quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Uma carta de Alfred de Musset

Claude Monet


Para George Sand, 1833


           Minha querida George,
          Tenho uma coisa estúpida e ridícula para te dizer. Depois de voltar de um passeio, tolamente escrevo em vez de to dizer, não sei porquê. Esta noite estarei irritado por tê-lo feito. Tu vais rir-te de mim, por me tomares por um charlatão, indicando-me a porta da rua por pensares que estou a mentir. Estou apaixonado por ti. Estou-o desde o primeiro. Pensei poder curar-me, pensando em ti simplesmente como amiga. Há muitas coisas no teu carácter que me podiam sarar. Tentei convencer-me de que o podia fazer eu. Mas sofro a cada momento que passo contigo. Prefiro dizer-to, e penso ter dito bem, pois vou sofrer menos depois de me rejeitares. Esta noite [nota George Sand, que editou as cartas de Musset, riscou as duas últimas palavras, e com tesoura cortou a linha seguinte] decidi que soubesses que estou fora, mas não quero fazer disso mistério nem discutir sem razão. George, vais dizer agora, "outro fulano que está a tornar-se um maçador", como costumas dizer. Se não sou o primeiro, diz-me, como me disseste ontem de outra pessoa, o que devo fazer. Mas peço-te, se pensas dizer-me que duvidas da verdade do que escrevo, então preferia que não me respondesses. Sei o que pensas de mim, e nada espero ao dizer-te isto. Apenas antevejo perder uma amiga e as únicas horas agradáveis que passei durante um mês. Mas sei que és gentil, que és gentil, que és amada, e confio em ti, não como amante, mas como uma franca e leal companhia. George, sou um idiota ao privar-me do prazer em te ver no curto período de tempo em que estarás em Paris, antes da tua partida para Itália, onde teríamos passado juntos muitas noites maravilhosas, se eu tivesse a coragem. Mas a verdade é que sofro, e o meu vigor esmorece.

Alfred de Musset


Alfred de Musset nasceu em Paris em 1810.
Em 1833, depois de ler o segundo romance de George Sand (pseudónimo de Amandine Aurore Lucile Dupin), escreveu-lhe. Encontraram-se e apaixonaram-se um pelo outro. Dois anos depois ela deixou o marido. Musset tinha vinte e três anos e Sand tinha vinte e nove.
George Sand tinha uma crescente reputação como editora romancista. O facto de se vestir como homem e de o seu nom-de-plume ser masculino dava azo aos habituais sarcasmos quanto à sexualidade e vida pessoal, mas muita gente se apaixonou por ela.
Musset morreu aos quarenta e sete anos. George morreu com setenta e dois. 




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