagem até à minha terra natal.
[Já vos estou a ver a cantar o Kumbaya durante os 120 km que separam o nosso local de trabalho da minha aldeia que Deus me livre de ficar enterrada numa terra que não é minha.]

Vá, metade dessas pessoas vão ter outras coisas para fazer e acabarão por arranjar uma desculpa para não ir. Tudo bem, desde que avisem com antecedência. Não quero lugares vazios na plateia.
Pois então, se eu morresse, e na visão optimista de que o meu funeral vai ser um acontecimento importante (sobretudo se morrer jovem, como o outro me desejou), o meu patrão iria dispensar os funcionários que quisessem acompanhar-me à última morada, bem como os autocarros para o efeito. Só do meu trabalho iriam, então, cem pessoas, e cem pessoas são dois autocarros cheios. Assim ao estilo de "ide lá à capital ao Colombo e ao Vasco da Gama aproveitar os saldos participar da manifestação que nós bancamos tudo".
Mas, de repente, quando cheguei a este ponto do raciocínio pensei: "Alto!!! Ninguém vai passear à minha conta".
Foi então que firmei esta ideia de ter uma guest list para o meu funeral. A importância de ter uma num funeral. Evitam-se constrangimentos, falsas carpideiras, e a conversa do "coitadinha era tão nova".
Com uma guest list garante-se a presença apenas daquelas que desejamos ter ali, naquele momento importante.

Entretanto, saltou-me o raciocínio para outras minudências:
Se a minha entidade patronal tivesse a linda ideia de mandar uma coroa de flores (com um cartãozinho lá pendurado como seu o fosse ler), que flores quereria eu?
Pensei em orquídeas só para lhes lixar mais [como se fosse possível, ahahaha...] o orçamento.
Depois pensei que isto era bonito se tivesse uma mensagem, um simbolismo. Pois era. Então que sejam cravos vermelhos. Só assim, naquela de me ser devolvida a liberdade de expressão, ali, na hora da morte.

Quanto aos acepipes, não haveria, porque não estamos na América.

Quanto à mortalha, não é preciso complicar: quero ir com as minhas skinny jeans pretas, e uma long sleeve básica preta. As argolas de ouro que a minha avó me deixou e as sabrinas de leopardo.

Quero um fotógrafo mas não quero ser fotografada. O fotógrafo é só para apanhar o ambiente do evento. Porque não faltava mais nada que era nas últimas fotografias cá por cima, ter o azar de ser apanhada de olhos fechados.



2 comentários:

  1. absolutamente genial!
    o tema, a ideia, o pensamento, a escrita, como sempre.
    adoro!

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  2. É por essas e por outras que doei o corpo à ciência.

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