quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

"O Ofuscante Poder da Escrita"



O Ofuscante Poder da Escrita


O sentido da literatura, no meio dos muitos que tenha ou não tenha, é que ela mantém, purificadas das ameaças da confusão, as linhas de força que configuram a equação da consciência e do acto, com suas tensões e fracturas, suas ambivalências e ambiguidades, suas rudes trajectórias de choque e fuga. O autor é o criador de um símbolo heróico: a sua própria vida. 

Mas, quando cria esse símbolo, está a elaborar um sistema sensível e sensibilizador, convicto e convincente, de sinais e apelos destinados a colocar o símbolo à altura de uma presença ainda mais viva que aquela matéria desordenada onde teve origem. O valor da escrita reside no facto de, em si mesma, tecer-se ela como símbolo, urdir ela própria a sua dignidade de símbolo. A escrita representa-se a si, e a sua razão está em que dá razão às inspirações reais que evoca. E produz uma tensão muito mais fundamental do que a realidade. É nessa tensão real criada em escrita que a realidade se faz. O ofuscante poder da escrita é que ela possui uma capacidade de persuasão e violentação de que a coisa real se encontra subtraída. O talento de saber tornar verdadeira a verdade. 

Herberto Helder, in 'Photomaton & Vox' 


7 comentários:

  1. "O ofuscante poder da escrita é que ela possui uma capacidade de persuasão e violentação de que a coisa real se encontra subtraída. O talento de saber tornar verdadeira a verdade. "

    E tantos outros talentos, tantos outros, tantos, tantos...

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    1. Apesar da frase parecer redutora, parece-me, também verdadeira.
      É, pelo menos, mais que aquilo que eu conseguiria dizer de modo igualmente eloquente.
      Agora acho que fui eu que confundi tudo...
      Volte mais vezes Lady Kina, pode ser que da próxima eu já tenha as ideias mais concertadas.

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    2. DC, volto sempre, a cada nova publicação, por vezes mais do que uma vez, quando a densidade do que é escrito assim mo exige. Depois saio sem comentar, talvez porque já lá esteja tudo, no texto. Partilho da percepção da Cláudia sobre este blogue, expressa no Tio. Desabituei-me de andar por aí de alma aberta, infelizmente, mas reconheço quem o faz e fico feliz. Então penso: Joaquina... Entretanto as ideias desconcertam-se todas :-).

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  2. DC, o poder da sua escrita faz-me arregalar os olhos e alguns posts lê-los não sei quantas vezes de tão bons que acho que são e se alguém tem de agradecer alguma coisa sou eu por poder ler aquilo que escreve, isto por me ter agradecido lá no Pipoco.

    Deixe-me só aproveitar para dizer a Lady Kina, que não devia desabituar-se de andar por aí de alma aberta, tenho cá para mim, que quando Lady Kina abre a alma, sai coisa de valor, isto a avaliar por alguns comentários que leio de Kina, a ser uma autêntica Lady.

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