segunda-feira, 24 de outubro de 2011

O Inverno que chora



Amanheceste difícil. Com maus modos e vontade de brigar. De cara fechada, as lágrimas ameaçaram cedo cair. E assim sucedeu. Depois de lutares contra as cores saturadas do dia em que nasceste, lá cedeste. Choraste copiosamente. De quando em vez erguias a cabeça e cessavas. Depois perdias-te e voltavas a desesperar-te. Choraste muito. Agora, que já vão tardias as horas, ainda choras. Temo que amanhã ainda sofras do cinzento que te engoliu. Entrego-me às tuas intempéries em como assim ficarás por muitas luas e marés. 
Hoje começaste uma jornada que perdurará por tempos incertos. Essa incerteza dorida pela qual eu ansiei nos dias passados. Nos muitos dias tórridos que conheci antes da tua chegada. Mas sabes bem... Essa penitência de frio a que me sujeitas é o meu alento para as depressões que se fazem adivinhar. Os pensamentos que vagueiam entra a melancolia e a morte não se compadecem com os tons dourados de outras épocas. Apenas o teu breu é capaz de alimentar o desalento que me irriga e faz caminhar.
Chegaste de rompante (como se não fosse previsível que virias) e encheste-me a vida. Mataste a de outros em meu benefício. Agradeço-te por isso. Muitos não reconhecerão a tua generosidade.
Apesar de te conhecer choroso, é nessa fraqueza que te admiro. Porque não conheço mais nada em género masculino que chore tanto como tu. Porque nasci em ti e sabe Deus que em ti morrerei um dia. Porque vi o mundo pela primeira vez num dia demasiado invernoso, para quem era tão desprotegido. A protecção que sempre me deste só pode ser entendida por um pai que recolhe uma filha sob a sua enorme capa preta. Obscura mas protectora. Incompreensível mas cúmplice.
Quedei-me de amores por ti desde o dia em que nasci. Será a única razão porque choro metade do ano em que não estás. Será a única razão porque lamento-me os outros seis meses a inevitabilidade do teu fim.
Tu, aquele que não é amado por ninguém, és aquele que mais adoro.

Obrigada Inverno por teres chegado para me aconchegar e me ouvir nos dias pálidos em que ninguém me compreenderá. Podes continuar a chorar. Vou estar a teu lado.







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